Café Literário: A Maleta


Junho, 1987. Diariamente, às 04h30minh, começavam a se reunirem sentados na porta do Café da Damiana, os que muito cedo acordavam e iniciavam o exercício da prosa. Feirantes do Mercado dos Cajueiro, delegados e inspetores de polícia da Capital, que vinham da Secretaria de Segurança próxima, onde entregaram o plantão distrital da noite.

Às 05h00minh, exatamente, passavam pelo passeio, cheio de cadeiras àquela hora, as três velhas solteironas que, por coincidência e esmero do destino, tinham o mesmo biótipo. Vestiam da mesma maneira e morava na mesma casa solitária na Rua David Caldas-sul.

Ao circularem, entre os que ali estavam àquelas horas, pediam licença de maneira entre rígida e formal, apenas para se sentirem atendidas pela cordialidade dos habitués presentes. Se sentirem gente. Bem poderiam ter passado pelo outro passeio.

Às 06h00minh retornavam, do mesmo modo, de braços dados andando em linha horizontalmente. Pisando alto, cabeças erguidas, peito estufado para fora como demonstração de fé, já que vinham das supostas orações na igreja. Nas mãos traziam os terços, breviários e nos ombros os indefectíveis xales pretos.Duas delas eram deficientes visuais e a terceira, como enxergava, era a líder e guia da tríade. Carma e Dharma.

Durante o resto do dia não mais apareciam, pois pela janela da casa onde moravam, compravam tudo que precisavam, eventualmente, cumprimentavam os vizinhos que passavam. Eram chatas, emburradas, preconceituosas e metidas. Por lá é costume passarem ambulantes oferecendo de tudo pelas janelas das casas.

Esse ir e vir à igreja de Nossa Senhora das Graças, na Praça Saraiva, em Teresina, Centro da Capital do Piauí e, após acordarem o vigia noturno, entravam na igreja pela porta dos fundos. Rezavam e se retiravam sem ter que cruzar com mais alguém. Especialmente homens. As três ainda são virgens.Segundo relato do porteiro, elas oravam num autentico ritual de exorcismo. Excomungando vizinhos inoportunos, esconjurando, ora pedindo perdão aos santos do Senhor ora rogando pragas. Daí urgir de estarem a sós no interior do templo.Nos fundos ficava a Pedra, que durante o dia era usado como local de venda de veículos roubados, guaribados, clonados. Um verdadeiro mercado livre de crime, além, de outras atividades correlacionadas. Uma espécie de quartel do submundo.

Naquela madrugada estando ainda escuro e ao alcançarem o meio fio do passeio da praça, encontraram ali uma maleta 007 grande. Supondo o óbvio, após confabularem entre si, levaram para o vigia da igreja, solicitando guardá-la até que aparecesse o dono.

Negócio recusado na hora. Sugeriu o vigilante que elas jogassem a maleta na rua ou nas águas do Rio Parnaíba próximas dali. Na via crucies que se seguiu contatou o vigia do colégio ao lado, o do também ginásio do outro lado da praça.

Todos se recusaram, sem ao menos terem aberto a maleta por curiosidade. Voltaram para casa sem o ritual religioso de praxe.

No retorno, já no meio da rua passaram demonstrando apreensão pisando com passos trôpegos. Carregando a pesada maleta, sendo assim alvo de chacotas de quem as observava.

Um malandro conhecedor do pedaço e vindo de uma noitada, ao vê-las com a maleta gritou: É a batina do padre que vai aí dentro. 

Transcorridos três meses do fato, as solteironas procuraram o mecânico Juracy. Um mestre em motores de caminhões, que tinha fama de ser honesto e rígido. Porém ele faltara ao serviço naquele dia, um fato raro. Elas voltaram com o achado e durante muito tempo não mais foram à igreja.

Acontece que ao abrirem a maleta na solidão de suas moradas, depararam com um revolver folheado a ouro e o restante do espaço com maços de cédulas. Perfazendo o total de 120.000 dólares, em notas altas.

A tensão e o medo tomaram conta das velhotas e pela janela vira então um cartaz de propaganda política, colado no poste de iluminação. Esse ressaltava a suposta honestidade de um candidato a vereador. Procuraram e entregaram a maleta à referida autoridade política e aliviaram as suas almas.

A dita autoridade, na verdade, era um conhecido usuário de drogas. Freguês das crônicas policiais e que, se candidatava ao cargo de vereador para obter apoio político. Evitando as suas constantes prisões e processos.

Com a bolada que o diabo, através das velhotas botou em suas mãos, comprou um carro novo. Encheu um caminhão de Damas da Noite na famosa Rua Paysandu. Tendo patrocinado ainda um desfile das mesmas pelas ruas da cidade, fazendo algazarras. Tudo terminou num enorme bacanal que passou a fazer parte da história das noites da capital.

Mandou confeccionar 5.000 calcinhas com propaganda política impressa na parte de dentro da forquilha e com o seu rosto estampado, numa grande gargalhada, sendo elas distribuídas nos bairro carentes próximos.

Propaganda na qual o seu retrato colado ficava colado no vértice supremo da paixão das usuárias.

Quando tomaram conhecimento dos fatos originados pelo achado e entregues de mão beijada à falsa autoridade, as três velhotas jogaram pela janela da casa todos os petrechos religiosos que tinham. Juraram ateísmo confesso.

Imagine Deus permitir que elas fossem instrumentos para botar aquela bolada nas mãos de um pecador. Um lobo vestido de cordeiro.

Quando a notícia chegou aos feirantes, aos habitues do café, vigias, malandros do pedaço, 171 que tão perto estiveram daquela maleta recheada de grana, sem o saberem, excomungaram as velhas senhoras. Na ocasião, já ateias.

E, desde então, as três velhotas solteironas permaneceram reclusas no seu isolamento, só sendo vistas de soslaio pelas suas janelas.

Raphael Reys

Retirado do livro "O cavaleiro do Bumba-meu-boi", de Raphael Reys. O livro, emformato pdf, será enviado a quem interessar, bastando o contato com o autor por e-mail.
Raphael Reys - Jornalista memorialista, escritor. Escrevo nos jornais O Norte de Minas, Caderno Opinião do O Norte, Jornal de Notícias, www.montesclaros.com, www.overmundo.com.br. Membro do Instituto Histórico e Geográfico.

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