Janela Fechada


A Vida é estrada de racionalidade com amplos e infindáveis questionamentos, durante a caminhada se verá e se passará tanto por dias ensolarados quanto por tempestades, se plantará e colherá...

De fato ela não foi não é e nem será fácil, entretanto, há uma saída de emergência: a Arte, sobretudo a Poesia e o Teatro. Se não os fossem, o Mundo seria terrivelmente acometido por mortos vivos, ou seria por vivos mortos? Afinal não aguentaríamos as intempéries advindas da existência e dos sentimentos.

A Poesia e o Teatro, seja para quem os fazem seja para quem os usufrui, é a válvula de escape, é por onde e com quem se desabafa e se desconta a raiva ou o sentimento que for. Portanto, a Arte é metade solitária e metade aberta ao público, e se não os tem, o atestado de óbito do artista é cruelmente assinado pela ilusão.

Pensadores e Filósofos há aos montes, de algum modo, sempre refletindo sobre a Vida. Refletir sobre a Vida e questionar a nós mesmos! Está aí uma coisa quase em extinção.

É sobre isso que trata "Janela Fechada", mas há como pano de fundo a esquizofrenia e a homofobia. Logo pelo nome da peça já surgem algumas indagações: Será uma janela concreta ou uma metáfora? Janela Fechada para quem e por quê? Será mesmo que é a janela que está fechada ou que talvez até quem esteja do lado de fora é que não quer ou é impedido de entrar?

Juventino é um velho esclerosado, mal humorado e solitário. Sua esposa falecera e seu filho mora em casa própria. Vivendo sozinho, seus únicos prazeres é ter liberdade para comer, beber, tomar os remédios e fazer o que quiser a hora que lhe der vontade, e se masturbar assistindo à filmes eróticos. Calma, não se assuste! Juventino o faz por meio do cordão da calça.

No exato momento em que realiza tal feito é pego de surpresa por Zuzu, um travesti contratado por Marcos – filho de Juventino – para cuidar de seu pai. No início o velho não gosta da ideia e tenta de todo jeito se livrar de Zuzu, fingindo, inclusive, um ataque epilético para tanto.

Mais à frente ocorre outro ataque, desta vez, verdadeiro. Chega a se pensar que Juventino realmente subira ao céu. Procurando os remédios do velho, Zuzu encontra o livro Arte de Amar, e ao folheá-lo vê a foto de um homem muito parecido com Juventino, mas com outro nome de autor na capa. Logo deduz que Juventino fora, ou talvez ainda seja escritor.

Ambos se aceitam e entram em um acordo. Em dada situação, Zuzu pede e tenta abrir a janela, mas é interrompida por Juventino. Este a diz que não é para mexer na janela, que não quer vê-la aberta.

O velho recebe o telefonema de seu médico pedindo para que ele vá até seu consultório saber os resultados de exames feitos outrora. E assim o faz, acompanhado de Zuzu. Juventino volta para casa com uma notícia não muito agradável, fora diagnosticado com câncer.

O velho começa a falar que logo irá morrer e todos ficarão livres dele. Ah, a morte... nos remete a tantas coisas, autores e obras: os ultrarromânticos – que tinham a morte como única solução para os problemas amorosos e da Vida; Allan Poe – que está mais para a temática do terror, mas há muito de morte em suas obras; Lord Byron e tantos outros.

Ao longo do diálogo entre Juventino e Zuzu, em certo momento, esta pergunta àquele se não se preocupa e não tem medo, ao passo que este devolve a indagação querendo saber se Zuzu estava se referindo ao câncer ou à morte. Zuzu diz que aos dois.

O velho responde que antes tinha muito medo de morrer, na verdade, de morrer sem ter feito tudo o que poderia ter feito e o que queria e, portanto, agora tem medo de viver.

 Marcos vai visitá-lo e começam a discutir, remoendo lembranças e fatos do passado. Marcos diz que um dos motivos de quase não ir à casa de seu pai é o mau humor que este sempre tem.

Juventino diz que sempre dera tudo para sua esposa e para ele, quando recebe a resposta: “você me deu tudo, mas não me deu o que eu mais precisava”. Já se pode imaginar o que seja... se pensou em amor, acertou.

Há várias definições para amor, mas apenas duas cabem aqui, advindas de dois grandes filósofos. A primeira é o Amor Platônico, denominado Eros, que é desejo pelo que falta, ou seja, desejo pelo que se quer. A segunda é o Amor Aristotélico, denominado Philia, que é alegria pelo que se tem e enquanto se tem. Juventino e Marcos, em algum momento sentiram ambas as definições de amor, separadamente é claro. E ainda sentem.

Zuzu chega na casa de Juventino mancando e dizendo que fora agredida por homofóbicos. Nesse momento se percebe um cuidado do velho para com ela.
Finalmente, Juventino abre a janela, mas logo a fecha. Começa a passar mal e desta vez, realmente vai fazer companhia aos pássaros. O zelador e o síndico do prédio, também chamado Marcos, entram no apartamento do velho, pois o corpo já está cheirando horrores.

Entre a conversa o zelador diz que o velho era sozinho, não tinha mulher ou filhos. Alguns vizinhos diziam que ouviam conversas – provavelmente dele com alguém imaginário. Marcos diz que pelos boatos Juventino fora escritor e o zelador remenda: “parece que estava escrevendo outro livro, e pelo título já gostei: "Janela Fechada”.

Aqui surgem as possíveis conclusões da peça. Se você quer presenciar e entender as entrelinhas do que foi dito, vá assistir ao espetáculo. A catarse que se sente durante toda a obra, ao final, dá lugar à inesperada e surpreendente epifania.

Portanto, se trata de uma peça com temáticas pertinentes e atuais: esquizofrenia, homofobia, descaso com idosos, solidão. A alternância de drama, comédia e reflexão proporciona tudo o que o teatro tem de proporcionar ao público em um único espetáculo, daí uma das genialidades do autor e ator Valter Navarro.

Guilherme Mapelli
gm.venturi6@hotmail.com

Guilherme Mapelli Venturi é estudante de letras, escritor, revisor, diagramador e técnico em informática, residente em Ribeirão Preto – SP. Ganhou o prêmio do concurso literário do Clube de Regatas com poesia em primeiro lugar e conto em segundo, certificado de participação do concurso literário da Casa do Poeta. Participou das Antologias Ponto & Vírgula – 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e 7ª edições, como do programa de mesmo nome com poemas de sua autoria, declamados pela apresentadora Irene Coimbra. É autor do livro “Devaneios Poéticos” pela editora Legis Summa. Está trabalhando em seu segundo título.

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