Café Literário: A Palavra Nunca

 
Ali está um simples homem sentado no interior de um templo. Escolhera um assento na longa fileira de bancos, na altura do nicho que abriga a imagem de São Pedro. 
Com as mãos postas, parece recitar uma oração. A cabeça baixa, mexe os lábios rezando firme, com fé. 
Entretanto, com o fluir do tempo, os lábios tornam o murmurar morno, depois frio e finalmente quase inexistente. A cabeça, por instantes, lhe pende no abandono de uma sonolência sorrateira, até que uma estranha oscilação de ideias o desperta. Ele suspira forte enchendo o peito e esforça-se para voltar-lhe a letra da prece: “Seja feita a vossa vontade...” Mas, como uma turbina que gira em torno de um eixo, certa classe de ideias lhe turva o cérebro. Ideias turbinosas!
“Qual teria sido, afinal, o sentido exato daquelas palavras do safado do Palhares? Depois de me ter forçado a dispensar o Amadeu dos serviços que ele me prestava com a limpeza e o cultivo da horta, vem agora com essas ideias de possíveis reformas. De ampliações, de modernizações, de gestões administrativas! Isto é uma loucura. Isto é surreal. Como é que pode? E o Amadeu como é que vai ficar? Para onde terá ido? Como é que um homem sem um braço vai se sustentar? E pensar que ele veio dar aqui pelas mãos da comissão pastoral dos sem-terras, quando houve a reintegração de posse daquela fazenda invadida... E depois que o país inteiro assistiu pela televisão, ao vivo e em cores, àqueles gritos, correrias, desmaios, prisões e à cena brutal dele caído no chão, com o braço metralhado, e a mulher, coitada, ao lado, com as mãos à cabeça a gritar desesperada, a chorar”.
As mãos do homem agora estão inquietas, as pupilas brilhantes, um desassossego de corpo.
“Assim na terra como nos céus. O pão nosso de cada dia... Onde o Amadeu vai conseguir o pão? Palhares com aquele argumento de que a diocese tenciona vender parte das terras da igreja e que, com esse dinheiro, talvez construa uma nova igreja... O problema está justamente aí. Talvez. O que me aflige é essa sugestão de que eu vá temporariamente para o retiro espiritual. É para o seu bem, ele disse. Para o meu próprio bem... Para o meu próprio bem... Para o meu próprio bem uma porra! Não gostei. O que eu vou lá fazer em retiro espiritual nenhum? Minha casa é esta. É aqui. Sempre foi. Há sessenta anos que sou o padre dessa paróquia. Meu Deus! Eu preciso me concentrar na prece. Não posso ficar entregue agora a essas cogitações. Dai-nos hoje, Senhor... Mas eu... Não é possível!”
Uma expressão de angústia se reflete  nos olhos aumentados.
“Tanto que eu me doei... Hoje eu estou assim inquieto. Uma coisa aqui por dentro, depois da conversa com o  monsenhor Palhares, está mexendo comigo, como se estivesse me dando um aviso. E eu não tenho sossego, esse assunto fica indo e vindo na minha cabeça”.
Tornou a se imobilizar, aéreo, pensativo.
“E dizer que o Palhares foi meu contemporâneo de seminário... Eu nunca confiei nele mesmo, nunca fui com aquela cara de bajulador. Em muito menos tempo do que era de se esperar, foi indo, de clérigo a padre, e agora, bispo! Não leva em conta tantos anos que nos conhecemos. Esqueceu-se de que quando eu aqui cheguei isto era uma grande capoeira. Esqueceu-se de que ajudei a construir esta igreja com minhas próprias mãos. É verdade. Eu era um jovem idealista e neste lugar, naquela ocasião, me sentia tal qual um São Pedro a ouvir as palavras do Mestre em Mateus, Cap. 16, vers. 18: ‘também eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta rocha construireis a minha congregação, e os portões do Hades não a vencerão...’ Para agora, no fim da minha vida, vir o pontapé que manda pelos ares tanto tempo? Tudo esquecido assim?”
Após novo suspiro, inclinou um pouco a cabeça grisalha.
“Engraçada a memória da gente. Há umas coisas de que eu me recordo como se estivesse vendo agora, outras não... Do que ficou para trás, ainda hoje vejo nitidamente o tempo de quando entrei para o seminário. Vejo o irmão Elpídio com aquele vozeirão a nos advertir sobre o dedo vingador de Deus com aquelas concepções doidas de caldeirões, espetos e garfos do inferno. Tudo para incitar-nos a ocupar  com o pudor e  recato. E pensar que, anos depois, ele mesmo foi abafadamente afastado da igreja  por pura e simples prática de pederastia”.
Uma chispa de riso aflorou nos lábios do velho padre.
“Oh Pai, que pensamentos! Perdão Senhor... E perdoa, Pai, as nossas ofensas...”.
Mãos entrelaçadas no ventre. Os polegares tocando-se nervosamente  até que os olhos se desviam para as pedras do piso.

“Assim como nós perdoamos aos nossos devedores. O que será essa trilha aqui? Meu Deus, serão cupins? Não. São formigas. Esses insetos indiferentes, eternamente presentes em tudo, a andar nesta fila, neste vaivém ordeiro. Só queria saber o que essas bandidas vêm fuçar aqui. Ih! Parece que uma delas se perdeu da marcha, se desorientou e vem para o lado de cá. Será que ela me alcança os pés? Hum! Dou-lhe um pisão. Não, não ela, que  tão desorientada, deve estar levando as patinhas à cabeça, como uma pessoa enlouquecida. Como a mulher do Amadeu na televisão. Não, as formigas só aprenderam a doce candura da subsistência. Nunca experimentaram o ódio de que sempre foi feito o perdoai uns aos outros das religiões humanas... Hum... E não nos deixeis cair em novas tentações, Senhor... Nunca conheceram o que é um bispo”.
Recolheu os pés calçados nas velhas alpercatas de couro e cruzou-os embaixo do banco.
“É certo que o Palhares não falou explicitamente em vender a igrejinha. Mas hoje quando tudo está sendo vendido... Tudo! E aquele padre espanhol com o olhar de inquisidor  que estava junto com o Palhares? Santo Deus!”.
As veias do pescoço mostravam-se salientes, as rugas do rosto vincadas.
“Mas livrai-nos de todos os males... E tudo acontecendo para o meu juízo ferver... São os sem-terra que vivem a me bater nas portas. São os sem-teto, são os sem-emprego. É a pastoral carcerária dos excluídos de tudo. São os maconheiros e os traficantes a se matarem uns aos outros. Essa sucessão de tragédias sem parar, sem nexo, sem sentido. Essa associação livre da violência no império do está acontecendo. Queira Deus que eu tenha nervos para suportar essa loucura... Onde foi mesmo que eu estava? Sim. Mas livra-nos de todos os males, Senhor. E o Palhares. Ah, Palhares...”.
Trouxe o corpo para a borda do banco e ergueu a vista.
“O Senhor tem que me acudir para que essa tal venda não se concretize. Como é que pode? Onde já se viu padre sem igreja, sem teto, sem terra? O Vaticano. O papa não está vendo isso não é? Ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco. Ô! Não era essa reza não, É o Pai Nosso. O que vai ser de mim?”
Levantou-se. Com um frêmito de mãos parecia chamar Deus à Razão.
“Já não basta, Pai, o brutal afastamento dos fiéis? Nem os antigos têm vindo mais. Senhor... Eu sozinho... Sem ter quem auxilie nas missas, nos trabalhos que exigem assistência, e ainda por cima ter que limpar tudo e cuidar da horta”.
Tornou a sentar-se inquieto.
“Só eu sei aqui dentro como está o meu coração. Tantos anos a serviço da igreja. Da igreja, não! Em primeiro lugar, como servo do Senhor, cumprindo, honrando na castidade o compromisso que assumi. Aqui, agora, sozinho, sem ter quem me dê a mão na hora da minha morte. Prestes a virar mais um velho abandonado na Santa Casa, a ser cuidado pelas irmãs de caridade. As irmãs... Eu que nunca me casei. E Marina. Onde será que anda a Marina? Aquela perdição. Será que ainda vive? Ou não? Ah! Minha vontade mesmo é chorar...”
Faz esforço para interromper as lágrimas que lhe crescem nos olhos e, certamente – a julgar pelo olhar suplicante que lançou - divisa no altar principal a imagem do Cristo de marfim, com os braços pregados na cruz de jacarandá, entortada e refratada pelas lágrimas.

“O que me vale é que o Senhor meu Deus sempre me ensinou o caminho da paciência. Se não fosse isso, não sei o que seria de mim. Paciência e resignação”.
Deu ao rosto uma expressão mais aberta, conformada; ou melhor, uma expressão obediente.
“Acatar os desígnios da providência... É triste não ter com quem falar, não poder ser ouvido neste mundo desconexo e brutal. Que ironia, tanta tecnologia e a humanidade feito um formigueiro desbaratado... O mundo mudou muito... Mudou demais... Meu Deus, que horror...”
Levantou-se, fez o sinal da cruz, espreguiçou os braços e soltou um longo suspiro de resignação depressiva. Nesse instante, rompendo o silêncio sem fala possível, um casal de pombos levantou voo da torre do sino rumo ao inatingível céu azul.

Krishnamurti Góes dos Anjos
 
Krishnamurti Góes dos Anjos. É escritor e pesquisador. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico – 1999 - Ed. Òmnira – Salvador/BA. Gato de Telhado – Contos – 2000 – Ed. do Autor – Salvador/BA. Um Novo Século – Contos – 2002 - Ed. Ómnira. Embriagado Intelecto e outros contos – Editora do GAC-Ba. 2005 – Salvador/BA. Doze Contos e meio Poema – 2011 – Casa Editora A LUVA – Salvador/BA. Tem participação em 22 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas literárias na Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho -, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

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