A Ditadura do Livro


Mês passado participei da III Mostra de Artes da UFF, com a palestra “Publicar um livro ou ser escritor?”. Foi a segunda vez em que estive em um teatro. A primeira foi na minha colação de grau em Pedagogia, no teatro da UERJ, há cerca de dois meses. Não que eu nunca tenha tido interesse, a questão é que os ingressos para peças de teatro são bem caros, pelo menos para a maioria dos brasileiros, assim como são caras as exposições de arte em museus, as entradas para o cinema, e os livros. É… os livros também são muito caros.

O alto custo desses produtos culturais fundamenta minha bronca com as pesquisas que divulgam que o brasileiro lê pouco, ou que o povo tupiniquim frequenta poucos espaços destinados à cultura. Mas é evidente! Isso tudo está fora da realidade da maioria, repito. Para os mortais, resta a TV, os filmes compartilhados pela internet, o teatro de rua. O valor elevado acaba por selecionar o público e elitizar essas representações da arte, infelizmente. No caso do livro, objeto dessa reflexão, se ele é caro para o leitor, também é para o autor, pelo menos para aqueles que ainda não foram iluminados pelos faróis das grandes editoras, e que dependem das empresas por demanda e da autopublicação. A eles cabe todo o custo de produção do livro, seja a revisão, a diagramação, capa, impressão, distribuição e divulgação. O valor cobrado por uma livraria varia de 30% a 40%. E os direitos autorais, de 5% a 15%.

E daí, Pacheco?

Daí que o camarada que começa a escrever, quer publicar um livro (ou se sente pressionado para isso). Até porque isso envolve aquela visão romântica do “ser escritor”. O livro publicado por uma editora, mesmo que por demanda, carrega o estereótipo de ter sido avaliado por uma equipe, que atesta sua qualidade editorial. Na verdade, o que é avaliado é a sua liquidez no mercado. Vai vender? Ótimo! Vamos publicar!

Quando eu comecei a escrever em 2006 (levando em consideração a pergunta enunciado da palestra, posso considerar que estou comemorando 10 anos de carreira!) eu também pensava assim. Assisti a uma entrevista em que a autora provocava o espectador (ela lançava um livro) “Você já pensou em escrever um livro?”. E eu, que já pensava em escrever, fui subitamente lançado na prática literária, não fazendo experiências, com um texto aqui, e outro acolá, mas preparando logo um romance a enviar para as editoras. Como se para ser reconhecido como escritor, eu precisasse de um livro com meu nome. Na mesma época, conheci muita gente que publicava na internet, em sites especializados e também passei a publicar por lá. Mas para mim – e para os outros – eu tinha que ter um livro, pelo menos um, e assim tirar minha onda de escritor.

Não é bem assim, cara pálida.

E Herbert Vianna, ou Renato Russo? Não são poetas? Tem algum livro de poesias publicado? Vejam o caso recente do Bob Dylan: Nobel de Literatura!

E Maurício de Sousa, criador de personagens que atravessaram décadas? É desenhista ou escritor?

Para mim ele é escritor, assim como tantos outros desenhistas de quadrinhos, roteiristas de filmes, peças de teatro, músicos, todos eles. E não há necessidade nenhuma de ter um livro para isso.

Há muito tempo e cada vez mais, existem variadas plataformas de publicação (tornar público) de um texto literário, como o cinema, os quadrinhos, e a internet. Diversos jornais possuem além de seu suporte físico, o sítio digital, com os mesmos colunistas e cronistas, que mesmo sem ter livros, não podem deixar de ser considerados escritores.

Contudo, caro leitor, o problema não é o livro. Quem escreve tem todo o direito de desejá-lo, ele só não pode se sentir pressionado a tê-lo. O livro é o fim, e não o meio. Escrever é ter algo a dizer, e publicar é tornar público, de qualquer forma. Seja nos blogs ou subindo em um caixote e recitando a poesia em plena rua. Não importa. Importa mesmo é dizer, simples assim.

Devemos pensar no livro como um casamento. Publicar um livro é casar, mas antes disso, e tão importante quanto, é namorar. Antes de pensar em seu livro, caro colega recém-escritor, permita-se escrever sem compromisso, a namorar com a Literatura, recitar poesias nas ruas e postar em blogs. Namore bastante – e que seja tão bom para a Literatura quanto for para você.
George dos Santos Pacheco

George dos Santos Pacheco (Nova Friburgo, 7 de outubro de 1981) é um escritor friburguense. Um dos autores da Coletânea “Assassinos S/A Vol. II”, e do romance “O fantasma do Mare Dei”, ambos publicados pela Editora Multifoco em 2010. Participou da antologia “Buriti 100”, pela Editora Buriti preparou para comemorar o lançamento do seu 100º livro. É também autor do romance "Uma Aventura Perigosa", do livro de contos "Sete - Contos Capitais", do infantil "As aventuras de Frog, o ratinho", e do livro de contos Tarde demais para Suzanne. Tem textos publicados em diversos blogs e sites especializados, é colunista da Revista Êxito Rio, e mantém desde 2009 o blog Revista Pacheco, onde publica seus próprios textos e de colaboradores. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, no tema lírico-filosófico; foi premiado em 1º lugar, na categoria crônica, e em 2º lugar, na categoria conto, no 1º Concurso Literário da Câmara Municipal de Nova Friburgo, Troféu Affonso Romano de Sant'anna; e em 3° lugar, na categoria prosa, no I Concurso de Prosa e Poesia de Bom Jardim - RJ, com o conto "O Dono do Bar", durante a III Festa Literária da Serra (FLITS). Em 2014, teve seu conto "A Dama da Noite" adaptado para um curta metragem homônimo, através do coletivo audiovisual "Sétima Literal", de Nova Friburgo, que serviu de cartão de visitas da cidade para a implantação de um Polo de Audiovisual na região.
*Publicado na Revista Êxito Rio em 10/11/2016.

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