Necrófilos Anônimos



Era fim de tarde quando cheguei em casa aquele dia. O ar era extremamente frio e minha respiração condensava à frente do rosto. Enquanto caminhava, já próximo de minha varanda, observei um Bem-te-vi bicando o espelho retrovisor de um carro, insistentemente. Ele acreditava que o outro, do lado oposto do vidro, era real. Havia chovido de leve e as plantas do jardim estavam cobertas de uma fina camada de água, dando um efeito prateado à superfície delas. 

Abri a porta e fui cumprimentando a todos, como de costume, mas encontrei os garotos distraídos brincando com seus carrinhos num canto da sala e minha esposa tetanizada em frente a TV, o controle nas mãos, alheia a minha presença. 

– Boa tarde, família! 

– Oi pai! – disseram os garotos. Minha esposa continuava a fitar a televisão e me cumprimentou displicentemente. 

– Oi amor… 

– O que você está vendo aí? – perguntei, também observando a matéria, após beijá-la. Era um plantão de notícias. 

– Ué, você não ficou sabendo? Um artista sertanejo morreu. – explicou-me entregando o controle e caminhando em direção à cozinha. 

– Não… não fiquei sabendo… – respondi com certa curiosidade, tentando entender a cobertura da imprensa. Devia ser um cara muito famoso, porque enquanto eu mudava os canais, percebi que todos eles destacavam o mesmo assunto. 

– Estão falando disso o dia inteiro. Parece que foi um acidente de carro, morreu ele a namorada, não usavam o cinto de segurança. – continuou, de costas para mim, enquanto lavava a louça. E também eu fiquei ali tetanizado.

– Que cantor sertanejo? 

– Ih, amor, não sei não. Daqui a pouco vão falar o nome dele aí. Era um que cantava uma música assim: “Tcharará… Tcharará… Tchararárá! Tchererê… Tchererê… Tchererêêê!”… 

– Ora, mas que artista famoso é esse que você não sabe nem o nome dele? – perguntei intrigado. Aumentei o volume da TV pois as crianças arremedavam o som dos automóveis numa corrida. 

– Ah,é que ele não era tão famoso assim. 

– Ué, mas então por que os canais só falam disso? Do jeito que estão cobrindo a matéria, pensei que quem havia morrido era o Presidente, a Xuxa ou o Pelé. – disse e desliguei o aparelho. 

– Por que você desligou?! – perguntou-me com ar de reprovação, ao interromper o que estava fazendo. 

– O que mais a gente precisa saber sobre isso? Morreu um famoso cantor sertanejo que ainda não era tão conhecido, vítima de acidente de carro. Pronto. Morrem pessoas em acidentes de carro todos os dias e não dá tanto ibope assim. – respondi ao me dirigir aos garotos e beijá-los à testa. 

– Pai! Hoje na escola a gente viu aquele filme do ogro! – disse meu filho mais velho, cheio de entusiasmo. 

– É mesmo, filho? Que bacana! – comentei de forma genérica, somente para dar continuidade à conversa. 

– E eu joguei bola, e fiz até gol! – noticiou-me o outro. 

– Ih! Que bom hein? Parabéns! – disse me distanciando para guardar a mochila. Meu celular vibrou uma notificação de uma rede social. Acessei e percebi que lá também só se falava disso: nenhum meme ou piadinha com o governo, ou assombro por algum ataque terrorista. O assunto da vez era a morte do cantor que quase ninguém conhecia – e ainda, muitos dos meus amigos marcavam uma hashtag (palavra-chave do assunto em redes sociais) #lutofulanodetal, sem nunca terem ouvido sequer falar do cantor. 

– O cara era novo e tinha dois filhos, quase da idade dos nossos. – disse minha mulher, toda emotiva. 

– Eu vi o nome dele aqui e sinceramente, não fez muita diferença não. Nunca ouvi falar desse cara. 

– É aquele que canta “Tcharará… Tcharará… Tchararárá! Tchererê… Tchererê… Tchererêêê!”… 

– Não ajudou muito! – emendei, sentando-me à cadeira. 

Fiquei pensando se não havia outra coisa para se dar notícia, um corte na verba da Educação por causa da recessão, um aumento na conta de luz, uma votação importante no Congresso Nacional. Por que tanto frisson, tanta comoção? Morrem tantos, todos os dias, de tantas formas, de todas as idades, de todos os países… Por que – me pergunto – esse show da morte? O celular vibrou mais uma vez e outra ainda. Em questão de segundos, uma enxurrada de vídeos e fotos do acidente desse camarada surgiu ali no meu aparelho, nas redes sociais de que eu fazia parte. As novas mídias estão se tornando um negócio sem limites, as pessoas estão se sentindo jornalistas e fotografam e filmam tudo quanto querem e jogam na rede. 

– Vou procurar outras músicas dele. – disse ela, quase num sussurro, parecendo falar consigo mesma, e não comigo. 

– Ué, mas por quê? – perguntei intrigado. 

– Vai ver eu já ouvi alguma e nem sabia que era dele. 

– E isso faz alguma diferença agora? O valor ao artista devia ser rendido enquanto ele era vivo, agora, já não adianta mais. Aliás, tem uma música – e que não é dele  – que fala exatamente sobre isso: basta um artista desses morrer para se tornar ídolo de um monte de gente por aí. 

– Não sou fã, não é isso. Só fiquei curiosa. 

E no fim de contas, eu até entendo a curiosidade dela. Vejamos o que a própria mídia está fazendo, dando toda essa cobertura sobre o assunto (e em duas semanas não haverá uma nota sobre isso)! É quase um marketing post mortem. Foi assim com o Elvis, com o Bob, com o Lennon e com o Zunfus Trunchus. E não vai ser diferente com esse sertanejo, nem mesmo com outros artistas que vierem a bater as botas. 

Não é insensibilidade, ou desrespeito com a família do falecido (como diriam alguns); é realmente muito triste quando alguém morre jovem, com filhos para criar e de forma tão trágica. O que incomoda mesmo, é que isso ressalta nossa indiferença cotidiana. 

E nossos filhos, nossa esposa, nosso vizinho? 

E o porteiro do prédio? 

Estamos todos os dias com eles, e sabemos mesmo sobre suas vidas? Os vemos, ou vemo-los não vendo? 

Em compensação, apaixonamo-nos pelos artistas, músicos, atores, escritores, apresentadores de programas de auditório, vivos ou mortos. 

Anônimos, do lado de cá da tela de LED.

George dos Santos Pacheco

* Publicado na Revista Êxito Rio, em 22/07/2015.

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