O dia em que eu excluí minha conta do Facebook


Eu já havia pensado naquilo outras vezes - dizem que o suicida tem ideia fixa - mas faltava-me coragem. Eu pensava nas consequências, nas pessoas que deixaria, e no fim que teria; então apelei para a minha fé e hoje comprovo: existe, sim, vida após a morte virtual.

A decisão de encerrar uma conta em uma rede social pode passar por momentos de nostalgia, até a sensação de suicídio: eu pensava “como vou perder todos estes registros – fotos e publicações marcadas, como nunca mais vou ler os textos da Amanda Tinoco ou da Luísa Machado, ou nunca mais falar com certas pessoas?”

Uma rede social é quase um plano da existência, onde você pode ser quem quiser e exercer certo controle sobre sua vida, no entanto, esse universo pode torná-lo um prisioneiro do “efeito geladeira” - abri só para ver o que tinha, mas estava sem fome; dos códigos de conduta social virtuais – sou obrigada a curtir publicações de amigos, ter publicações curtidas, desejar feliz aniversário a alguém a quem não mandaria uma mensagem no universo físico e submeter meus amigos a tais obrigações; prisioneiro da opinião dos outros – eu nem pedi, mas sempre tem alguém exercendo seu direito de manifestar sua opinião não-convidada em minhas postagens; das indiretas desinteressantes; das postagens dos tipos chatos do Facebook.

A verdade é que todos somos chatos no Facebook: se você expõe sua opinião política ou social, você é um chato; se você percebe que sua opinião é dispensável e passa a postar futilidades, você é um chato; se você só passa para dar bom dia, você é um chato; o mesmo para quem só posta fotos de comida ou tardes na piscina de sua casa invejável. E se você utiliza sua rede social para divulgar seu trabalho – mesmo que você não marque nomes em suas publicações – parabéns, você é um chato. Você é um chato, prisioneiro do respaldo (curtir/não curtir) dos outros.

Quando a balança pesou para o lado negativo e eu optei pelo suicídio virtual, a sensação foi de libertação. Bem verdade que eu transferi contatos relevantes para o Whatsapp (ninguém vai voltar à época das cartas), mas, ainda assim, o fato de retroagir a uma rede social, puramente física, chamada realidade, me fez responder às perguntas iniciais: eu tenho autonomia para procurar minhas fontes de notícias, seja na web, seja fisicamente; se eu quiser desejar feliz aniversário a uma pessoa querida, existe uma rede auditiva chamada telefone – se você se lembrar do aniversário de alguém, sem que o Mark Zuckerberg tenha que te lembrar, aí sim o aniversariante se sentirá, realmente, importante; existe um modo muito antigo de manter contato com as pessoas da sua rede social e o nome dele é visita. Enfim, eu sei que, embora eu não tenha construído intimidade suficiente para aparecer para tomar um café na casa de todos os meus amigos do Facebook, eu sei que moro em uma cidade pequena e aquela sensação do “nunca mais ver” é pura ilusão (para o bem e para o mal). E o gratificante de estar ausente de uma rede em que você comunica, em tempo real, tudo o que você está fazendo, é que sobra novidades para uma boa e longa conversa; coisa que a nossa geração já desconhece.

Ania K. Gevezier
kity.gp@hotmail.com

Ania K. Gevezier sempre gostou de escrever, mas abandonou, por completo, a literatura, ao ingressar, aos 17 anos, no curso de Física; onde passaria mais de dois anos. Sua trajetória acadêmica sofreu, então, uma reviravolta, quando decidiu abandonar a faculdade e embarcar em uma jornada pessoal de autoconhecimento. O produto desta jornada é seu primeiro romance: "Café sobre tela", uma trama que envolve casamentos arranjados, cultura de café e economia escravista. Mora na cidade onde nasceu, Nova Friburgo, e estuda História na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Ania tem 23 anos e publicou "Café sobre tela" aos 22.

2 comentários:

  1. Artigo muito bom, Ania! A verdade é que estamos nos tornando cada vez mais escravos de redes sociais, celulares, computadores, tablets e toda essa tecnologia. Antes o pessoal conversava nos ônibus, por exemplo, e hoje, fica cada um sentadinho em seu lugar, manuseando seu celular, na internet, nas redes sociais, ouvindo música... nessa Terra de Gigantes, onde todo mundo é uma ilha...

    ResponderExcluir
  2. Pois é, rsrsrs... eu ainda não suicidei meu face, mas vivo afirmando que é algo que não pode ser levado muito a sério... aliás, nem um pouco a sério... essa espécie de 'termômetro social" medido a partir de curtidas! Outro dia, alguém dos meus "1057 amigos" (?) reclamava: "O face morreu! A mesma foto postei no instagram e já deu 80 curtidas e no face só deu 12!" kkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.