O universo do Jazz - O “background” africano - Parte I

King Oliver's Creole Jazz Band (1921)
Tem-se amplo conhecimento de que a música européia, estudada e transmitida ao longos dos séculos, teve uma contribuição relevante para a formação da música jazzística.
Da música africana se poderia dizer que foi fundamental no desenvolvimento do jazz e que se tornou parte dele, embora se trate de matéria ainda não totalmente explorada e não muito conhecida.
 
Portanto, alguns dos elementos de formação do jazz são inequivocamente africanos. Leonard Feather em seu monumental trabalho denominado “Encyclopedia of Jazz” enumera seis elementos básicos:

*ritmos da África Ocidental,
*estrutura harmônica da música clássica européia,
*melodias e harmonias da música folclórica norte-americana do Século XIX,
*música religiosa,
*work songs e
*músicas do minstrels show.

O escritor, jornalista e crítico de jazz Roberto Muggiati, por sua vez, chega mesmo a enfatizar que “O jazz nasceu de um ato de violência, com o negro arrancado da África para trabalhar em outra terra, do outro lado do oceano”.

Houve época em que se pensava que os escravos tinham origem em todo o continente africano, e que apenas os mais fracos eram capturados e vendidos. Melville J. Herskovits, antropólogo e estudioso do assunto comprovou que a maioria dos escravos provinha da costa ocidental da África, principalmente do Senegal, da Costa da Guiné, do delta do Níger e do Congo.

Apurou também que os comerciantes africanos que vendiam os escravos eram os vencedores e sobreviventes das guerras tribais e dinásticas.

Uma vez sobrepujando-se aos seus inimigos, que saqueavam e aprisionavam, ofereciam suas presas aos traficantes de escravos para serem vendidos na Europa e na América.

À medida que a procura de escravos avançava na direção norte/sul do continente africano, a partir de Dakar até o Congo, notabilizavam-se como traficantes primeiro os portugueses, depois os holandeses e em seguida os ingleses e espanhóis, com os franceses em menor escala.

Cada potência européia supria as suas colônias no Novo Mundo com escravos das tribos que eram saqueadas e os plantadores de cada uma das colônias davam preferência a gente de tribos com que a mãe pátria os supria.

Assim, os plantadores espanhóis  preferiam os iorubas, os ingleses os ashantis, assim como os plantadores franceses preferiam os daomeanos.

Não obstante as muitas exceções, parece que o padrão global de distribuição dos escravos africanos prevaleceu ainda por algumas gerações, e foi determinante na transmissão da cultura: a música africana predominante em Cuba (originalmente colônia espanhola) é ioruba, na Jamaica (inglêsa) é ashanti, assim como no Haiti (colônia francesa) e em New Orleans (primitivamente território francês, que recebera grande contingente de negros do Haiti) era daomeana. Mas em todas essas etnias, a musicalidade era um fato.

Apesar de proibido o tráfico em 1808, pelo governo norte-americano, os escravos continuavam chegando. Em 1860, às vésperas da Guerra de Secessão, eram cerca de três milhões de negros e mulatos em território norte-americano.


Alberto Lima Abib

Alberto Lima Abib – Nascido em Duas Barras(RJ), é descendentes de famílias portuguesas, libanesas e suíças. Economista aposentado do Banco Central do Brasil, foi diretor de empresas governamentais brasileiras no exterior. É membro da ACADEMIA FRIBURGUENSE DE LETRAS – AFL, da SOCIÉTÉ FRIBOURGEOISE DES ÉCRIVAINS – SFE, (de Fribourg, Suíça), da SOCIÉTÉ D’HISTOIRE DU CANTON DE FRIBOURG (Suíça), e membro do CBG-COLÉGIO BRASILEIRO DE GENEALOGIA.

* Publicado na Academia Friburguense de Letras, em 09/12/2015.

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