Júlio Mário Salusse, o poeta de "Cisnes" e Patrono da Academia Friburguense de Letras


Júlio Mário Salusse (Nova Friburgo, 30 de março de 1872 – Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 1948) foi um advogado e  poeta brasileiro.

Nascido na Fazenda do Gonguy, no atual município de Bom Jardim, a 30 de março de 1872, recebeu o mesmo nome do pai, vitimado por uma epidemia de tifo, quando o filho tinha poucos meses de vida. A mãe, de nome Hortência, casou pouco tempo depois. O padrasto, movido por ciúme póstumo, na definição de Nilo Bruzzi em “Júlio Salusse, O Último Petrarca” (Editora Autora, 2.ª Edição, Rio de Janeiro, 1956), não gostava do enteado. Entre o filho e o segundo marido, Hortência optou pelo segundo, entregando o menino, aos cinco anos, para a avó cainha.

O poeta de “Cisnes” era, pelo lado paterno, neto de uma das primeiras imigrantes suíças, Marianne Joset, que colonizaram Nova Friburgo, e de Guillaume Marius Salusse, oficial de Napoleão Bonaparte, que sobreviveu à Batalha Naval de Trafalgar, onde morreu o famoso almirante Nelson. Marianne, órgão durante a travessia do Atlântico, era sovina e autoritária ao extremo; Guillaume era um sonhador, embriagado com a glória medalha de ouro que Napoleão, in extremis, mandara deixar de herança aos heróis de suas aventuras militares. Marianne era o terror de filhos e netos; Guillaume, a glória viva que podiam tocar. Dele, herdaram o sonho de imortalidade e da avó a riqueza material.
Júlio Salusse e Nilo Bruzzi no dia 23 de dezembro de 1947
Com a morte do avô herda uma verdadeira fortuna que lhe permitirá estudar em bons colégios, iniciar o curso de Direito na Faculdade de São Paulo, transferindo-se depois para o Rio de Janeiro. Dá-se ao luxo de interromper os estudos e passar vários meses em Paris, levando vida de nababo e escandalizando franceses ao contar histórias mirabolantes de leões gigantescos caçados em seu castelo imaginário de Nova Friburgo. De volta ao Brasil, conclui o curso de Direito e vai advogar e exercer o Ministério Público no interior do Rio e Minas Gerais. Após permanecer alguns anos em Nova Friburgo, Júlio Salusse mudou-se para o Rio, onde dissipou sua fortuna, com bebidas caras e mulheres bonitas. Em 1917, na miséria, obrigou-se a se desfazer até mesmo de sua biblioteca, vendendo até mesmo os únicos exemplares de “Nevrose Azul” e “Sombras”. Foi advogar. Anos depois se restabeleceu financeiramente. Escreveu mais alguns raros poemas, que permaneceram inéditos.

Parnasiano, notabilizou-se pela autoria de "Cisnes", que goza até hoje de extrema popularidade.
 
Principais obras
Do próprio autor

* “Nevrose Azul” - poesia (1884)
*“Sombras” - poesia (1901)
*“A negra e o rei” - novela (1927)
Póstumas

* “Fitas Coloridas” - poesia, em Obra Poética de Júlio Salusse”, Antônio Carlos Secchin (Anais da Biblioteca Nacional, vol. 113, 1993, Rio de Janeiro).

Antônio Carlos Secchin encontrou num sebo um volume manuscrito reunindo toda a obra de Salusse conhecida e alguns inéditos de que se possuía notícia. O mais interessante é que “Sombras” seguia a ordem da edição príncipe e, em “Nevrose Azul” lá estava “Sonhando”, a continuidade do soneto “Cisnes” de que falara Carlos Heitor Castello Branco em “Salusse, o Poeta dos Cisnes” (Editora Hucitec, São Paulo, 1979).

Segundo cálculos de Antonio Carlos Secchin, em seus 75 anos de vida, Júlio Salusse escreveu 61 poemas, publicou dois livros de versos e uma novela, “A negra e o rei”, em 1927. Historiadores e críticos literários situam-no entre os “epígonos do parnasianismo”.

Curiosidades

Os biógrafos, como Rubens Falcão, ator da plaqueta “Júlio Salusse”, impressa em 1973, sem data e sem local, afirmam que “Cisnes” foi inspirado por Laura de Nova Friburgo, filha do 2º Conde de Nova Friburgo. Outra musa do poeta seria Vera Van Erven, ambas primas. Estudos históricos e genealógicos, disponíveis na internet vão de encontro às informações dos biógrafos, ouvidas do próprio poeta.

Segundo J. B. Athayde, em seu inédito “Genealogia Fluminense – Morais Originários de Cantagalo”, citado por Pedro Wilson Carrano Albuquerque, em texto disponível no sítio Usina de Letras, a inspiradora do soneto foi Maria Honorata da Silva Freire, avó de Laura, nascida pela década de 1820 e já falecida em 1898. As crônicas da época registram que sempre foi bonita, mesmo em idade avançada. E tem mais, segundo o mesmo Pedro Wilson, Vera Van Erven nasceu em 24 de abril de 1885, portanto, mais de dois anos após a publicação do soneto. Já Laura de Nova Friburgo nasceu em 1893 falecendo em avançada idade no ano de 1971.

A serem verdadeiras as informações de historiadores e genealogistas fluminenses toda a história envolvendo o amor de Júlio Salusse pela “castelã do Barracão, lindíssima, de um moreno delicioso, olhos brilhantes e escuros, cabelo castanho, delicada, distinta, recém chegada da Europa, onde se fora instruir (...)” como a descreve Nilo Bruzzi, que conviveu com o poeta nos últimos trinta e tantos anos de vida é mais um cisne, literariamente criado. Como é que um soneto poderia ser inspirado exatamente uma década antes do nascimento da inspiradora.

Assim, é mesmo possível como registrou J. B. de Athayde que tenha sido a avó e não a neta. Isto, porém, já é um caso para alguém que aprecie a chamada crítica literária psicológica.

Preso entre mulheres antitéticas, a simpática e bela Maria Honorata da Silva Freire poderia muito bem ter inspirado “Cisnes” e outros poemas juvenis de Júlio Salusse. Para preservar a grande paixão platônica, transferiu a identidade para a neta da bem-amada. Além do mais era muito mais poético ligar Laura de Nova Friburgo a Laura de Noves, o grande amor platônico de Petrarca.
Acusação de plágio

Muitos críticos literários afirmam que “Cisnes” não é trabalho original, dando-lhe como plágio ou derivação de um soneto de Fagundes Varela, transcrito a seguir:

Soneto

Eu passava na vida errante e vago
Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago.

Beijava a onda num soluço mago
Das moles plumas a brilhante alvura.
E a voz ungida de eternal doçura
Roçava as nuvens em divino afago.

Vi-te, e nas chamas de fervor profundo
A teus pés afoguei a mocidade,
Esquecido de mim, de Deus, do mundo!

Mas, ai! Cedo fugiste!... da soidade,
Hoje te imploro desse amor tão fundo
Uma idéia, uma queixa, uma saudade!

Em seguida, o texto de Salusse
Cisnes

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul, sem ondas sem espumas!

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinaes, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas!

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a agua se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sósinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne...

Academia de Letras


Júlio Salusse é o patrono da Academia Friburguense de Letras, órgão literário brasileiro localizado em Nova Friburgo e fundado em 22 de junho de 1947. Os cisnes representam junto ao brasão com a inscrição do lema da instituição, um dos símbolos da academia. O poeta também dá nome a uma escola da rede estadual de ensino em Nova Friburgo.
Popularidade de “Cisnes”
Os poucos biógrafos do poeta, no geral, dizem que ele era ressentido com a popularidade adquirida com o soneto famoso. Agripino Grieco, em suas “Memórias”, como transcreve Carlos Heitor Castelo Branco, escreveu o seguinte:
“Salusse indignava-se quando insistiam em falar-lhe no soneto “Os Cisnes”, preferia uma coruja que compusera depois e de que mais ninguém gostava. Doente de cisma, freqüentava muito as farmácias. Em suma: escreveu centenas de linhas rimadas e ficou sendo como Anvers, o autor de quatorze versos apenas” .

Carlos Heitor Castelo Branco escreve o contrário:
"(...). Jamais Salusse, como propalam, renunciou ao “Cisnes”. Ao contrário, tinha orgulho de seu trabalho; o que não gostava era de ser chamando de poeta de um só soneto, ele que tantos sonetos escreveu, tantos belos e perfeitos, dentro do rigorismo da escola parnasiana. (...)”.

A autoria dos grifos no soneto de Fagundes Varela é de Rubens Falcão, que defende a autenticidade do consagrado poema do poeta de Bom Jardim, nestes termos textuais:
“Mestre Joaquim Ribeiro, tratando do assunto em “Letras e Artes”, aí por volta de 1950, não vê nisso imitação alguma, nem mesmo paráfrase; quando muito, uma espécie do que denominou – “influxo catalítico”. Para ele, “é um fato geral nos poetas reunir, muitas vezes, em seus poemas, a fonte afetiva, vindo da vida, à fonte literária, nascida de sua integração no mundo das letras. Uma, a outra não exclui”. Salusse terá lido os versos de Varela “e guardou em seu subconsciente, como um búzio, o rumor suave desse mar de lirismo”. (...)”

Júlio Salusse pode ser considerado um poeta bissexto. Em vida, como já vimos, publicou apenas dois pequenos volumes: “Nevrose Azul” (1884) e “Sombras” (1901). Havia a intenção de publicar seus inéditos, como se vê através de pesquisas iniciadas em 1929 por Carlos Heitor Castelo Branco. Alguns dos poemas recolhidos pelo biógrafo de jornais antigos reaparecerão no manuscrito publicado por Antonio Carlos Secchin, além de outros que aparecem na biografia escrita por Nilo Bruzzi. “Fitas Coloridas” é o nome com que aparecem publicados por Secchin, tanto velhos poemas quanto inéditos.

Quanto às causas que levaram “Cisnes” a cair no gosto popular a melhor análise foi efetuada por Raimundo de Menezes, em artigo publicado em O Estado de São Paulo, pouco depois da morte do poeta, e transcrito por Carlos Heitor Castelo Branco:
“O ‘enjambement’ nos dois primeiros versos, com a repetição propositada do ‘algumas vezes’, era a prova de fogo dos recitadores. Depois o lago azul, desenhando no espaço, pela destra espalmada, era de um impressionismo lamartiniano. Os namorados deliciavam-se com a imagem; dois cisnes vogando indolentes, sobre as águas mansas do lago azul... Que direis a isto, namorados de hoje que rodais a noventa (contra os regulamentos do tráfego) pela Avenida Niemeyer? Vem nos tercetos a nota triste emocionante. A chave de ouro, eis o segredo do êxito que teve o soneto. Analisando, notam-se-lhe incorreções graves: a pobreza das rimas parelhas “certo e incerto”, a impropriedade do verbo tisnar, para indicar o luto do lago, mas que aí entrou a gancho por exigência da rima (tisne, cisne) maculam a beleza da idéia”.

Com elevado grau de pertinência Castelo Branco, de pronto, contradita a observação de Raimundo de Menezes, nestes termos textuais:
“O ‘enjambement’ usado por Salusse ‘algumas vezes – algumas vezes, mar fremente’, é que dá a beleza ao verso... Não sendo um recurso onomatopaico, cria por certo musicalidade perfeita, que só seria ‘prova de fogo’ para maus declamadores.

“Quanto à imagem ‘um lago azul, sem ondas, sem espumas’, o poeta procurou retratar uma vida serena; e quanto à impropriedade do verbo tisnar, Bastos Tigre, a quem conhecemos e admiramos, falhou redondamente como crítico literário: ‘No lago azul onde talvez a água se tisne’ a frase é de grande efeito, o emprego do vocabulário é perfeito, pois o tisnar das águas indica que o lago azul se tornou negro em virtude da morte de um dos cisnes, conseguindo Salusse usar, com todo encanto poético, a única rima existente na língua portuguesa para cisne, que não macula a beleza da idéia; ao contrário, soa para os ouvidos com a mesma serenidade com que os cisnes nadam sobre os lagos”.

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