Resista!


Foi numa briga no ringue
lá da rua de baixo.
As luzes de neon piscavam
e a plateia ensandecida
trocava palavrões.
Um dos lutadores
o de azul
estava acuado num quanto:
boca sangrando
olho roxo e alguns dentes no chão.
O de calção vermelho em pior situação.
Além disso tudo tinha
duas costelas quebradas
se mantinha em pé
sustentado pelo
pouco de orgulho que lhe restava.
O de azul amedrontado 
num canto
viu uma janela que
se abriu no teto.
E a multidão gritava


“desista, desista”
ele se endireitou
e num salto
saltou o outro
jogou as luvas pra cima
saltou as cordas
pegou as escadas
a porta
a avenida
a estrada
as colinas.
Foi correndo por
vales e montanhas
pelas florestas e mares.  
Correu até a beirada do mundo.
O juiz por pura pressão
dos patrocinadores anulou a luta.
E os neons voltaram
a piscar na semana seguinte
e os gritos de horror do público
e a multidão urrava:
“mate-o, mate-o”.
Mas não houve luta.
O de calção azul não veio
e o juiz declarou campeão 
o de vermelho
e ele ganhou um milhão.
E teve prostitutas e carros.
O azul desenhou uma frase
na camiseta
e nunca mais voltou.

Irineu Magalhães

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