O tempo do ver

Meus pais, em um ato nostálgico de fim de ano, começaram a lembrar-se de como era a vida em sua infância.

"Nós só tomávamos refrigerante no natal e os  brinquedos eram aqueles que ganhávamos do papai noel que chegava de carro. Também apenas no natal, comíamos carne e doces, aproveitávamos a ceia para comer as coisas que não comíamos no resto do ano."

"O presente era sempre o mesmo: uma bola para cada filho; para as meninas, uma boneca de índia, feita de plástico."

Para sua surpresa, eis que exclamei a conclusão de minha reflexão:

 - Nossa. Como eu queria ter vivido naquele tempo.

Sem entender muito bem, enfatizaram:

- As coisas eram muito mais difíceis naquele tempo, mas a gente era feliz.

Eu respondi:

- As coisas eram mais difíceis, mas deveria ser mais fácil viver.

Meus pais não viveram em "tão antigamente assim", mas no interior do estado ainda vivia-se uma sociedade parecida com a sociedade de ordem.  Os filhos viviam os padrões de vida dos pais e de toda a cidade. Se você trabalhasse de carteira assinada, já era um vencedor; e se a vida era difícil para todos, pouco notava-se aquela dificuldade. Meus avós eram trabalhadores fabris e meus tios, todos, comerciantes; à exceção do meu pai; que aprendera a consertar aparelhos eletrônicos.

Hoje as coisas são mais fáceis (de serem compradas).

"As crianças de hoje já nascem com tablet e celular."

Senão, por isso, hoje, seria mais difícil viver. 

Porque, em uma sociedade demarcada por classes, você já nasce tendo que superar a seus pais. O acesso aos estudos, aos bens de consumo, aos degraus sociais do status e da aquisição, nos tornou escravos da superação; e vivemos tendo que nos superar a nós mesmos, nossa origem, nossa condição. Enquanto, a todo tempo, somos confrontados com os abismos sociais que vemos nos tablets, celulares com internet, e televisão, as diferenças que nossa visão ampliada de mundo fez por explicitar.

Em suma, hoje, temos tantas coisas, e vemos tantas coisas mais, que nos tornamos social e culturalmente obrigados a viver perseguindo-as. Engana-se quem pensa que hoje é o tempo do ter. O tempo do ter foi há anos; hoje é o tempo do ver. Tinha-se mais quando não tinha-se nada e, hoje, vemos mais do que temos; a vida real se tornou uma vitrine.

Ania Kítylla.


anikgevezier@gmail.com

4 comentários:

  1. Ãnia que texto lindo.
    Eu sempre sou motivada a escrever sobre o tempo, apenas nós meus 19 anos já sinta saudade da minha infância, fico pensando em meus pais e meus avós ;(

    ResponderExcluir

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.