O universo do Jazz - Uma introdução - Parte II

Foto: http://radios.ebc.com.br/acervo-jazz/
Jorge Guinle, certamente o brasileiro que se tornou o maior conhecedor do jazz, no Brasil e no mundo, explicitou, no seu livro pioneiro “Jazz Panorama”, editado em 1954, alguns conceitos fundamentais para a exata compreensão da música jazzística.

O amante do jazz, via de regra, possui a intuição necessária para apreciar, de imediato, a linguagem jazzística.

Jorge Guinle a intitulava, na sua linguagem particularíssima, “a ponte entre o ouvido e a mente”. Quando não é o caso desta identificação imediata, o ouvinte precisa, preliminarmente, adquirir uma simpatia, uma predisposição para com a sonoridade e o ritmo sui generis do jazz. Em muitos casos, muitos vão direto ao conceito estético desfavorável, sem antes sentir esta reação básica.

Numa apresentação de música jazzística há, quase sempre, uma comunhão entre os aficcionados e os executantes, produzindo-se aos primeiros, uma compreensão direta, imediata, inesquecível e sem dúvida agradável.

Tão importante quanto, é a comunhão entre os executantes. Sua performance se alicerça normalmente num entrosamento perfeito e quase que milagroso, já que o jazz é uma manifestação de caráter exclusivamente improvisacional.

Esta simbiose perfeita e espontânea constituía-se traço comum entre os pioneiros jazzistas de New Orleans (a improvisação coletiva).
A forma mais pura do jazz é o blues, que voltaremos a abordar futuramente, como uma das etapas evolutivas mais importantes do jazz.

Os blues, forma fundamental do jazz, começaram a ser cantados nas últimas décadas do século XIX (1870 ?) pelos negros no sul dos Estados Unidos.  Estão impregnados de elementos do canto africano que diferem da harmonia clássica européia.

Nessa música primitiva, a afinação não se restringia aos tons e semitons da nossa escala, mas se constituia numa série de gradações, em redor da “tônica” e da “dominante”, que variavam em até 1/16 do tom.

Ou seja, nos blues, segundo Jorge Guinle,  que sintetiza o entendimento dos especialistas em teoria musical,  “...uma bemolização da têrça e da sétima (as chamadas blue notes) produz uma alternação constante entre os modos maior e menor. Ainda, a escala dos blues difere da escala clássica pelo fato da têrça, da sétima,  e às vezes da quinta,  serem bemolizadas”.

Aliás, o Dicionário de Música da Zahar Editores (1985) define a “blue note” como “Uma nota tocada em blues (usualmente a terceira ou a sétima da escala), deliberadamente desafinada, isto é, entre o intervalo maior e menor”.

O mesmo compêndio define o blues como uma “forma lenta e melancólica de música popular norte-americana que se desenvolveu a partir dos spirituals e canções de trabalho dos negros na década de 1860.

Originalmente consistia em uma sequência de 12 compassos (três grupos de quatro compassos, em que o segundo grupo é uma repetição do primeiro), obedecendo toda a sequência ao padrão de acordes tônica "subdominante" "dominante" "tônica". A linha melódica sincopada introduz harmonias baseadas em blue notes...”.

Daí, o blues é uma forma de execução na qual são utilizadas as chamadas “blue notes”.

Por isso, o mais importante a enfatizar-se, neste momento, é que  aqui entre nós, no Brasil, quando se fala em blues, equivocadamente supõe-se tratar de um slow fox ou de um melódico como “The man I Love”, “Night and Day”, ou ainda o conhecido tema “Blue Moon”.

Não necessariamente.  

Normalmente executados em tempo lento, os blues podem ser tocados em qualquer andamento, como o “Empty Bed Blues”, de Bessie Smith (tocado em tempo médio), o “Dippermouth Blues”, de Fletcher Henderson (em tempo rápido), o “Backwater Blues”, de Bessie Smith (o blues cantado),  “Lonesome Blues”, de Bunk Johnson (o blues executado em estilo New Orleans clássico), “One O’Clock Jump”, de Count Basie (o blues “swingado”)  e    “Billies’s Bounce”, de Charlie Parker (exemplo de blues em estilo bop).

Ainda com relação ao uso das “blue notes”, alguns etnomusicólogos  relutam em aceitar, em definitivo, as explicações para tais fenômenos.  A questão refletiria, talvez, a resistência cultural do negro em aderir, de uma forma completa, à tonalidade européia.

Feliz e oportuna rebeldia, porque a  beleza e originalidade destes sons, ouvidos inicialmente nas margens lamacentas do Rio Mississipi, ganharam mundo e, em menos de sessenta anos, sua influência pode ser percebida mesmo nas criações dos grandes compositores eruditos do Século XX.   

Fortemente impregnado de caracteres jazzísticos, mesmo não sendo puro jazz, como queriam os puristas do gênero, surge em 1923 o balé “La Création du Monde”, do francês Darius Milhaud (este que, por sua vez, veio a ser o professor de piano do grande jazzista Dave Brubeck);  em 1924 acontece a estreia de “Rhapsody in Blue”, do norte-americano George Gershwin;   em 1927 o austríaco naturalizado norte-americano Ernst Krenek editava a sua ópera “Johnny Spielt Auf”, protagonizada por um violinista negro da música do jazz.

O mesmo fenômeno aconteceu, e ainda hoje pode se observar, com relação à compreensão do que é a música do jazz. Nos anos 20 e 30 confundia-se com o jazz a música de grandes orquestras, típica para dançar, “xaroposa”, comercial mesmo, de Paul Whiteman e Jack Hilton. Alguns anos depois, na Europa e particularmente na Alemanha, toda a canção com um ritmo bem marcado e sincopado era rotulada como música de jazz.

Para finalizar esta pequena introdução, que pretendo seja a primeira de muitas crônicas sobre jazz, sobre música erudita e sobre música em geral, seria de se registrar, a título ilustrativo, que a palavra jazz apareceu impressa, pela primeira vez, num jornal de São Francisco, Califórnia, nos primeiros anos do Século XX, não obstante o pianista Jelly Roll Morton, de New Orleans, ter afirmado categoricamente que “Fui eu quem inventou o jazz, no ano de 1902”.  

No seu cartão de visitas ele anunciava solenemente  “Jelly Roll Morton, Originator of Jazz and Stomps, Victor Artist, World’s Greatest Hot Tune Writer”.

Não obstante a flagrante imodéstia do legendário tecladista, porque não há registro histórico de que a música do jazz, naquela época, tenha sido assim rotulada, Jelly Roll  tem sido considerado pelos historiadores e pela crítica especializada como o primeiro grande compositor do jazz.

Alberto Lima Abib

Alberto Lima Abib – Nascido em Duas Barras(RJ), é descendentes de famílias portuguesas, libanesas e suíças. Economista aposentado do Banco Central do Brasil, foi diretor de empresas governamentais brasileiras no exterior. É membro da ACADEMIA FRIBURGUENSE DE LETRAS – AFL, da SOCIÉTÉ FRIBOURGEOISE DES ÉCRIVAINS – SFE, (de Fribourg, Suíça), da SOCIÉTÉ D’HISTOIRE DU CANTON DE FRIBOURG (Suíça), e membro do CBG-COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA.


* Publicado na Academia Friburguense de Letras, em 07/12/2015.

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