Do Baú: Histórias Saborosas (1)


Um bom prato de comida e uma bela história: motivos sempre pertinentes para reunir pessoas numa espécie de comunhão. Desde que o mundo é mundo, em diversas culturas, tempos e lugares... Aposto que você leitor, tem em suas memórias, momentos como este, de paladares fundidos à imaginação.

No meu ofício de contadora de histórias, uma das oficinas que mais aprecio chama-se "Histórias Saborosas". É uma espécie de encontro da culinária com a literatura: enquanto prepara-se a receita, vamos contando histórias que possuem alguma associação com os ingredientes. E no final fica ainda melhor, porque tem o momento da degustação! 

No meu trabalho de pesquisa acabo sempre encontrando diversas obras literárias dedicadas a esse prazeroso encontro. Dentre elas eu destaco o livro "Histórias de dar água na boca" de Rosane Pamplona - um verdadeiro achado! 

A autora reúne, a cada capítulo, um relato pessoal, uma história ficcional e enfim, uma receita. Tudo temperado com curiosidade e humor. Faz o maior sucesso com leitores de várias idades! (Uma das minhas favoritas é  'A Sopa de Meias')

Seguindo esta mesma fórmula, apresento  uma das histórias¹ que contei na minha primeira oficina do gênero. É uma espécie de Pequeno Polegar à brasileira. 

Ah, e logo após, segue a receita² que aprendi nesse dia:

HISTÓRIA DO GRÃO DE MILHO

"Era uma vez uns casados que não tinham filhos. A mulher tanto pediu a Nossa Senhora que lhe desse um filho, ainda que fosse do tamanho de um grão de milho, que ao fim de nove meses ela pariu um filho, mas tão pequeno, tão pequeno, que era mesmo do tamanho de um grão de milho. Foi-se passando tempo e o pequeno não crescia nada, de sorte que ficou sempre do mesmo tamanho. 

O pai era lavrador e, quando andava a trabalhar no campo, era o Grão-de-Milho que lhe ia levar o jantar numa cesta; mas, como era tão pequeno, ninguém via o que fazia correr aquela cesta pela rua abaixo. O pai recomendava-lhe que não se chegasse para o pé dos bois, mas uma vez que ele tinha ido levar o jantar ao pai, a brincar trepou para cima de uma folha de milho e um dos bois, pensando que era um grão de milho, lambeu-o com a língua. 

O pai quando quis voltar para casa, por mais que o procurasse não deu com ele, mas tanto chamou que por fim ouviu responder que o boi o tinha comido e estava dentro da tripa. O pai ficou muito aflito e matou logo ali o boi e começou a procurá-lo nas tripas, mas por mais que procurasse não o encontrou, até que deixou ficar tripas e tudo. De noite um lobo, atraído pelo cheiro da carne, veio e comeu as tripas do boi, e deitou a fugir. 

O lobo teve umas grandes dores de barriga e o Grão-de-Milho começou a gritar-lhe: "C... aí, c... aí!" Mas o lobo, ouvindo isto teve tanto medo que mais fugia e não podia obrar. O Grão-de-Milho continuava a gritar: "C... aí, c... aí!", até que o lobo tão atrapalhado se viu que fez as suas necessidades. 

O Grão-de-Milho logo que saiu para fora, lavou-se muito bem lavado numa pocinha que ali estava e foi por ali fora. No meio caminho encontrou uns almocreves que levavam os machos carregados de dinheiro e foi com eles, metido num dos alforges. 

De repente, saltam uns ladrões, matam os almocreves e levam os machos com o dinheiro para uma casa que havia nuns pinherais. O Grão-de-Milho, como ia metido num alforge, foi também sem ser pescado. Os ladrões despejaram o dinheiro em cima de uma grande mesa e começaram a contá-lo. O Grão-de-Milho pôs-se debaixo da mesa e começou a gritar: "Quem dá dé-reis, quem dá dé-reis!" Os ladrões, assim que ouviram isto, tiveram tanto medo que deitaram a fugir. Então o Grão-de-Milho ensacou o dinheiro, pô-lo em cima dos machos e foi para casa. 

Quando lá chegou, era ainda de noite e bateu à porta. O pai perguntou: "Quem está aí?" e ele respondeu: "Sou eu, meu pai; abra depressa." O pai veio logo abrir a porta e o Grão-de-Milho contou-lhe então tudo, entregou-lhe os machos e o dinheiro e o lavrador, que era pobre, ficou muito rico."

BOLO DE MILHO SALGADO

Ingredientes:
  • 60g de tomates desidratados (tomates secos em compota é uma opção)
  • 100 g de farinha de trigo
  • 100 g de fubá fino
  • 1 colher (sopa) de fermento em pó
  • ¼ de colher (chá) de sal
  • 1 ovo grande
  • 200 ml de leite semi-desnatado
  • 3 colheres (sopa) de óleo de milho
  • 1 lata (200g) de milho verde
  • 1 pimentão verde pequeno, sem sementes e cortado em cubinhos
  • 1 colher (sopa) de sementes de gergelim
Modo de fazer:

Coloque os tomates desidratados em um recipiente refratário e cubra-os com água fervente. Deixe de molho por 30min ou até que estejam macios. Escorra-os, seque-os com toalha de papel e pique-os em pedacinhos, usando uma tesoura de cozinha.
Pré-aqueça o forno a 200ºC. Unte e enfarinhe a forma.
Triture o milho (com a água) em um liquidificador  até formar uma pasta.
Em uma tigela grande, misture a farinha, o fubá, o fermento e o sal..
Bata o ovo, o leite, o óleo e o milho até obter uma mistura homogênea.
Derrame a mistura sobre os ingredientes secos.
Adicione os tomates e o pimentão, e mexa bem.
Coloque a massa no tabuleiro untado e polvilhe com as sementes de gergelim.
Leve ao forno por 25 a 30 min ou até que a massa esteja crescida e dourada. Deixe o bolo esfriar no tabuleiro por 15 min e depois o desenforme. Sirva morno ou frio.


¹Versão recolhida diretamente da tradição oral e registrada pelo folclorista Silvio Romero (texto transcrito como no original).

²Receita apresentada numa oficina realizada no SESC de Nova Friburgo, em junho de 2011. 


Espero que gostem, da história e da receita! Inté mais!

Marisa Maia, em seus sete-ofícios-e-quatorze-necessidades,
 gosta de contar histórias e também de cozinhar!

2 comentários:

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