Do Baú: Colo, acalanto e o saquinho de ossos...

"Boi, boi, boi, 
Boi do Piauí, 
Pega essa criança
Que não gosta de dormir..."


Assustador, não é? (Ainda mais nos tempos em que o gado era criado solto e frequentava os quintais, onde alguns animais com fama de bravios tornavam-se mitos de respeito e temor). 

Entretanto, assustador é o mundo! E o colo, e o acalanto, comunicam aos pequeninos  que o mundo é cheio de perigos e desolações, mas ao mesmo tempo, tem alguém ali com ela, num embalo de corpo e  voz  dizendo (num idioma chamado afeto): "- Estou aqui com você, somos fortes para enfrentar"(¹). 

No dicionário a definição para acalanto é simples: cantiga de ninar. 

Na prática, em culturas de todo o mundo, essa simplicidade está entremeada de muitos significados e valores. Se por um lado, o balanço ritmado ao compasso do coração e a proximidade promovem o aconchego, a segurança e o relaxamento, a letras, em sua maioria, apresentam ameaças e frustrações:

"Dorme neném, que a cuca vem pegar,
Papai foi à feira, mamãe  vai trabalhar..." 

Acalentar é ao mesmo tempo, proteger e preparar. Preparar para a separação. Preparar para o enfrentamento: da labuta, dos problemas, das necessidades práticas da vida, do desconhecido.

Quando conto "Murucututu, a coruja grande da noite"(²) os pequenos ouvintes ficam de olhos fixos e atentos acompanhando a descrição da temida ave, preparando-se! Mas ao final, aliviados quando a trama da história transforma o medo em força, coragem e perdão, acompanham-me cantando: 

"Murucututu, de cima do telhado, 
Deixa essa criança dormir sono sossegado"

É algo assim, muito mágico. Assim como acontece com adultos, quando conto "Os três cabelos de ouro"(³): em dado momento, quando não há mais como prosseguir, surge a velha senhora que acalenta: 

"Ela o abraçou como uma mãe abraça o filho. Ela se sentou na cadeira de balanço e o embalou. E ali ficaram os dois, o pobre e frágil velhinho, apenas um saco de ossos, e a velha forte que o embalava.
_ Pronto, pronto. Calma, calma. Pronto, pronto."

Acalentar é preciso. Pra crianças e adultos. 

Entregamos nossos pequenos às creches, nossos velhos a cuidadores, nossos deficientes à instituições, nossos sonhos ao protelamento - porque trabalhar é necessário, porque o estudo é necessário, porque ganhar dinheiro é necessário! Ora, nem os dias mais claros, nem as noites mais trevosas, duram mais que o necessário...

Temos oferecido nosso aconchego a quem precisa?  E temos nos deixado acalentar? Ou vivemos petrificando-nos como um colosso que crê poder sustentar o peso do mundo? 

Acalentar é um exercício de fortaleza e humildade.

Então, meu leitor, minha leitora: hoje eu escrevo para dizer que todos nós, em diversos momentos da vida, nos revezamos em ser o colo ou o "saquinho de ossos" - frágil, frágil. Porque há momentos em que a trégua é necessária - pronto, pronto... e nada mais, antes de recomeçarmos. 


Marisa Maia tira "Do Baú" memórias e preciosidades, oralidade e tradição popular -
elementos influenciadores na produção literária e no nosso modo de ler... o mundo.

¹ "Acalantos" é uma obra com ilustrações de Ziraldo, textos de José Mauro Brant, acompanhado de um CD com cantigas de Bia Bedran. EMC - Empresa de Marketing Cultural Ltda. 

² "Murucututu, a coruja grande da noite" é um livro de autoria de Marcos Bagno, Ed. Ática. 

³ "Os três cabelos de ouro" é um conto presente no livro "Mulheres que correm com os lobos" de Clarissa Pinkola Estés, Ed. Rocco. 


6 comentários:

  1. Mais um belíssimo texto, Marisa! Parabéns!

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    1. Obrigada, Zé! Muito válida sua fidelidade como leitor!

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  2. Marisa Maia, parabéns pelo lindo texto.
    Acalentar, ser acalentado é primordial.
    Tão simples e esquecido.
    Carinho de um passado, por alguns nem vivido
    Que nossa alma clama que seja sempre presente.
    Como é bom!!!
    Parabéns pelo lindo jeito que escreveu nossas raízes.
    Sucesso. Bjs

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    1. Obrigada pelo comentário, Juassiara. Minha coluna "Do Baú" procura traçar reflexões e curiosidades a partir das tradições populares. Seja bem-vinda, sempre que quiser!

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  3. Excelente texto, Marisa! Parabéns! Muito bom contar com seu talento aqui na Revista Pacheco!

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