Me desculpe, mas Bauman não sabe de nada


Ei, sociólogo, você, com sua idade, já se apaixonou à distância? Presumo que não. O senhor, com todo o respeito, não sabe nada a respeito do nosso tempo. Sim, o senhor, que sabiamente utiliza da fluidez dos líquidos para caracterizar a pós-modernidade, pouco entende de nossas metáforas.

As relações não estão descartáveis, Bauman. Bem verdade que é mais fácil excluir um ex-amigo de sua lista na rede social, mas o senhor não sabe o que é ter de sair de um grupo chamado "família"; o que significa deixar de seguir alguém para não vê-lo seguir outros caminhos. E apagar fotos da memória do celular pode parecer um ato instantâneo e impulsivo, mas só conhece o sentimento aquele que está tentando descartar alguém de sua memória sem cartão.

As pessoas não estão mais distantes, meu caro. Estão conectadas o dia inteiro, presentes nos planos de fundo dos aparelhos móveis, e acredito que nunca tenha sido tão difícil romper esses laços.

O fato é que eu não me encontro em posição de discutir com Weber, Marx ou Durkheim - o meu discurso não é acadêmico, ao contrário, é passional - mas eu discuto com o senhor, Zygmund Bauman, que tanto oferece impressões acerca de nosso tempo, mas nunca saberá o que é ser jovem na era digital.

Concluo dizendo que o amor não mudou; não liquefez-se. Aliás, muitas vezes, se calcifica em posição errada, tamanha a intensidade com que vivemos, e deixa marcas, mas nossos amores não são descartáveis - nem foto, nem like - e sofrer por amor é coisa que não mudou.

Ania é uma jovem escritora. E não socióloga.


Referência da imagem: <http://images.wemystic.com.br/articles/850_400_amor-distancia-850.jpg> acesso em 29/07/2016

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.