Páginas de Rock

Li a obra clássica de Mark Twain As aventuras de Tom Sawyer por influência da banda que mais rolou na bandeja da vitrola lá de casa quando eu e meu irmão éramos adolescentes: Rush. Quando levei uma fita cassete para a casa de um amigo para apresentá-lo aos canadenses ele me respondeu com o livro. Cada um de nós se defendia com as armas que tinha. Apesar do nome, a música não é uma representação exata do livro, mas é diretamente inspirada nele.

A banda que mais ocupa meus ouvidos ainda é Rush, mas o tempo hoje é dividido com os livros. É interessante notar, tanto tempo depois, que não se trata de coincidência. Os caras têm uma relação estreita com a literatura, assim como todas as grandes bandas de rock.

Há muitas músicas inspiradas em livros – acredito sinceramente que a Bíblia deve ser o mais usado deles - e muitos textos a esse respeito por aí. O que chama atenção é que, afora o gospel, o rock é o gênero musical no qual encontramos mais exemplos de compositores leitores.

No álbum Ride the Lightning do Metallica encontramos duas referências explícitas a obras literárias: For Whom the Bell tools e The Call of Ktulu. A primeira, ao romance homônimo de Hemingway; a segunda, ao conto de Lovecraft chamado The Call of Cthulhu. O que não era suficiente para convencer meu pai de que os americanos não fazem apenas barulho. Dificilmente ele relacionaria Metallica à literatura (a gente fica mais velho e acha que o novo é pior, pouco digno de respeito. A inquietude dá lugar à nostalgia. Pura ignorância).

Ele era do tempo em que Little Richard espantava os mais velhos e era obrigado a manter sempre virada a capa do disco Here´s Little Richard, porque meu avô não suportava o sorriso escancarado do Ricardinho. “Já era suficientemente tolerante permitindo que comprássemos um disco daqueles” contava e sorria. Como não queria ver meu pai encarnando meu avô, nunca apresentei Metallica a ele (que também não ligava muito pra literatura).

Por outro lado, algumas bandas de rock que o velho admirava também beberam em fontes perdidas em páginas de livros. A emocionante (não encontrei um adjetivo mais adequado) The Fool on the Hill, que não é rock mas é Beatles, foi inspirada no romance Tom Jones de Henry Fielding. O álbum Animals do Pink Floyd, banda pela qual meu pai tinha devoção, foi todo inspirado na Revolução dos Bichos de Orwell.

Essa relação da música com a literatura deveria ser óbvia, como é óbvia a relação entre as diversas formas de expressão artística. Mas quando se fala em rock há um estranho bloqueio que impede parte das pessoas de enxergar arte, ou a possibilidade de haver ali algo mais que confusão sonora.

Por outro lado, estudos (ai, ai, ai) de uma universidade inglesa concluíram que os jovens mais inteligentes preferem ouvir rock por ser um gênero musical considerado capaz de estimular a criatividade e aliviar pressão. E olha que não há qualquer menção à relação com as Letras.

Há, também, quem veja maior capacidade profissional nos amantes do gênero. Recentemente o Estadão publicou matéria em que afirma que gostar de rock pode pesar positivamente na busca de um emprego. E mais uma vez ninguém menciona a relação estreita das duas formas de arte, mas já é um avanço.

Certo é que ao tratar de literatura somos vistos de forma diversa da qual nos olha o mundo quando vestimos camisas pretas com reproduções de capas de álbuns - mesmo sabendo que ao menos três músicas do Led Zeppelin foram inspiradas na obra de Tolkien, Iron Maiden sofeu influência (óbvia) de William Golding em Lord of the Flies, o ícone Black Sabbath inspirou-se também em Tolkien em ao menos duas músicas, Sepultura tem um álbum inspirado na Divina Comédia, sem falar em Tony Bellotto com suas composições e romances policiais, Bob Dylan, Rolling Stones, Velvet Underground, The Police, David Bowie, que criaram peças musicais importantes inspiradas em obras literárias - como se houvesse alguma diferença entre o que foi produzido pelos célebres autores e o que foi composto por lendas. Repito, pura ignorância.

Saindo do rock, no entanto, muitas vezes a influência literária produziu horrores musicais. Não consigo imaginar Clarice Lispector ouvindo Pato Fu, ou Jack Kerouac admitindo qualquer relação entre sua obra mais festejada e o bate-estaca da Katy Perry. Já Tolkien e Page compartilhando alguma poção mágica não é tão difícil de imaginar.

Fernando de Abreu Barreto

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog “O Nariz do Fernando”, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É autor da novela “A Forma da Sombra”, publicada em 2014 pela Caligo Editora.

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