Passei dos 25 e não fiz tudo o que planejei. Fiz o que pude.

       
           
     Ano passado completei 26 anos. As pessoas geralmente dizem que aparento ser mais jovem. Finjo crer que é pela aparência — o que é uma possibilidade — mas sei que o motivo mais provável talvez seja a sucessão de lacunas que minhas escolhas e as circunstâncias impostas deixaram no meu caminho, até aqui. Não adquiri casa própria. Não comprei um automóvel. Não aprendi a dirigir. Não escrevi um livro. Não concluí a faculdade. Não conheci o exterior. Não fiz uma tatuagem. Não encontrei a pessoa certa. Não me casei. Não tive filhos. Não fiquei rico. Não encontrei o emprego dos sonhos. Não me tornei chefe de nada. Não fui morar sozinho. E nada disso é, de fato, um problema, afinal de contas cada um tem o seu tempo.


               Esse tempo que vivemos, em que tudo é instantâneo e efêmero, estabelece uma série de diretrizes normativas que nos conduzem a um comportamento de rebanho. Condicionados à essa constante avaliação qualitativa, mediada por likes, terminamos por nos esquecer das coisas que são realmente importantes nas nossas vidas. E quais são elas? Essa é uma pergunta que o inconsciente coletivo não pode responder, pois é estritamente subjetiva. No entanto, o que posso aferir é que estejamos todos priorizando nossas vidas a partir de modelos pré-estabelecidos que já não nos servem.


              Nos últimos tempos, dificilmente encontro alguém com 20 e poucos anos que não esteja, senão completamente, ao menos, parcialmente insatisfeito com sua vida e suas escolhas. O que nos falta é nos darmos a oportunidade de errar mais. Temos o hábito de nos cobrar demais e isso causa uma espécie de paralisia sensorial. Uma ansiedade despropositada. Sempre que nos permitimos errar, nos sentimos mais leves e menos suscetíveis ao erro. Em consequência, erramos menos. Somos pressionados diariamente a sermos pessoas perfeitas, pessoas que não erram, que não falham, porque falhar é coisa de derrotado.


            Não importa que sejamos bombardeados diariamente com toneladas de mensagens positivistas que nos ditam uma infinidade de ideias desproporcionais que não correspondem ao factual. É claro que existem as exceções, mas assim como não precisamos ser regra, também não precisamos ser exceções — A menos que, ser exceção, seja o seu objetivo, é claro. Nos desprendermos da realidade é importante, sim. Flertar com a utopia é positivo, nos fortalece, nos recompõe, desde que saibamos delimitar a fronteira existente entre o real e o ideal. Não estou aqui para ditar novas regras, apenas acredito que precisamos romper com a zona de conforto, tentar coisas novas sempre que possível, mas também precisamos aceitar que algumas coisas não são possíveis para nós. E que isso não é ruim. Não somos obrigados a ser perfeitos, nem tampouco somos capazes disso. Não precisamos ter tudo o que nos dizem que devemos. Não precisamos seguir padrões definidos por outros. Só precisamos decidir.


    Alice R.
 
Pelo pseudônimo Alice Ryan, Dari.  26 anos, moradora de Nova Friburgo, região Serrana do Rio de Janeiro. Estudante de Publicidade e aspirante a escritora, possui uma página no Facebook que mantém aos “trancos e barrancos” (Por Alice). Trabalha com informática, mas sua verdadeira paixão é a arte. Leitora assídua desde pequena, apaixonada por palavras. Escrevo desde os 20, mas só agora aos 26, por meio de um pouco de coragem e incentivo, comecei a publicá-los.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.