Café Literário: A porta


Ele olhou a porta, parecia seguro passar por ela, mas ele apenas parou em frente. Observou em volta, notou que cada um tinha sua própria porta com seu nome escrito, e que, depois dela, alguma coisa realmente diferente acontecia com as pessoas. Era realmente uma enorme fileira de pessoas paradas em frentes suas portas à esquerda e à direita, e alguns espaços eram vagos, justamente pessoas que definiram entrar e de algumas que sequer chegaram ao ponto de se interessar na busca por seus nomes entalhados nas portas de madeiras. Elas simplesmente vagavam por aí, e não pareciam se importar.
Mas aquele homem se importava, e dia e noite ouvia risadas alegres vindas daqueles que atravessaram suas próprias portas. Ela não podia as ver já que elas já estavam dentro do cômodo, mas essas pessoas pareciam se sentir bem ali. Contudo, ele também pode ouvir algum lamento e muito choro vindo de outros cômodos.

Era quase como uma disputa de sons, mas praticamente nenhuma pessoa que entrava ali era indiferente.

Devido a essa confusão de sentimentos tinha medo, ele não sabia o que existia e o que as pessoas que estiveram lá e voltaram – pois algumas não voltavam – contavam parecia vago demais, indecifrável. Muitas delas ficavam tão abaladas com o que acontecia atrás daquela porta que jamais voltaram a ser as mesmas. Mas, aparentemente, a maioria acabava voltando para dentro, mesmo as abaladas. Alguns iam e voltavam 3, 6 até 10 vezes.

Ele imaginou que aquela porta levava para um portal novo, uma vida melhor. Não era possível ter certeza.

Contudo, ele notou uma coisa muito diferente. Em geral, quando ele ouvia as conversas de quem se encontrava atrás daquelas passagens, ele sempre ouvia a voz de 2 pessoas, em algumas vezes 3 pessoas, mas era mais raro e nesses casos, ninguém ria, as pessoas estavam sempre sérias ou chorosas. Bem, uma vez ele ouviu 3 vozes felizes de um mesmo cômodo, mais foi uma vez só.

Passar por aquela abertura poderia representar coisas muito diferentes pra ele. Possivelmente, representaria a felicidade que ele, homem solitário e realmente triste, jamais alcançou por si. Ainda que em alguns momentos tenha esse sentido breves momentos de alegria, geralmente era um homem de coração desgastado, desbotado e muito duro.
Um dia, ele reconheceu que era o momento de saber o que estaria por trás daqueles marcos, o que poderia esconder aquele outro lado secreto? O que ele tinha a perder, afinal?
Decidido, girou sua maçaneta, a maçaneta que havia o esperado o tempo todo. Ele fez força e empurrou para frente aquela porta que há anos, muitos anos, era esperada para se revelar.

Lá dentro ele encontrou uma paz, uma paz que ainda não havia encontrado antes. O que ele só reparou depois é que exatamente ao mesmo tempo uma outra porta, já dentro daquele cômodo todo branco e vazio, abriu-se, e revelou uma outra forma, um clone, algo que parecia exatamente como ele, como uma imagem saída de um espelho, ainda que feminina.

Ele tocou aquele ser idêntico, era incrível como os dois realmente pareciam um só e talvez realmente fossem. Naquele momento ele não sabia e de fato não importava. Até porque haviam diferença sutis entre os dois, mas diferenças essas que mais os conectava do que os repelia.

E durante meses que se passaram, aquele local branco ganhou cores em formatos de seus próprios corpos, cores vibrantes, um azul turquesa, um vermelho fogo, um amarelo manga. E eles estavam geralmente sorridentes, muitas vezes, gargalhavam, e eles sabiam que os outros ouviam, e isso os fazia rir ainda mais alto.

E aquilo tudo parecia fantástico.

 Este homem simplesmente não entendia como as pessoas poderiam querer sair daquele lugar. Qual o porquê?

Contudo, ao acordar de pesadelos terríveis, aquele homem simplesmente viu que não era mais o espelho daquele outro ser que contigo já dividia aquele espaço durante muito tempo, um tempo que havia passado rápido até ali.

Ele olhou para ele e percebeu que, pela primeira vez, estavam diferentes.

 E aquela mulher também notou que já não era parecida com ele, não mais.

Mas eles ainda se mantinham muito iguais, ainda que seus rostos agora expressassem tonalidades diferentes, um com um brilho maior que o outro. Mas isso não seria um problema para aquele homem, afinal, seria egoísta da parte dele se fosse. E ela também tinha pensado assim pois, devido à similaridade de ambos, eles conseguiam entender seus próprios pensamentos antes de elas se tornarem palavras.

Porém, não foi necessário muito tempo para que essas diferenças aumentassem e eles sequer conseguiam saber o que cada um estava pensando.

Como uma mágica reversa, que na verdade não tem a intenção de trazer o bem e sim o caos, as paredes, antes coloridas de vermelho fogo, azul turquesa e amarelo manga entre outras vibrantes cores, voltaram a ficar esbranquiçadas. Quase acompanhando a decadência que se via,  as lembranças do outro lado da porta, que sequer eram consideradas por aquele homem mesmo antes da entrada porta adentro, começaram a brotar em sua mente. E isso deveria ser um problema, mas foi apenas melancolia, afinal, pelo menos ele sabia que ela não sabia mais sobre seus pensamentos, antes porém, ela ouvia o que ele não dizia e o que ele falava já não era mais entendido.

Assim, apesar dos esforços de ambos, aquele cômodo branco, que outrora fora de grande paz, se transformou em loucura, em terror para os olhos. Aquilo não fazia sentido, aquilo os deixava doentes, perturbados, insanos. Não era mais possível permanecer dentro daquele local, não era mais possível encarar, era impossível focar aquelas paredes cada vez mais brancas, era triste pensar que elas antes eram coloridas, eram insuportável olhar para aquele branco, um gelo sem sentimentos.

Até que, apesar de todos os esforços de ambos para recolorir aquelas paredes, apesar de todo o desejo de voltarem a ser reflexos de um mesmo espelho, um dia seus próprios rostos ficaram invisíveis, eles já não refletiam nada, nem desejo, nem amor, nem dor. E as duas portas, que antes sequer eram notadas, abriram, sozinhas. Elas abriram, e eles mesmos viram, pela primeira vez o lado de fora.

Atônitas, algumas poucas pessoas que estavam do lado de fora viram as portas abertas, para algumas, era a primeira visão de dentro do cômodo em muitos anos, e até por isso elas poderiam enlouquecer, burlar toda a lógica, e tornar a relação daquele cômodo um triângulo, mas não ousaram, já que nenhum dos dois lá dentro pareceu receptivo para tal.

 E aquele homem do lado de dentro, que em algum momento pensou como poderia alguém querer sair daquele cômodo, não entendeu como alguém gostaria de entrar ali.
Vendo o rosto daquela mulher já invisível e completamente diferente do seu, olhando para as paredes brancas que agora começavam a derreter, aquele homem se entregou. Ele não tinha mais força para permanecer ali e o lado de fora lhe pareceu mais interessante, não porque amenizaria sua tristeza, mas ele poderia amenizar a loucura de ambos.
Então, os dois resolveram que sairiam, voltariam para o lugar de onde um dia entraram, para talvez jamais entrarem em novas portas de tão manchados pelas branquidão daquela parede que derretia em cima deles.

E choraram.

Choraram pelo que poderiam ter sido.

 Por um breve momento no tempo-espaço, as paredes se recoloriram, as imagens ficaram semelhantes e os rostos visíveis. Mas só por um breve momento, como se aquele local mágico quisesse dizer que a decisão de entrar ali um dia tinha valido a pena.

Caminharam e saíram, cada um pela porta que entrou. E o homem sofreu, profundamente, ainda que não saiba se ela sofreu tal como ele, ele percebeu que, como antes, ainda era possível se conectar a ela quando quisesse, sendo agora uma escolha que poderia lhe trazer dor. Então ele decidiu não mais fazer isso.

Um dia, ele ficou sabendo sobre pessoas que se reencontraram novamente do outro lado da porta, tal como um conto essencialmente lúdico, uma nova chance. Ele pensou nisso, considerou, e o que esse homem pensou lhe fez ter um leve sorriso.

Este homem olha hoje a porta de longe enquanto vagueia por aí, possivelmente, como os outros que estão ali, quem sabe um dia ele retorne. Diante disso, ele disse apenas uma frase:

- Valeu a pena ter tomado a decisão de ultrapassar aqueles limites um dia. Tudo valeu a pena.

Carlos Rafael
 
carlosdesouzarafael@gmail.com
 
Carlos Rafael: Publicitário, amante de histórias lúdicas e envolventes dos contos e crônicas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.