Entrevista: Carlos Henrique Abbud e Flávia Gonçalves, autores de “Alice Black – Princesinha do Inferno”.


Os contos de fadas são marcados pela figura da princesa, que enfrenta um sem número de apuros até o final feliz com seu príncipe. Tem princesa oriental, indígena… para todos os gostos. Mas e se alguém criasse um livro em que a princesa é… do inferno? Pois é, já criaram! A Revista Pacheco entrevista hoje Carlos Henrique Abbud e Flávia Gonçalves, autores de “Alice Black – Princesinha do Inferno”.

Abbud nasceu em Nova Friburgo-RJ, em 1978. É graduado em Música, pós-graduado em Artes Visuais e professor universitário e da Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro. Divide a vida com a esposa, Flávia Gonçalves, também musicista, professora e escritora. Gasta seu pouco tempo livre com filosofia, literatura, videogames, filmes, séries, podcasts e música, do clássico ao heavy metal. Designer, artista plástico e músico desde a adolescência, escreve desde sempre. Além do romance “Alice Black – Princesinha do Inferno”, publicado pela Editora Autografia, publicou o conto “A Mulher de Vidro” na antologia “Tratado Secreto de Magia – Volume II”, da Editora Andross, e os contos "Parque sem Diversões" e "Enfim, o Céu", na Amazon.com.br.

Flávia Gonçalves nasceu em Duas Barras-RJ, em 1979. É graduada em Música, pós-graduada em Artes Visuais e Professora da Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro. Divide a vida com Carlos Henrique Abbud, esposo e parceiro de escrita. Gasta o pouco tempo livre com literatura, filmes, séries e muita música. Idealizadora e Regente do projeto “Iniciação Musical”, em atividade desde 2007 em Escolas Estaduais e diversas instituições de ensino musical. É flautista desde os 12 anos de idade e começou a rascunhar suas primeiras ideias fantásticas quando ingressou no Segundo Seguimento do Ensino Fundamental. Sua primeira publicação foi o romance “Alice Black – Princesinha do Inferno”, em parceria com Carlos Henrique Abbud, pela Editora Autografia, durante a Bienal do Livro Rio 2015.

Com vocês, os pais de Alice!

1 – Sejam bem-vindos à Revista Pacheco! Como começou o interesse pela literatura?

CarlosA leitura é algo que faz parte do meu dia a dia desde que me lembro. Ser filho e sobrinho de professoras me fazia estar sempre cercado por livros. Lá pelos oito anos, assisti ao filme “A História sem Fim” e fiquei maluco com o jeito como o garoto interagia com os personagens do livro mágico que ele lia. Em um ponto do filme, ficou claro que ele próprio era parte daquela fantasia, ajudando os personagens e alterando os rumos da história. Depois daquilo, eu queria muito um livro daqueles para mim! Como não havia nada assim entre os que eu já tinha, arrumei um caderno e comecei a escrever meu próprio "A História sem Fim". Na época, achava a minha história sensacional, e me divertia muito escrevendo e inventando ilustrações. Mais tarde, conheci os livrinhos da série Aventuras Fantásticas, de Ian Livingstone e Steve Jackson, cujas histórias proporcionavam uma experiência de leitura interativa que lembrava aquela mostrada no filme. Essa foi minha porta de entrada para o mundo do RPG de mesa. Como mestre de um pequeno grupo de amigos, fiz do jogo um laboratório que me ajudou a criar as primeiras tramas e personagens "pra valer" (risos). Nessa altura, a escrita já era uma necessidade para mim, e nunca mais deixou de ser...

FláviaFoi na escola. Cresci ouvindo meus pais dizendo que estudar era tudo na vida de uma menina pobre. E eu segui ao pé da letra os conselhos deles. Foi na escola que entrei para o mundo da literatura. Devorava o máximo de livros que podia da biblioteca da escola e da biblioteca municipal. Minha mente era povoada por tantas histórias diferentes que logo senti a necessidade de colocar no papel o mundo que havia criado através delas.

2De onde vem as principais inspirações e influências?

CarlosNo início da adolescência, não fugi do kit básico de todo nerd: Tolkien e Robert E. Howard. Cada um, a seu modo, deu forma a mundos e personagens inesquecíveis para mim. Lembro-me de uma época da minha vida como se realmente morasse naquelas terras de aventura e magia. Mais tarde, vieram Stephen King e sua escrita competente, espontânea e envolvente; Isaac Asimov, Douglas Adams, Milan Kundera... São muitos favoritos para mencionar aqui. Porém, meu livro preferido de todos os tempos é "A Revolta de Atlas", de Ayn Rand. Admiro o jeito claro e metódico com que ela escrevia, o cuidado com cada palavra escrita. Ayn Rand conciliava uma extensa aventura cheia de reviravoltas e profundos conceitos filosóficos de maneira única.

FláviaPosso dizer, sem exagero algum que, desde a pré-adolescência até o início de minha fase adulta, eu acordava LENDO, tomava café da manhã LENDO,  caminhava até a escola LENDO, passava o intervalo entre as aulas LENDO, terminava as tarefas de casa e corria para continuar LENDO, almoçava e jantava LENDO, ia dormir LENDO. Isso tudo até parece mentira, eu sei. Mas foi assim mesmo. Foi exatamente assim a minha adolescência inteira. Com isso, eu conheci muitos autores diferentes e, certamente, cada um me inspirou um pouquinho para começar a escrever. Dentre esses autores, alguns me marcaram mais: Lygia Bojunga (A Bolsa Amarela), José Mauro de Vasconcelos (O Meu Pé de Laranja Lima), Maurice Druon (O Menino do Dedo Verde), Coleção Vaga-Lume, José de Alencar (Senhora), Robin Cook (Coma, Medo Mortal, Cérebro, Etc), Ken Follet (Um Lugar chamado Liberdade), Umberto Eco (O Nome da Rosa), Agatha Christie (Assassinato na Casa do Pastor) e por aí vai...

3Como é escrever em parceria? Qual o método de trabalho de vocês?

Carlos e FláviaComo já escrevíamos separadamente há um bom tempo, tivemos que descobrir aos poucos o que funcionava para nós. Não sabemos se podemos chamar de método, mas é assim que fazemos: Primeiro, elegemos uma ideia para desenvolver. Fazemos vários brainstorms, até chegarmos a uma premissa satisfatória para os dois. Então, pensamos em cenas e aprofundamos a premissa, incluindo personagens e tramas secundárias, detalhes do ambiente em que se passa a história. Nessa etapa, fazemos muita pesquisa de referência, armazenando tudo o que poderá ser útil na hora de escrever. Ainda em conjunto, descrevemos cada cena resumidamente. As cenas vão para um quadro na parede de nosso escritório e decidimos quem escreverá uma ou outra. A partir daí, trabalhamos separadamente, na maior parte das vezes usando o Trello e o Evernote, por conta da facilidade de compartilhamento entre usuários. Porque é importante um estar de olho no que o outro está fazendo, seja para sugerir mudanças e acréscimos, seja para aproveitar melhor as ideias e detalhes que vão surgindo ao longo do processo. Quando temos blocos de cenas prontas, revisamos cada uma em conjunto, discutimos os caminhos da trama, aparamos arestas e seguimos em frente. Eventualmente, teremos em mão o que chamamos de “primeiro tratamento”. A história contada do início ao fim. Imprimimos, lemos exaustivamente e cobrimos as folhas com anotações de todo tipo. E então voltamos ao trabalho, até estarmos satisfeitos (risos)

Carlos Abbud e Flávia gonçalves
 
4Falem um pouco sobre a trajetória do livro, do surgimento da ideia até a publicação.

Carlos e Flávia - Voltávamos de uma visita a uma livraria local e conversávamos sobre a profusão de histórias baseadas em contos de fadas nas prateleiras. Eram sagas inteiras de amores impossíveis, histórias de vampiros, lobisomens, dragões, anjos, fadas, princesinhas... princesinhas das águas, disso, daquilo, do inferno... Epa, do inferno não tinha! Quando percebemos, tínhamos encontrado a nossa história! Sim, iríamos escrever um romance de fantasia com o subtítulo PRINCESINHA DO INFERNO! Por que ainda não tínhamos pensado nisso antes? Era a pergunta que fazíamos a nós mesmos, pois a ideia que veio logo a seguir tinha tudo a ver com a gente: fantasiar um submundo totalmente rock and roll! Às vezes, quando estávamos trabalhando no livro, parávamos para conversar e imaginávamos a reação das pessoas a uma ou outra parte já pronta. Ter gente, além de nós dois, lendo e comentando a história parecia algo tão distante... Quando a história ficou pronta, ficamos um ano inteiro procurando uma editora, até que a Autografia nos respondeu! Após o lançamento, na Bienal desse ano, olhamos para trás e percebemos o quanto aprendemos ao passarmos por todo o processo, desde os contatos iniciais com a editora. Agora, depois de tudo, cada leitor que nos conta o quanto gostou do livro só faz aumentar a vontade de produzir cada vez mais. Então, a primeira sensação é a de termos rompido uma barreira, vencido os primeiros desafios. E, é claro, uma imensa alegria ao ver o que escrevemos na prateleira de uma livraria (risos). “Alice Black” já nasceu especial, porque foi a primeira ideia que desenvolvemos juntos. Hoje, não conseguimos mais diferenciar o que um ou outro fez... É o nosso primeiro filho e estamos muito orgulhosos dele! Ele significa a comunhão, a união de muitas ideias de duas pessoas afins, que se amam e que tem o mesmo objetivo de vida, o mesmo sonho.

5O que o leitor pode esperar de Alice Black?

Carlos e FláviaO livro ALICE BLACK – PRINCESINHA DO INFERNO é recheado de aventuras, perigos, descobertas, tramas, traição, inveja, humilhações e vinganças, superação, intrigas, romance e, principalmente, música. Quem curte rock, blues, jazz, encontrará no submundo onde Alice vive muitas referências a bandas super conhecidas, histórias de integrantes dessas bandas, shows fantásticos, músicos antigos jamais esquecidos, ícones das capas de álbuns famosos, letras de diversas músicas que ficaram marcadas ao longo do tempo... Enfim, todas essas coisas aparecem amarradas na história do livro sob a perspectiva dos personagens. Quem ainda não conhece o mundo do rock, pode estar a um passo de descobrir o quanto ele é maneiro ao se aventurar com Alice nessa jornada. E quem já conhece, entrará em um mundo onde tudo que se vê aqui, na Terra, é de verdade, só que mergulhado em um submundo cheio de magia, encantos e tudo que um fã de rock gostaria de experimentar na vida real.

6 – Já tem alguma coisa no prelo? Quais são os próximos projetos literários de vocês?

Carlos e FláviaNossa intenção é continuar escrevendo em parceria. Mantemos um “banco de ideias”, que é alimentado constantemente com personagens e premissas para contos e livros... Acho que jamais vamos zerar essa fila, por mais que tentemos! Temos todo um mundo de fantasia que já estamos criando faz um tempo. Dentro desse mundo, existem vários caminhos, muitos projetos somente rascunhados e um já bem adiantado. É um romance, cuja primeira parte deve sair ano que vem. É uma história que se passa no mesmo universo de Alice Black, mas a abordagem que adotamos é muuuito diferente... Ainda não temos nome definitivo para essa história, mas podemos afirmar que irá agradar em cheio os fãs de Literatura Fantástica. No momento, é tudo o que podemos dizer (risos)

7O que vocês diriam para aqueles que tem o sonho de se tornarem escritores e consideram tal sonho como perdido ou algo inalcançável?

Carlos e FláviaBem, alcançar o sonho de ser escritor profissional não é impossível, de maneira alguma. Se uma pessoa está disposta a manter uma rotina séria de trabalho e estudar muito para desenvolver suas técnicas, cedo ou tarde, conseguirá produzir seu livro, conto, roteiro, ou o que quer que deseje. Inspiração é parte essencial do processo, mas um artista profissional não pode ser tão dependente dela para produzir. Ou seja, um escritor que quer ser profissional deve procurar agir como um. Cedo ou tarde, encontrará seu lugar no mercado literário. Ah, paixão incondicional pelas palavras também ajuda, pois não é uma vida fácil, em nenhum aspecto! Uma última coisa: escritor, escreva porque você tem necessidade disso, porque realmente tem algo a dizer, e não porque quer ficar famoso ou ganhar dinheiro... Mas é claro que se isso vier, ótimo! (risos)

8 – Gostaria de agradecer a vocês pela entrevista, e para finalizar, deixem uma mensagem para seus leitores!

Antes de tudo, agradecemos muito pela oportunidade! Foi um prazer responder as perguntas! Gostaríamos de agradecer por todo o feedback positivo que temos recebido. Vocês, que já se dizem fãs de Alice Black, não fazem ideia do que isso significa para nós. Aos novos leitores, sejam muito bem-vindos! Esperamos, sinceramente, que gostem do mundo que criamos! E fiquem todos à vontade para entrar em contato conosco! Abraços!

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