Café Literário: Sinto falta


Sinto falta de quando eu caía de bicicleta e ia correndo pra casa chorando pra minha mãe não passar o remédio que ardia (que na realidade era sempre o mesmo, e sempre ardia). Sinto falta da época que eu conhecia uma criança nova e dois minutos depois ela já era minha melhor amiga. Sinto falta de fazer aquelas vozes estranhas e esganiçadas das bonecas. Sinto falta do final da aula, quando todas as crianças se juntavam pra brincar de pega-pega e eu sempre perdia. Sinto falta daquele tempo que eu dormia com bichinho de pelúciapra me proteger. Sinto falta daquela época em que todo pano de prato era capa do Super-Homem e toda máscara me transformava no Batman. Sinto falta de bancar o 007 pra roubar batata frita antes do almoço. Sinto falta daquela época que eu perguntava “O que é caralho?”, e me respondiam “Não é caralho, é carvalho.”. Sinto falta daquele tempo em que lavar a louça era divertido, e varrer a casa, um prazer. Sinto falta daquele tempo que cada ação bem-feita me rendia uma estrelinha no caderno. Sentia falta daquele tempo em que eu achava que cartão de crédito tinha dinheiro ilimitado. Sinto falta de quando qualquer pulo de cima do sofá era um voo de asa delta sobre o Atlântico. Sinto falta de ter um pesadelo e dormir com a minha mãe. Sinto falta da inocência mais boba existente. Sinto falta de ser criança.

Bárbara Rezer
barbara.rezer@gmail.com

Bárbara dos Reis Rezer, nascida em Chapecó, oeste de Santa Catarina, hoje com quinze anos, começou seus escritos aos dez anos de idade. Em meio a uma extensa biblioteca mundial, Bárbara descobriu Paulo Coelho, um brilhante escritor brasileiro e se apaixonou por seu modo de contar histórias. Em uma visão ainda um tanto conturbadado futuro, Bárbara espera que independente da carreira que seguir, o mundo literário a acolha de forma cativante como sempre o fez.

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Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
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