Um por todos e todos por um


Quando o Pacheco me chamou para fazer parte da revista, eu aceitei na hora. Mas depois fiquei remoendo o assunto, será que as pessoas se interessariam pelo que eu haveria de dizer? Aliás, o que eu haveria de dizer, seria mesmo conveniente dizer em uma revista virtual?

Confesso que até agora não tenho certeza.

Eu sempre falo muito - principalmente após algumas doses - e o nosso editor-amigo-em-comum já presenciou  essas tertúlias, e sempre um amigo dizia: "Poxa, Humberto, você precisa escrever isso!", mas eu sempre  relutei.

Daí, uma noite dessas eu entrei naquele barzinho, pedi uma gelada e fiquei jogando conversa fora. A certa altura chegou umamigo de copo e começou a se vangloriar de ter colocado alguns evangélicos para correr, porque essa congregação tem o costume de bater de porta em porta para evangelizar. Disse ele: "Eles bancam os conhecedores da Bíblia, mas é tudo decorado. Botei eles para correr mesmo".

Achei aquilo uma tremenda sacanagem. Os caras estavam evangelizando - daqui a pouco vou falar o que penso sobre evangelho - e o mínimo que o meu camarada deveria fazer era respeitar. Aliás, o problema do mundo, desdeque o mundo é mundo, é falta de respeito. Cada um se julga o certo, em sua religião, time, casta, opção sexual, e procura subjugar, suprimir os outros. Parece que a intenção é homogeneizar a todos - todo mundo tem que ser uma coisa só. E aí começa toda a confusão.

Falei pra ele: "Mas tem uma parte do evangelho que os apóstolos falam - vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos. E Jesus disse: Não o impeçam, pois quem não é contra vocês, está a seu favor". Meu amigo "mastigou mingau", ficou ali por mais cinco minutos e foi embora.

Ora! Não é todo mundo cristão? Que história é essa de ficar brigando um com o outro como se fossem times adversários? Na minha opinião, a gente entendeu tudo errado. Discutem-se doutrinas quando deviamos nos unir em torno de um objetivo em comum - e daí ficamos perdendo tempo, marcando passo no mesmo lugar. Devíamos ser como os mosqueteiros, "Um por todos e todos por um", independente de religião, time ou qualquer outra coisa.

O próprio entendimento do evangelho está errado. A conversão a ser pregada não é de religião, é de vida. Se o camarada é budista, muçulmano, xintoísta, umbandista, candomblecista, cristão, pouco importa. Importa mesmo é "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo". Então, o mesmo Deus que falou no meio de uma sarça ardente, não teria encontrado outros meios de falar com os povos do mundo inteiro? Por que eleger apenas um para ser o certo?

Comentei sobre isso com um amigo, naquela mesma noite no bar. Ele disse: "Poxa, Humberto, você precisa escrever isso!". Escrevi e publiquei numa revista virtual, mas não sei se foi conveniente.

Confesso que até agora não tenho certeza.

Humberto Saraiva

Humberto Saraiva já foi marinheiro, professor e advogado (e de vez em quando arrisca umas notas em um velho violão). Tem muita história pra contar - e mania de por o dedo em tudo o que é assunto. É o mais jovem e o mais velho da equipe da Revista Pacheco. Em sua breve jornada terrena, já morou em pelo menos sete cidades, e atualmente vive em Lumiar (Nova Friburgo – RJ), onde “passa a noite caçando sapo e contando caso”.

2 comentários:

  1. Ah, Humberto, que certezas podemos ter nessa vida, rssrs?

    Gostei.

    Continue a publicar suas dúvidas sobre conveniências e inconveniências. Não é para isso (também) que escrevemos: para dividir nossas dúvidas com o leitor?

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  2. Seja bem vindo, Humberto! Tudo bem, seu texto é de opinião,é polêmico,mas e daí? A literatura também é assim - e precisa ser assim, tem que provocar, instigar, polemizar! Excelente texto, parabéns!

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