Alguns infinitos são maiores que outros


Elas conversavam animadamente, e eu, entediada pelo tamanho da fila que teria que enfrentar para chegar até o caixa, comecei a me inteirar de conversa alheia para passar o tempo. O primeiro assunto das duas mulheres à minha frente foi o desinteresse dos maridos em problemas domésticos, como não me identifiquei, desviei minha atenção para um menino, que fazendo pirraça para sua mãe, insistia em tirar as sandálias repetidamente. Volto os olhos para as duas mulheres novamente, que agora discutiam sobre o filme “A culpa é das estrelas”, e retorno a bisbilhotar sua conversa, afinal, o filme em questão me rendeu um verdadeiro mar de lágrimas na única vez que o assisti.

Fui levada então a ponderar sobre como nós, meros mortais, se comparados aos personagens daquele filme, somos capazes de viver amores dignos de serem chamados de infinitos, mas, por vezes os negligenciamos apenas porque não tiveram uma duração tão longa quanto havíamos desenhado em nosso subconsciente. Você já percebeu que deixamos o fim ofuscar todo o brilho daqueles sentimentos tão intensamente compartilhados? Parece que concluímos que, se fosse amor verdadeiro o relacionamento não teria acabado. Confesso, eu também já pensei exatamente assim. No entanto, uma experiência em específico me levou a mudar de opinião. Sei que você começou a deduzir então que eu já tive um grande amor por um curto período de tempo. Pois é, foi isso mesmo. Havia cumplicidade, havia respeito, havia sinceridade, havia química, havia reciprocidade, enfim, tenho certeza que era amor, porém, havia também um tempo determinado de começo e fim. Creio que não poderia ter sido mais perfeito se durasse sequer mais um dia.

Nunca fui muita habilidosa em aceitar fins, mas me diga você, qual mulher possui essa habilidade? Antes do fim precisamos fazer tudo que é possível, lutar até exaurir todas as nossas forças e utilizar todos os meios pensáveis. Por falar em meios, costumamos acreditar que a gama do que é válido inclui: espernear, ter crises incontroláveis de choro, tentar agendar milhares de conversas reconciliatórias, e deixar recados “comoventes” subliminares em publicações nas diversas redes sociais. Todavia vamos reconhecer, aceitar que o dono daquele sorriso encantador, daquele olhar que te paralisava e daquele beijo que te fazia sentir toda uma fauna lepidóptera no estômago – sim! As famosas borboletas – deixará de ser nosso, é uma tarefa que exige muita maturidade emocional e psicológica, afinal, aquele parceiro encantador, divertido, causador das maiores indecisões possíveis quanto a um look e capaz de nos achar linda até vestindo pijama do frajola, passará a existir apenas em lembranças.

Apesar disso, acredito que insistir em manter um relacionamento depois que sua data de validade expirou é ingenuidade de quem quer macular tudo o que de bom poderia ser guardado, intacto e puro, a sete chaves. Desta forma, arrisco te afirmar que um amor não possui tempo mínimo de duração de uma vida inteira, e não é por isso que ele deixará de ser verdadeiro. Você poderá me rotular de romântica incorrigível, não nego, afinal, te desafio a substituir a mágoa trazida no rosto depois do término de um relacionamento deste cunho, por um belo e carismático sorriso, daqueles que derretem até gelo, e que são encontrados somente naqueles que já tiveram a honra de viver um amor verdadeiro e guardaram todas as boas recordações, como se guarda um verdadeiro tesouro.

Basta olharmos com atenção para descobrirmos que a vida é composta de “alguns infinitos são maiores que outros”, pois, o que nos garante que a partir de um comentário despretensioso em uma publicação de um amigo virtual, não estaremos iniciando um novo infinito? Acredito que o destino sorri com maior intensidade quando estamos dispostos, nem que seja a ser gentis. Neste instante a mãe do menino travesso me cutuca, avisando que chegou minha vez no caixa. Dirijo-me à atendente com meus papéis e desejo-lhe bom dia, acompanhado de um carismático sorriso.

Luís Fernando Drecksler (com colaboração de Juliana Dutra)

Instagram: @nando_gaucho

Luís Fernando Drecksler nasceu em Marquês de Souza no ano de 1991, acadêmico de Educação Física, repórter e narrador esportivo. Juliana Dutra nasceu no ano de 1992, é escritora nas horas vagas, e bióloga por paixão, escreve contos e crônicas.

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