O universo do Jazz - Uma introdução - Parte I

Foto: http://radios.ebc.com.br/acervo-jazz/
O jazz não é um tipo de música, mas uma maneira de tocar música, um modo de expressão musical originado na assimilação, pelo negro americano, da música européia com suas raízes africanas, tendo como elementos principais o beat  ou swing, caracterizando-se fundamentalmente por forte tensão e por uma improvisação, parcial ou total, numa execução instrumental ou vocal. 

Definições como esta por mim proposta, continuam sendo tão incompletas como tantas outras proclamadas por personalidades de toda a parte, músicos ou não músicos,  ligados ou não à literatura especializada, com indisfarçável diletantismo.  

Joachim-Ernst Berendt, cidadão alemão, entusiasta do gênero e grande conhecedor do jazz, inclusive o  europeu, assim o definiu:

O jazz é uma prática musical que nasceu nos Estados Unidos graças ao encontro do negro com música européia. O arsenal harmônico, melódico e instrumental procede fundamentalmente das tradições musicais do Ocidente. Os ritmos, o fraseado, a sonoridade, assim como certas particularidades da harmonia do blues, incorporam à origem africana o senso musical dos negros americanos. 

Três elementos básicos distinguem o jazz da música européia: 

1) uma relação especial com o sentido de tempo, caracterizada pelo que chamamos swing; 

2) uma espontaneidade e uma vitalidade da produção musical, com importante papel atribuído à improvisação; 

3) uma sonoridade e um fraseado que refletem a individualidade do músico em ação. 

Esses três elementos básicos criam um tipo de tensão que não se compõe, como na música européia, de grandes sequências, mas sim de uma porção de pequenos elementos de tensão, que se aglutinam para desarticular-se em seguida, criando uma poderosa intensidade. 

Os diferentes estilos, as fases de desenvolvimento por que passou o jazz desde  que surgiu na virada do século até hoje, caracterizando-se em boa parte pelo fato de os três elementos básicos assumiram, a cada vez, uma significação diferente e se inscreverem em novos tipos de relação”.

Mas o que significaria o jazz para aqueles que o criaram? E para aqueles que o praticaram, ao longo de toda a sua história? E para os que o vivem ainda hoje? Inúmeras são as colocações, todas diferentes entre si, algumas até exóticas.

Fats Waller, o grande pianista dos anos 1920 e 1930 que o Harlem conheceu, diz: “Se você não sabe o que é jazz, não perca o seu tempo...”, e ainda também dele: “O jazz não é o que você toca, mas a maneira como o toca”.

O sax-tenor Jimmy Heath da escola de Filadélfia: “sem levar em conta seu lado mental, espiritual, não dá para pegar o jazz em sua totalidade”.

Louis Armstrong responde que “se você precisa perguntar, então não vai saber nunca”.

Johnny Griffin: “Jazz is shit”.

O grande Charlie Parker esclarece que “Se você não o viveu, não adianta que ele não sairá de seu instrumento”.

O pianista Teddy Wilson, por sua vez, lhe dá uma definição um pouco mais romântica: “Jazz é o que se passa entre você e eu, é o amor”.

Sun Ra, expoente do free jazz e diretor da Orquestra Galática: “O jazz é o cosmo, é tudo, o jazz é você, tudo está em você” e “O jazz é o timbre do universo”.

Archie Shepp: “O jazz é a música negra” e “O jazz é a liberdade”.

Já o inovador Miles Davis enfatiza que “Jazz é uma palavra inventada pelos brancos”.

Curiosa é a afirmativa do saxonista Lennie Tristano: “O jazz  não é especialmente africano. Os rabinos nas sinagogas e os ciganos estão mais perto do jazz do que seja quem for na África”.

Dizzy Gillespie, um dos criadores do bebop: “O jazz é o que faz com que este século não soe como os outros”.

Dave Brubeck disse que “O jazz é, sem dúvida, a única forma de arte existente hoje em dia que conserva a liberdade do indivíduo sem tirar-lhe o sentimento de ligação”.

O pianista, compositor e band-leader Duke Ellington resumiu assim seu pensamento: “O jazz é a liberdade de possuir muitas formas”.

O poeta Jean Cocteau, escreveu que “Causa-me espanto que o jazz não tenha existido sempre. Nada consegue ser tão intenso como o jazz”.

Blaise Cendrars, qualificado na crítica literária como um escritor maldito, proclamou que “O jazz não é a arte pela arte, mas uma nova razão de viver”.

Etimologicamente a palavra “jazz” se perde nas brumas da história e derivaria, segundo alguns, de um monossílabo da África Ocidental significando coito.

Para outros viria da expressão “jaser”, do dialeto crioulo da Louisiana, que por sua vez evocava o termo “jaïza”, originário da costa noroeste da África, para designar “o som de tambores distantes”.

Para outros tantos, a palavra jazz teria ainda origem mais antiga, isto é, na gíria dos negros africanos "o que elidiria a hipótese de figurar em textos impressos" nas expressões jism, gism, jasm, referindo-se a “sêmen”, “energia”, “vigor”, mas com marcantes conotações sexuais e também de obscenidade.

Era expressão comum entre as antigas divas do blues a exclamação: give me your jazz”.

Alberto Lima Abib

Alberto Lima Abib – Nascido em Duas Barras(RJ), é descendentes de famílias portuguesas, libanesas e suíças. Economista aposentado do Banco Central do Brasil, foi diretor de empresas governamentais brasileiras no exterior. É membro da ACADEMIA FRIBURGUENSE DE LETRAS – AFL, da SOCIÉTÉ FRIBOURGEOISE DES ÉCRIVAINS – SFE, (de Fribourg, Suíça), da SOCIÉTÉ D’HISTOIRE DU CANTON DE FRIBOURG (Suíça), e membro do CBG-COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA.

* Publicado na Academia Friburguense de Letras, em 03/12/2015.

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