Desafio Literário: Joel

 
- Vovô! Vovô! Vovô!

Passos apressados ecoam do lado de fora do minúsculo quarto de Joel. A porta abre de súbito. Seu avô está ofegante.

- O que foi Joel?

- Aquela... – Hesita – Aquela sombra novamente na janela. Quando gritei, ela se afastou devagar! Estou com medo vovô!

Seu fôlego volta aos poucos. Encara o neto de forma compassiva. Segue em direção a janela. Afasta as cortinas e olha para o lado de fora. Nada. Apenas os velhos pinheiros de sempre. Seu carro repousa em frente à janela. Ele fecha novamente as cortinas.

- Não há nada Joel. Pode ter sido algo dessa sua cabeça fértil. – Responde de forma simpática.

- Mas vovô, eu sei que vi ele...

- “O vi” Joel... “O vi” ...

- O senhor entendeu vovô!

Seu avô sorri.

- Volte a dormir Joel. Amanhã iremos pescar bem cedo. Sua avó vai preparar o salmão como você gosta!

Beija a testa do menino, apaga a luz e fecha novamente a porta.

- O que aconteceu, Frederick?

Ele segue na direção a lareira e pega sua velha espingarda de cano duplo.

- O que você vai fazer Frederick? – Questiona sua esposa.

Frederik vai até a porta e a abre. Observa as árvores e aperta sua espingarda com força. Seu olhar se fixa na escuridão. Por mais luz que a casa emane, a floresta parece impenetrável. Inabalável. O vento sopra, agitando as folhas e galhos dos pinheiros de forma suave, quase convidativa. Caminha para a direita, onde fica a janela do quarto de Joel. Observa os pinheiros se agitarem um pouco mais. Aparentam vida. Ele olha para seu velho e muito bem conservado Gran Torino vermelho. Aquilo passou por ali.

Frederik aponta sua arma para a floresta. Os pinheiros se agitam ainda mais, o afrontando. O vento sopra com força, trazendo sons que vêm de todos os cantos da floresta. O ex-combatente do Vietnã se mantém firme. As árvores se agitam mais ainda.

Frederik engatilha a arma.

O vento cessa. Nada mais se ouve a não ser a inspiração profunda do senhor.

Ele abaixa lentamente a arma.

- Guarde seus demônios para você. – Sussurra.

Aquela era a quarta visita na semana.

*

- Finalmente! Venha Ellie!

Joel entra e não consegue se conter. A casa estava da mesma forma que em suas memórias. A velha cadeira de balanço de sua avó, a lareira onde seu avô lhe contava histórias e até a espingarda. Tudo ali.

- Tudo parece velho, papai... – Observa Ellie.

- Essa casa está na nossa família a muito tempo. Quem a construiu foi o avô do meu avô. Desde então ela sobreviveu a tudo.

- E onde seus avôs estão papai?

Joel olha para a cadeira de sua avó.

- A vovó morreu primeiro, filha. O vovô não demorou muito a ir.

- Ir aonde papai?

Joel sorri com a inocência de sua filha. Decide mudar de assunto.

- Vamos ver o resto da casa, querida?

Eles seguem até os quartos.

Ellie entra pela porta e vê uma pequena e rústica cama. Acima da cama há um entalhe em madeira escrito “Joel”.

- É aqui que você vai ficar. – Joel aponta para o velho guarda-roupa. – Pode colocar suas roupas ali. Tire os sapatos antes de deitar na cama.

Ellie ignora o excesso de ordens e pula na cama. Uma nuvem de poeira sobe, causando espirros instantâneos.

- Bom, é melhor limparmos a casa antes que escureça. - Sorri Joel.

*

Joel confere a tranca da porta. Vai até a janela da sala. O vento açoita os pinheiros com violência. A escuridão do lado de fora o impede de ver qualquer coisa, seja animal, seja humano. Ele fecha a cortina, volta para a cadeira de sua avó, abre um livro e começa a ler.

Dentro de alguns minutos estaria cochilando. Faltam alguns minutos para seu aniversário.

*

“— Eles flutuam — rosnou a coisa — eles flutuam George, e quando você estiver aqui embaixo comigo, também vai flutuar…” [1]

Joel acorda assustado. Ouve um som vindo do lado de fora. Parece a risada de uma criança. Se levanta apressado e vai para a janela. A chuva castiga a floresta e raios tentam inutilmente iluminá-la. Joel vê a silhueta de uma criança, entre clarões, brincando com uma bola. As risadas param, assim como o som da chuva e do vento. Só ouve sua própria respiração. Joel chega cada vez mais perto da janela, embaçando o vidro. Subitamente um clarão ilumina a casa inteira, revelando a figura de uma criança, sem olhos, sorrindo com dentes pontiagudos afiadíssimos, com a cabeça de sua esposa na mão, coberta por vermes, em frente à janela. Joel tropeça e cai para trás. Os sons retornam e a risada do menino fica mais alta.

Ele corre em direção ao quarto da menina. Começa a empurrar a porta, que não se mexe. Trancado. Aquele quarto não possui tranca. Ouve o som de uma caixa de música e risadas vindas de dentro do quarto.

- Ellie? Abra a porta querida! Ellie!

Joel não espera resposta. Corre para a lareira, pega a velha espingarda e retorna até a porta. Observa que a arma está carregada. Ele aponta a arma e prepara o disparo quando uma voz o interrompe. Joel dá alguns passos até a cozinha e vê um menino no chão brincando com um carrinho. Não tem os olhos nem maxilar, fazendo sua língua podre pender pelo rosto. Há moscas entrando e saindo do ventre do menino, que jaz aberto. O cheiro é insuportável. Ellie está sentada no balcão, assistindo a brincadeira do menino. Encostada na pia há uma idosa, vestida com uma roupa branca imunda, faltando tufos em seu cabelo e com os óculos sujos de lama.

Ela se vira para Joel e sorri. Não há dentes.

- Olá Joel.

Ele arregala os olhos e deixa a arma cair. Não consegue conter o vômito. O chão é manchado por uma gosma verde e viscosa de cheiro azedo. O menino que estava brincando corre na direção do líquido e começa a passar sua língua nele. Mais crianças surgem e passam por Joel, disputando espaço por seu vômito. Um mais grotesco do que o outro. Um em especial não tem laringe e se alimenta ferozmente, fazendo o líquido verde sair pelo grande buraco em sua garganta, manchando seu corpo. Eles começam a se empurrar.

- Papai?

Joel vira de forma abrupta.

- O que está acontecendo? – Pergunta ela apavorada.

Joel abraça Ellie e corre dali. Chegando até a sala, verifica que a porta está aberta. Há uma menina loira, coberta de lama, com os cabelos escorridos pelo rosto, parada na porta.

- Ellie? – Questiona surpreso.

Ela nada diz. Ele olha para a criança em seu colo e vê a mesma figura que estava do lado de fora da janela. Ele sorri e tentar morder seu pescoço. Joel se desvencilha e joga o menino longe. Observa que a arma, de algum modo, retornou para cima da lareira. Ele a pega e a aponta para a criança, que estava preparada para atacar novamente. Uma voz gutural ecoa pelo ambiente.

- Qual o problema Joel? Não podemos levá-la para brincar? – Ele aponta para a menina maltrapilha na porta.

- Suma daqui demônio! – A mão de Joel treme.

Ele inclina a cabeça, encarando o amedrontado homem, com o que deveriam ser seus olhos.

- Ora Joel, viemos buscá-la. Se quiser nos impedir, faça direito. Puxe esse gatilho.

A língua do menino se estica e começa gotejar, sujando o chão algo viscoso e incolor. Joel dispara na cabeça do garoto, que cai violentamente para trás. As crianças que estavam na cozinha gritam e correm para até o corpo. Começam a chorar e a lamentar. O corpo está cercado e sangue escorre pelo chão de madeira. Um deles se vira para Joel.

- Assassino!

Outro.

- Assassino!

O coro aumenta e logo todos estão com os dedos apontados para Joel, o chamando de assassino. Ele aponta a arma novamente. Tem apenas uma bala agora.

- Saiam daqui!

O coro para subitamente. Eles abrem o campo de visão para Joel. Ele abaixa a arma. Sente um nó na garganta. O corpo de Ellie jazia no chão, ensanguentado, com a cabeça destruída com o tiro dado pelo pai.

- Não! – se descontrola Joel.

Lágrimas caem. Havia matado Ellie. O coro retorna.

- Assassino!

Mais crianças entram na casa e se juntam ao coro.

- Assassino!

Joel caminha para trás, transtornado.

- Assassino!

Sua avó, com andar lento e seu avô, coberto de lama e segurando uma pá se juntam ao coro. O corpo dele está em decomposição avançada.

- Assassino!

Joel encosta na parede. Todos estão andando em sua direção. Olha para cima. Suas lágrimas são abundantes. As vozes reverberam por toda a sala. Seu corpo treme. Ele encosta a arma no queixo.

- Assassino!

Por fim Joel fecha os olhos e puxa o gatilho.

Silêncio.

A criança, antes morta, se levanta e um som gutural sai de sua laringe:

- Feliz aniversário... papai...

[1] It – A coisa. King, Stephen. 1986

Will Soares
mr.willianrj@gmail.com

Will Soares nasceu no Rio de Janeiro,capital,em 1987. É graduado em Análise de Sistemas e MBA pela UFRJ. Mantém o site escribas.com.br e já teve um conto publicadopela Editora Andross. Atualmente está escrevendo a segunda parte de sua obra Human Being.

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