Questão de título

https://novaesperancaparaadiversidade.wordpress.com/2012/08/20/livros-sao-como-passarinhos-tem-asas-e-precisam-voar/
https://novaesperancaparaadiversidade.wordpress.com/2012/08/20/livros-sao-como-passarinhos-tem-asas-e-precisam-voar/

Nosso sistema acadêmico não está acompanhando as gerações. Como eu sei disso? Eu nasci no finalzinho da Geração Y e cheguei à idade adulta na cultura de Ensino à Distância.

Posso afirmar, em minha opinião pragmática de não-pedagoga, que o nosso sistema de ensino não está acompanhando os rumos que a humanidade tomou. E eu não estou falando de Ensino Médio (não caberia neste artigo). A questão é que, desanimada com o segundo curso superior que começo, pensando em tentar um terceiro, encontrei mais semelhanças entre eles do que diferenças (apesar de um não ter, aparentemente, nada a ver com o outro).

Sendo egocêntrica, pra justificar o Y da minha geração, vou falar um pouco mais sobre mim: Eu tenho 23 anos e não tenho profissão (quase um cliché), além de escritora, claro; ou não exerço minha profissão, o que é ainda mais comum hoje em dia; até hoje, não consegui concluir um curso superior – não que eu seja especialmente burra ou boa demais para isso. Vou explicar meu porquê: Eu faço parte da Geração Google; ou, para não fazer propaganda, Geração Ferramenta de Pesquisa. O que isso quer dizer? Quer dizer que os jovens, da minha idade pra frente, buscam o conhecimento quando precisam e porque precisam. Uma barra de cursor pra responder uma curiosidade, um questionamento, pra pedir um conselho... em alguns segundos, dependendo da qualidade da internet, a resposta aparece, aos montes, pra selecionar, comparar, escolher. Onde o sistema de ensino falha? Em basear o conhecimento em um modelo fixo, fechado, unidirecional, que já não é à toa que se chama grade.

Grade curricular: determina o que você tem, deve e precisa aprender, em um fluxo pré-determinado, que exclui qualquer disciplina que não se encaixe no currículo de um curso de quatro ou cinco anos.
O que o nosso Ensino Superior se tornou? Uma carga de conhecimento tão específico que cabe em um título.

E onde está o problema? Na transição. Fazemos, hoje, um Ensino Médio de conhecimento tão vasto, que saímos do colégio sabendo um pouco de quase tudo. É claro que somos preparados para a concorrência do vestibular, mas a amplitude do currículo médio é um ponto que seria ainda mais benéfico se não tivéssemos que escolher, dentre todo o conhecimento acumulado da humanidade, um caminho específico para nos tornar adultos.

Daí os pseudorreformistas sugerem que o aluno possa escolher, já no Ensino Médio, se quer estudar exatas, humanas ou ciências biológicas, para não “perder tempo” com coisas que eles não vão usar na vida. Gente, não podemos retroceder. A Internet é uma rede de conhecimentos compartilhados, onde, até nas redes sociais mais banais, encontra-se referências a matérias de Astronomia à Neurolinguística, passando pelos conhecimentos “periféricos” das artes e novas tecnologias. Como (des)preparar os alunos para a exposição a todo o tipo de conhecimento que ele recebe na rede?
E o que acontece? O pobre jovem exemplar, que consegue manter uma média de qualidade na maioria das disciplinas escolares, mal sabe direcionar o que ele gosta de aprender. Eu, obviamente, falo por mim, tem gente sortuda nesse mundo que consegue mirar numa carreira e seguir. Mas falo, também, por muitos que conseguem concluir sua trajetória acadêmica e não são felizes com suas escolhas #vocênãoestásozinho.

Como resolver esta situação? O que eu vou dizer vai parecer uma viagem das longas, mas a solução me parece a liberdade. E não estou falando só da Pedagogia da Libertação de Paulo Freire; estou falando de libertar-se das grades curriculares, de não mais isolar os nichos de aprendizagem, que mais portam-se como ilhas, flutuantes e distantes umas das outras. Estou falando de um sistema que não vá reduzir sua qualificação a um título, mas uma descrição de suas habilidades. Um sistema onde felizardos possam escolher formar-se em Ciências Jurídicas Gerais ou pessoas meio desorientadas possam formar-se em “Latim, Ciência e cultura, com habilidades linguísticas, artísticas, lógicas e bom convívio social”. Assim, talvez, não estaríamos formando profissionais, mas seres humanos adultos, com um grau um pouco mais específico, aptos a lidar com diferentes situações. Para um conhecimento ainda mais específico, pós-graduação; mestrado e doutorado, que hoje só servem como plano de carreira, que sustenta o próprio sistema acadêmico.

Queria eu poder receber, no fim do ano, completos 4 anos de Ensino Superior, meu diploma de “Ciências da Natureza, Ensino e Ciências sociais – Sabe o que é um quark, escreve e sabe quem foi Aristóteles.” ou, se tivesse sido implantado desde o começo: “Linguagem, Cultura, Ciências da Natureza e Ciências Sociais – sabe o que é um quark, quem foram Aristóteles, Platão, Weber e Diderot, conhece um pouco de grego e latim, fala inglês, francês e russo, escreve e programa em Web.”


Ania K. Gevezier - escritora.

Um comentário:

  1. Olá Ania, não sou da sua geração (rsrsrs), mas uma das coisas mais interessantes que aprendi nos últimos anos é o conceito de "rizoma" aplicado à educação. Trabalho, também, com educação não-formal em museus e defendo que um museu é rizomático... e por isso é muito mais provocativo (e educativo) do que a sala de aula! O conceito de rizoma é orgânico, aproxima-se de como nosso cérebro realmente funciona. Na contramão desse conceito temos exatamente o modelo de disciplinas (a tal grade que você menciona) que tenta "organizar" o ensino. Porém, o pensamento não é organizado assim, em pastas, gavetas, grades estanques. O pensamento é rizomático!
    Já sei que lhe deixei curiosa... essa conversa espero um dia desenvolvê-la com você. creio que você vai ficar fascinada pelo conceito, assim como eu fiquei.

    ResponderExcluir

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.