Representação Social da escola é transformada através de projeto inédito no interior do RS


Estudantes e professores romperam a barreira invisível que separava o conhecimento teórico construído dentro da escola e os saberes da comunidade rural, onde a instituição está localizada.

Era uma vez uma escola rural onde não havia palmeiras e nem sempre se escutava o canto do sabiá. A instituição de ensino com nome de poeta – Gonçalves Dias – era mais uma entre as tantas demarcadas pelo paradoxo dos muros: de um lado a vida da pequena comunidade rural no interior de Canguçu; do outro os livros, os professores, a sala de aula...

As partes que permaneceram desconectadas por aproximadamente cinco décadas começaram a desenhar um novo sentido para a vivência escolar no segundo semestre de 2014, quando um projeto piloto foi implantado na instituição. Nascia o ‘Multiplicando Saberes e Pensamentos’ (MSP), experiência pioneira no país que se consolidou como um mecanismo de transformação da representação social da escola.

Localizada em Rincão dos Marques, 4º Distrito de Canguçu, a Gonçalves Dias está instalada próxima a uma comunidade quilombola e de pequenos agricultores. Apesar da proximidade física, uma barreira invisível manteve estes personagens separados durante décadas.

– Era como se não fizéssemos parte do mesmo espaço – conta a professora Berenice Machado, integrante da comunidade quilombola de Passo do Lourenço e responsável pelas disciplinas de Artes e Língua Portuguesa.

A conexão entre os moradores da região e a instituição de ensino ocorria apenas por meio dos filhos de agricultores em idade escolar. Cessado este período, a escola voltava a ser uma ilha fechada à riqueza imaterial de saberes daquela localidade.

O projeto


Construído através de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação e a empresa Safra Remix, o MSP garantiu aos professores encontros de formação pedagógica diferenciados – Aspectos teóricos e práticos da Teoria dos Campos Conceituais e um valioso instrumento para a materialização da interdisciplinaridade escolar e a construção da memória local. A escola recebeu uma moderna máquina capaz de produzir centenas de cópias por minuto e passou a editar um jornal – A Toca da Onça – que já chegou à sétima edição.

– Quando escrevíamos um texto, ele ficava restrito à turma e ao professor. Agora nosso trabalho é reconhecido. É como se a gente ganhasse o mundo – avalia a estudante Antoniela Aquino, de 14 anos, vencedora do concurso interno que definiu o nome do jornal.

A experiência, de fato, ‘ganhou o mundo’. Em julho o secretário nacional do Ministério da Educação, Paulo Gabriel Nacif, deixou Brasília para uma agenda exclusiva na Gonçalves Dias. O objetivo era conhecer de perto a experiência pedagógica inovadora.

– O que eu percebi neste local é que estamos diante de uma comunidade educadora. O que vimos aqui nos dá forças para seguir em frente. A dedicação de vocês nos desafia – disse o titular da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC), salientando que o trabalho inaugurado poderá ser reaplicado em outras regiões.

Nacif não apenas conheceu de perto a iniciativa como também virou personagem de uma edição extra do ‘A Toda da Onça’. Caroline e Larissa, alunas do 8º e 9º ano, foram as repórteres destacadas para a cobertura.

Para a professora Liziane Hipólito o MSP foi responsável também por um avanço significativo na relação com os textos.

– Percebemos na prática a função social da escrita. Tu não escreves para que o texto morra na pasta do professor ou retorne simplesmente riscado. Escreves para ser lido. E o nosso texto, que estava na sala de aula, de repente chegou à comunidade. De repente chegou a Brasília. Daqui a pouco ganhará o mundo, porque o céu é o limite – diz Liziane, responsável pelas aulas de Língua Portuguesa.

O papel social da escola

Diretora da instituição, Paula Jacondino revela que o MSP foi bastante focado na parte pedagógica, alternativa fundamental para dar embasamento aos educadores que se aventurariam através de uma prática transformadora.

– Eu tinha o sonho de que a escola se transformasse num lugar onde os alunos gostassem de vir, que fôssemos além da produção de textos e das fórmulas matemáticas. E hoje percebemos que isso realmente aconteceu – conta a professora.

A avaliação da diretora é complementada por uma opinião significativa. Única secretária de educação negra no RS, Ledeci Coutinho considera que os relatos de membros de comunidades quilombolas dados aos estudantes podem servir de ferramenta para aulas sobre História da África. Mais do que isso, a prática cotidiana na escola já derrubou muros e aproximou diferentes saberes.

– É um projeto que trouxe pela primeira vez em quase cinquenta anos de existência da escola uma ligação concreta entre a comunidade quilombola e a instituição de ensino – pontua.

A prática

A partir da formação pedagógica, nas Oficinas de Escrita Criativa e Leitura com Compreensão, os saberes, as aprendizagens e os pensamentos tomam forma. Construído a partir de eixos temáticos, cada edição do jornal destaca um tema específico. A publicação vai além da linguagem escrita, agrupando a maior diversidade possível de áreas do conhecimento. Reportagens, fotos, charges, crônicas, poemas e gráficos dividem espaço com dados sobre educação ambiental e estatística, mostrando que a matemática pode ir muito além da Fórmula de Bhaskara e se conectar às vivências de cada estudante. Na edição extra de julho, os alunos elaboraram um gráfico para avaliar a taxa de reprovação do 6º ano, considerada historicamente a mais alta na escola. O índice de reprovados, que chegou a 84% em 2010, despencou para 16% atualmente. As matérias de cada edição são construídas de forma coletiva. De câmera e gravador em punho, pequenos repórteres vasculham a comunidade onde vivem em busca de informações. Sem perceber, a cada construção textual, os jovens estão construindo também a própria história e a memória daquela comunidade.

A reaplicabilidade do projeto

Implantada inicialmente em Canguçu, a iniciativa já foi expandida para escolas do Maranhão. No município outras duas escolas – Marechal Floriano e Castelo Branco – integram o projeto. Conforme a secretária de Educação, a intenção é ampliar o trabalho para as demais instituições da rede municipal. A titular vislumbra uma finalidade ainda mais ampla para os textos produzidos.

– Transformar isso tudo em material didático é uma possibilidade muito real – avalia.

E assim, como num provérbio africano, os leões começam a contar as histórias que antes eram privilégio dos caçadores.

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