Do Baú: Miudezas de grande importância


Deixamos de cirandar.

Havia um tempo que a roda servia para brincar, servia para unir gerações, servia como passagem de saberes. Servia até para paquerar!

Deixamos de cirandar. Quando surge uma oportunidade, parecemos estranhos, inseguros naquela situação. Leva um tempinho para entrarmos na roda, de verdade, leves e brincantes. 

São aquelas coisinhas lúdicas, folclóricas e tradicionais das quais estamos assistindo a dissipação frente aos novos tempos. Foi outro dia, em nossa oficina de contadores de histórias que notamos a estranheza dos adolescentes diante de "Se esta rua fosse minha". A amiga Helena Ballot desabafou:

"Não se brinca mais de roda! Pôxa, isso faz parte da identidade de um povo. 
É como se fosse um armário em que guardamos nossas coisinhas, 
só que numa proporção maior. 
Ah, são miudezas... que são tão grandes... 
E quem vai continuar a passar isso pra frente?" 

Foi esse desabafo que provocou-me reflexões sobre tantas coisinhas em nossas vidas que são verdadeiros repositórios da nossa felicidade. Todo mundo tem um museu de insignificâncias, repleto de partículas da memória: uma foto, uma figurinha, um sapatinho de bebê, um carrinho velho, uma caixinha, um livro, uma ferramenta do vô. Mesmo que o objeto (que ajuda a materializar a lembrança) tenha se perdido, esse memorial está lá, em nós. 

E isto lembrou-me de uma obra: "O Museu da Inocência" de Orhan Pamuk (premiado com o Nobel de Literatura em 2006). É uma história de amor (dessas com impedimento pelas diferenças sociais) que narra a obsessão de um homem apaixonado que passa a colecionar objetos que lhe fazem lembrar a sua amada. Fetiche, lembranças felizes e mágoas, tudo depositado nas peças de sua compulsiva coleção. Tudo isto tendo Istambul como pano de fundo.

Hei, espere aí: existe  a materialização dessa obra! Em 2012 o escritor turco inaugurou um museu homônimo ao seu livro! Lá mesmo em Istambul, com endereço e visitação. Não de histórias reais, nem de celebridades. Mas do imaginário, de coisas talvez insignificantes... coisa para discutir paradigmas. Entretanto, o que eu quero destacar é o manifesto do autor para justificar sua iniciativa:


"Todos sabemos que as histórias ordinárias e cotidianas de indivíduos 
são mais ricas, humanas e vivas”.

Realmente ando meio rendida à nostalgia. E já que nossa passagem por aqui, como viajantes, visitantes, sei lá, é tão breve, lembremos de olhar para as pequenas e bobas coisas. E olhemos para as pessoas simples, humildes, sem fama, sem títulos. E que sejamos enormemente felizes. E que não desaprendamos a cirandar...

"E todos somos pura flor de vento."
Cecília Meireles

Marisa Maia gosta de contar e ouvir histórias.
Admira pequenezas e bobices. 










Um comentário:

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