Do Baú: Crisântemos... e uma espera para o Natal




O Advento já bate à porta. E o que esperamos ao abri-la? O bom velhinho? Uma visita desejada? Alguém que há muito não se vê? Uma surpresa? 

Sim, uma surpresa. Mas, talvez recebamos uma fora do lugar-comum. Talvez uma que nos seja até desconfortável... Isso me aconteceu há alguns anos, quando, por uma situação inusitada, num momento difícil, tive que passar o Natal em outra cidade, numa casa emprestada. Eu, meu marido e meus filhos. 

Não havia clima, nem tempo, nem dinheiro para algo opulento que lembrasse uma ceia natalina. Resolvemos improvisar com sobremesas prontas. E um frango assado. Quer dizer, dois. Compramos um pensando em voltar à rua para entregar a um mendigo que morava junto a uma banca de jornal. E assim fizemos, fomos à noite visitar o morador daquela calçada. E levamos também um refrigerante de 600ml. 

Ao entregarmos nossa doação, foi ele quem nos surpreendeu: havia recebido tantas outras guloseimas, comidas e bebidas que sua "ceia" era muito mais farta que a nossa. Porém, não era a quantidade de comida que nos alarmou. Foi ele ter aberto um grande sorriso com poucos dentes, e, como se abrisse uma porta para uma visita, ter estendido o braço convidando: - Podem chegar. Estão servidos? 

Ficamos encabulados. E encabulados agradecemos a gentileza e voltamos ao nosso abrigo emprestado. Sem enfeites, sem luzinhas. Fomos jantar com nossos filhos. E fomos dormir sem esperar a meia-noite. Dormir aliviados, dormir felizes. Tivéramos um encontro. O Natal fazia algum sentido...

E o que as flores da foto tem a ver com isso? Neste ano ganhei um vasinho de crisântemos¹ de uma aluna (são os da foto). E lembrou-me de uma história que fala do inesperado: é a "Lenda do Crisântemo"² que transcrevo aqui para vocês: 

"Na Floresta Negra vivia um camponês chamada Hermann. Na véspera de Natal, quando voltava descuidado para casa, encontrou, caído na neve, um pobre menino que estava quase a morrer. 
Penalizado com a triste situação da criança, tomou-a nos braços e levou-a para sua modesta cabana. A mulher do camponês e seus filhos tiveram também, muita pena do infeliz e com ele repartiram alegremente a humilde ceia que tinham preparado. 
O pequeno, que a bondade daquela gente havia confortado,passou a noite na cabana paupérrima e, na manhã seguinte, sem que ninguém pudesse notar, desapareceu. 
Dias depois o camponês, ao entrar numa igreja, teve a sua atenção despertada por uma estampa, na qual aparecia o Menino Jesus e verificou, com assombro, a semelhança entre o Salvador e o pobrezinho a quem ele acudira na noite de Natal. Não há dúvida. O pequenino que fora socorrido e agasalhado no pobre casebre do lenhador era o Menino Jesus. 
Impressionado com essa descoberta, resolveu Hermann rever o lugar em que havia encontrado o Menino Jesus e verificou que haviam milagrosamente nascido, no meio da neve, várias flores e levou-as à sua mulher, que lhes pôs o nome de crisântemos, isto é, flores-de-Cristo, e, mais propriamente, flores de ouro."

Naquele ano meu achado foi junto àquela banca de jornal. Desejo, desejo muito, que não precisemos esperar o clima natalino - ditado pelo calendário - para que encontremos os crisântemos, o morador da banca, o Menino. Eles estão por aí, esperando nossa atenção enquanto observam nosso descuido. 

¹Chrysanthemum, de nome vulgar crisântemo, é um gênero botânico pertencente à família Asteraceae. É uma planta de tradição de cultivo milenar nos países asiáticos. Em grego, crisântemo significa "flor de ouro".

²A lenda foi retirada do livro "Lendas do Céu e da Terra" de Malba Tahan.

Marisa Maia escreve e conta histórias que retira de um baú de memórias, ideias e sentimentos.
 E acredita em natais que acontecem  ao logo do ano.
Um feliz Advento a todos!












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