Café Literário: Um bom motivo


“Nunca mais”. Luiza decretou. “Hoje acabo com essa merda. Cansei.” A cólera a fervia. “Eu aguento.” Se dirigiu à janela, sentindo o vento invadir a sala e fechou os olhos, “ventinho sem vergonha”, se deliciou; lhe davam pancadinhas de amor. Ela cheirou o céu, ela o sentia e aos poucos se desprendia para se unir junto dele como se fosse um algodão de nuvem do mesmo... “De hoje em diante serei outra”. Fungava o céu, enchendo e descendo seus pulmões de ar, devaneando sobre uma nova perspectiva de vida. “Irei começar sair, cuidar de mim e conhecer outros caras. Vou conhecer alguém, com certeza tem alguém nesse mundo pra mim...Não ficarei sozinha.”

Sozinha. A  palavra reverberou em sua mente, uma bordoada inesperada foi dada em suas esperanças. Suas feições que até então tinham um sorriso de canto de boca, murchara, igual uma bexiga e de repente se definiu apenas no vácuo. O vento começava a gelar, e o sol a sair. Luiza que anteriormente se sentia como um farelo dançante no ar, lentamente, viu os seus planos caírem, com uma violência inigualável por terra. “Filho da puta”. E chorou como uma criança, se balançava convulsivamente, com os cotovelos apoiados no parapeito, com a cabeça entre as mãos, não tinha mais forças para se manter em pé, foi escorregando até atingir o chão. E chorou mais. Estava cansada de tantas pedras atiradas, de tanta covardia. “Eu sou uma otária”, afirmou dura. Ela se magoava repetidas vezes, e ele a magoava, mas sempre voltavam, de modo que magoar fosse um brinde compulsório a ser tolerado por quem ama, sem desculpas. Ele a tinha humilhado na frente dos outros.

“Dessa vez não.” Estava decidida, não cederia. Foi numa reunião de família. Ele cismou com o seu próprio irmão, bastou um gesto trocado, e uma dose de palavras, para despertar no namorado enciumado uma torrente magmática de ódio: no exato momento que os viu, trocando risos e conversas. “Piranha!”, jorrou a raiva fechada no rosto de Luiza, agora com uma cratera púrpura e latejante no olho esquerdo. Nem o irmão saiu impune. Ela correu envergonhada do recinto, não queria ser ajudada por ninguém, sendo apartado por outras pessoas, ele esbravejava “volta aqui, sua piranha! Quando chegar em casa, eu acabo com sua raça, sua cadela!”. As pessoas a encararam com uma desprezível compaixão e uma terrível empatia pelo momento vexatório. “Estou desmoralizada”. Ela fugiu. “Tinha que ter me batido na frente de todos?!” E chorou mais, copiosamente.

E foi fiando, e logo, desfiando sua infância, que ela tentava encontrar a chave do problema, se esforçando à trazer o pai na cabeça, conseguiu apenas um borrão de uma breve lembrança, ele partiu quando ela era criança. Sempre foi ela e a mãe, duas mulheres sozinhas; juntas, compartilhando a mesma solidão. Não tivera referências masculinas, no máximo um tio de outra cidade, que viu duas ou uma vez no natal. Sentia a necessidade de um algo mais em sua vida. Mateus a encantou, justamente pelo seu jeito paternal e determinado.

No começo, ele a pegava nos braços com frequência, e dizia que ela era sua menina. Começou com um pequeno flerte, no trabalho, depois a paixão foi se apossando de suas vidas. Ele abandonou a mulher de anos e filhos: os dois se prenderam numa só vez, e não conseguiram mais se separar. Lembranças suaves pareciam, no momento, um sonho distante, não realizado.

Ela lembrou das férias no litoral, primavera, dias quentes e frescos correram. Um dia, eles se amaram à beira-mar até a chegada da aurora: a maresia se embriagava com o vapor que exalava dos dois corpos, salpicados de areia, desabrochando sob a luz do sol nascente. Bateu um saudosismo. “Aquilo foi bom”. Contemplaram juntos a beleza das estrelas e do mar. Caminharam pela orla, conversaram, e riram de besteiras. Ele a acariciava com frequência. Tocava nos seus cabelos, a botava no colo, a abraçava, a ninando entre suas pernas, e beijava com sofreguidão seus seios,  lambia-os e sugava os mamilos eriçados, encarando-a ora com um sorriso malicioso, ora com um olhar de criança, um bebê que tentava sugar o leite imaginário dela, e sugava com tanto fervor que a deliciava ver como ele a dominava e deixava se dominar pelos seus seios, se convulsionando entre eles, o mesmo anjo-demônio beijava sua barriga; deslizando suas mãos grandes em toda sua extensão, apertando com força os seios na sucção, puxando seus cabelos da nuca, escorregando num fluxo pela barriga, pelas coxas, até chegar na planta carnívora dentro de si, que remexia seus lábios de gula, abrindo e fechando, aguando de desejo, esperando seu alimento cheio de vida, com os dedos úmidos, ele se emergia duro, tremendo.... “Gostosa...” A pele queimava e os conduzia em um ato de amor, “Pena que tudo desandou”. Ela sorriu e chorou.

E a lembrança de sua primeira surra brotou entre os seus correntes pensamentos:  um vestido vermelho de festa, ela manchou, com cola, aos seis anos, sua mãe a espancou a tal ponto de ficar uma semana sem sentar. “Não pode, ouviu?! Se estragar de novo alguma roupa minha, eu te encho de pancada, ouviu bem?!” Depois disso ela se tornou uma garota boazinha, e se comportou. “Minha mãe sabia educar”, repetia sempre para os outros e para si, orgulhosa. Era rígida, severa, truculenta. Uma mulher amarga, solitária e abandonada.

A hierarquia imperava na relação entre as duas, apesar de levar tantas porradas, ela continuava sendo sua única diretriz de vida, Luiza acreditava no amor entre elas. Apanhar era a única forma de consumação desse sentimento, pois somente apanhando, ela adquiriria dureza, na adversidade da violência amadureceria mais cedo pela dor, e essa era a maior prova de amor que uma mãe podia oferecer. “Ela me amou”, Luiza queria crer nisto, e por este motivo repetia essa frase como um mantra em seus pensamentos, quando era menosprezada pela vida para se sentir fortalecida. Mas agora não havia necessidade em se iludir esta ordem não mais existia, não funcionava como antes para alimentar o seu coração.

Quando sua mãe morreu, Luiza não era mais uma menina e se encontrava sozinha na vida, se tornou por um longo tempo uma morta-viva, até conhecer Mateus. A princípio ela o desprezava, “Eu com esse velho nojento?! Sem condições! Me poupe né!”, ela gozava dele na frente das colegas de trabalho, as quais brincavam sobre algo entre os dois, mas como a vida é enganosa! Quanto mais ela desejava ficar sozinha, mais Mateus e ela se esbarravam, mais tempo conversavam, conviviam. Primeiro, tornaram-se bons amigos, até um dia, depois do trabalho, sozinhos, rolou uma faísca nos olhares e mãos cumpridas se enlaçaram, cruzadas entre costas trêmulas e ofegantes em um cubículo escuro de um departamento qualquer.

Suas existências beges e monótonas se enrubreceram. Mateus e Luiza nunca conseguiram seguir o caminho do meio, estar juntos era um perigo. Os altos e baixos eram muitos e com a rapidez do vento, o novo se pôs a mofar; acumulando traças, eles começaram a se odiar, mas, na mesma medida, que se odiavam, não conseguiam se desvencilhar. O vício de ambos era se maltratar em nome desse amor.

Mateus invejava o perfume de Luiza e não conseguia suportá-lo, por esta razão tentava sufocá-lo, dissimuladamente. Não queria que ela saísse de casa sozinha, sem um bom motivo, qualquer motivo era um bom motivo, para destratá-la, “Está parecendo uma puta”, falava coisas desse gênero com uma naturalidade cruel, enquanto Luiza, se calava frente aos abusos e se prendia para não chorar. Ela se achava culpada por receber esse tratamento sem entender o como e o porquê.

No fundo, ela sabia do jogo sujo do namorado; estava sendo manipulada; mas preferia se enganar e acreditar que talvez houvesse um bom motivo para aquela crueldade regular, não conseguia se desligar: a imposição da dor era uma constante em sua vida, talvez não tomasse o risco de reagir e preferisse ser adestrada: por ele, ou por um outro alguém; ela devesse ser restaurada, pois “a vida é uma coberta, retalhada de sacrifícios”, uma premissa, a qual se acostumara desde cedo. “Está certo”, concluiu, porém ela já não mais suportava aquela situação, talvez não fosse a rocha que se julgava ser. E num suspiro, aliviada, decidiu “Hoje eu serei livre”. Ela levantou-se do assoalho, enxugou as lágrimas, prendeu o soluço e tomou um banho, colocou um vestido branco, passou um batom vermelho, se avistou no espelho: e sorriu; deslizando os olhos na janela.

Juliana Mendes
Juliana Mendes, professora, tradutora e escritora quando pode. Natural de Juiz de Fora, MG, acredita no dom das palavras e no dom da vida.

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