Prazer Feminino


Casualmente ele chegou. Você voltava de outra. Entrava e saía das bacias de chocolate como quem piscava o olho, e não agüentava mais ficar na posição em que estava. Você engordou dois quilos já. O ex continuava na mesma. Tudo bem, afinal de contas, você estava muito magra correndo atrás de quem não te queria. Pegou um tempo para si ao invés de sair com as amigas. Não necessitava sair agora, e no fundo- vamos ser francas- nem queria. Foi uma escolha sua. Você precisava para refrescar a cabeça, acalmar os ânimos, refrear a vida. E o que dela seria sem ele? Como conviver em meio a lençóis vazios quando tudo que você mais precisava no mundo era de companhia? Conversa? Carinho? 

Sua mãe morava longe, mas, mesmo que os conselhos delas fossem verdadeiros, eles não levantariam seu ânimo. Ele se foi. Ele não volta mais. E você por enquanto quer esquecer que tem uma vida, um mundo lá fora, uma dor iminente no peito. Quer se deixar arrastar pelos dias como quem também um dia foi deixada por um amor atirada à rua, e agora em meio a bacias de pipoca e comédias de solteironas recém abandonadas. Se deleita, relaxa, esquece de escovar os cabelos. O bafinho ficou na sua boca. Vixe.. As amigas não podiam te pegar no flagra.

Quando elas te vêem nessa situação, você é abraçada, consolada, repreendida. É chamada de linda, tem o cabelo estonteante, está perdendo todas as chances que tem de ser mais feliz por alguém que não te merecia. E você se entrega. Se entrega, mas não concorda. Quer ficar ali em frente ao seu Cine Pipoca esquecendo da vida, curtindo o gozo das férias no desapego do amor próprio, pois é tudo que te resta. Mas elas são suas amigas. Claro que não te deixariam fazer isso. Elas vão te arrastar até o fim dos tempos para debaixo do chuveiro, para ruas polidas, eventos, fofocas e festas maravilhosas.

Elas vão te ajudar a comprar roupas novas, secas e limpas, bem diferente das suas. Tudo bem, tudo bem. Você levanta as mãos. Você se veste e se arruma, mesmo a contragosto. Você promete devolver na mesma moeda pecaminosa a vergonha, a falta de bom senso e de amor próprio. Mas, surpresa! Depois de uma sessão torturante que você quer esquecer pelo resto de seus dias, você se sente pouco melhor. Ok, se sente ótima, até um pouco mais desinibida.

Você ficou bonita. Olhou para o espelho e quase caiu de costas, não sabia o que era um pó na cara a tempos. Está bonita, esbelta, bem maquiada. Mas, francamente, ainda assim não deseja sair. Você não tem mais quinze anos, não tem mais o pique da adolescência, nem liga tanto para mensagens que podem piscar na tela verde-clara do celular dizendo coisas incríveis para você.

Você tem quase trinta. A idade auge para decidir o que se quer. Para atestar seu livre árbitro, para ser dona do próprio nariz, comprar e imobiliar o apartamento. Tudo bem, você até pode sair. É solteira e desimpedida, claro, se não fosse a maldita dor no peito. Se não fosse sua sã escolha de ficar em casa, sozinha, mal arrumada.  Mas as amigas vieram. Acabou o sossego.

Você mostra o sorriso amarelado de consolo para você mesma. Você vai sair. Esquecer por um segundo as sessões de como ser uma solteirona feliz, e como treinar o autoestima dentro de quatro paredes, apenas com Prince em seu colo. O gato felpudo agora é o único homem que você deseja. Mas, hoje, contrariando sua vontade, Prince vai ficar solteiro. E você vai à balada solteira. Então, você engole o choro como quem engole um sapo. Pensa na vida, na mãe, nos tempos de diversão e bebidas. Quem sabe a velhota aqui pode voltar a se divertir, não?

Não e sim. Claro, você sabe que tudo depende de ti. Então deixa de ser pessimista e apenas aceita em silêncio a ajuda das amigas. Elas te querem bem. São como fadas: você fecha os olhos e, quando abre- pá pum!- está modificada. Unhas feitas, maquiagem perfeita, cabelo em ordem. Tudo liso, tudo perfumado, tudo equilibrado. Há um salto de 15 cm em seus pés e você não sabe mais o que é isso a tempo. Tudo bem, você consegue. Imprime e gruda um falso sorriso no rosto, segura as mãos no descanso do carro, olha para fora, para a massa de gente e a noite iluminada como uma árvore de Natal e sim, para a boate onde você vai se divertir. 

Você entra e acontece. Um homem aparece. E nada é por acaso, diria o destino. Você o viu já na entrada, mas estava focada demais nos saltos para o reparar de cima a baixo. Santinha, e não é que o bicho é mesmo bonito? Sua cabeça zune. A música parece tão alta.. Céus. Que idade você tem mesmo?


Ah, você entende. Você não quer. Não quer estar nem aí, não acredita nessas coisas bobas ditas pelos seus pais e avós. Ele é lindo, mas você perdeu um homem e não serve mais para isso. Não sabe nada de amor, está pouco ligando para a química perfeita. Você nunca gostou dessa matéria igual, ora bolas.  Porém, apesar de você desviar os olhos, ele não desgruda. Ao contrário, ele gruda os olhos em ti a noite toda, não pisca e seu coração começa a bater acelerado. Você está constrangida, nervosa, e enrola os dedos no cabelo como uma colegial. Puxa vida, o que está acontecendo? Isso não era para acontecer. Você não quer se envolver mais com os homens. Suas noites de sexo acabaram, você sequer soube direito o que era prazer. Mas aí ele se aproxima. Sua voz desmancha sua espinha já no primeiro ato, seu sorriso imobiliza seus braços, sua voz desaparece no ato. Calma. Muita calma nessa hora. Você freia fundo como quem desvia de um buraco e repete a si mesma que não. Não é hora de se envolver. É sim, hora de se precaver. Você está velha para joguinhos de amor, oh céus! 

Então puxa o decote para cima e tenta parecer dispersa. Quer sumir na multidão. Porque ele não escolhe outra?


Ah, droga. A atração. Ele encontrou isso em ti, o maldito sentimento que faz reluzir pessoas na multidão. Há algo em ti que só ele viu, então ele pediu para pegar sua mão, dançou, falou coisas divertidas. 

E você parou. Podia ser simples e fácil, mas para você ainda doía. Havia uma ferida aberta no peito, coçando, saracoteando junto com as batidas do teu coração. Como um punhal de dois cumes que atravessa o peito, como uma faca, um alicate. Feria e machucava. Ainda machuca. Você não podia ser tão inconseqüente assim, podia? Se jogar nos braços de outro será que ajudaria?


Você desconfiava que não. Tinha quase certeza que não. Bom, talvez sim, mas você era (e continua) teimosa. E está nervosa. Sabe que não adianta se fechar para o mundo como se ele tivesse culpa de tudo, quando a culpa é tão subjetiva e não nos leva a nada. Sabe que a grande maioria das coisas mudam na vida. Sabe que aparecem peças novas e personagens inusitados, e normalmente por alguma razão.  Ficar aí sentada no canto destroçando seu coração não resolve nada, não é? 

Quem dera se fosse. Então, você abre os olhos. Põe um sorriso de leve no rosto, e diz que sim. Estende a mão à ele, e quem sabe ele te faça sorrir mais vezes. Ele já te fez sorrir uma vez. Quem sabe tu saias e converse com ele, troque mensagens, combinem um sorvete. Quem sabe ele acenda uma luz na tua vida e te faça perceber o quanto tu é importante.


Ou talvez nada não passe dessa noite, mas isso é algo que você só vai saber se tentar. E se nada der certo no fim, você tem a você mesma e um punhado de amigas para voltar a ser feliz. E (ora bolas) quem disse que você não pode ser feliz antes? Você pode voltar a olhar filmes e dormir com Prince, mas também a se divertir, colocar uma saia colorida e sair. Pode e deve criar ambições, uma meta para alcançar, dias de folga e noites de sonhos para sonhar. Tem as pernas para agir e uma vida inteira para acreditar.

A única coisa que não deve é desistir do amor ou da vida. Um dia, qualquer dia, ela vai te visitar e transformar tudo aquilo que você acreditava em algo completamente novo e surpreendente. Basta você querer.

(Trecho extraído do livro As Vantagens de ser uma Megera Boa, de Vanessa Preuss, Editora Buriti)
Vanessa Preuss

Vanessa Preuss tem 22 anos, nasceu em São João do Oeste, mas mora desde os 5 anos em Tupandi, cidade pequena distante 87 km da capital Porto Alegre. Publicou "A Garota de Greenwich" pela Editora Buriti. "Sempre tive contato com a escrita e minhas primeiras histórias foram escritas em sala de aula, no silêncio do quarto à noite, nas horas vagas da adolescência. Aos 17 anos me tornei colunista em um jornal local e desde então tenho colaborado com três deles. Estudei jornalismo durante 3 anos, atuei como repórter, escrevo para o site online Donnatune e mantenho uma página na rede social do facebook semanalmente desde janeiro de 2014. Trabalho como secretária e auxiliar administrativa em uma empresa que atua no segmento de embalagens plásticas, e nas horas vagas, vendo e escrevo diariamente, por amor e hobby, o que me inspira a seguir a profissão de escritor".


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