Café Literário: Valério Abelha


Valério morava nas cercanias do Mercado dos Cajueiros, fincado na Rua São João, no centro da Capital do Piauí, Teresina. Lá o seu quarto de serviços e moradia, alugado ou de favores. Uma pequena oficina de consertos, com uma tralha completa.

O local tinha sido uma lenda. Temido como ambiente barra pesada, dado ao seu passado entre os anos 30 e 60, ter sido infestado de botecos de má fama. Lupanares, arrasta-pés populares, trovadores, mestres de embolada, valentes do pedaço, malandros, habitués noturnos, além de acoitar homicidas foragidos.
Por lá imperou um código de honra, próprio das sarjetas, regado sempre a sangue e lágrimas. Um cemitério de otários e valentes.

Já no moderno ano de 1981, vivia Valério Abelha. Trabalhador diuturno, caprichoso, sempre pronto a servir; daí o seu apelido. Bombeiro, carregador, cozinheiro, pedreiro, eletricista, um polivalente. Pau para toda obra.

Sagitariano de sangue quente, baixote, cabeça chata, magro, porém musculoso. Barba por fazer, olhos rasgados com sobrancelhas de aspecto sátiro, cabelo ralo e eriçado, cara fechada, roupas de algodão grosso.

Sandálias de couros crus, acompanhando um andar arrastado e nervoso. Portava sempre uma sacola de ferramentas ou algum objeto a ser por ele consertado. Nas folgas, pitava um cigarro paieiro sergipano.

Fora de serviço, era alvo de brincadeiras da rapaziada, filhos de moradores locais, que, ao vê-lo, lembravam sempre de alguma aprontação. Aí ele mostrava o seu bom humor, uma graça acompanhada de caretas próprias, mesmo um joi de vivre.

Relatava as suas andanças pelo mundo, os amigamentos, as alegrias, as desditas. Mas esta liberdade era só para os locais. Bebesse umas e outras, aí botava para fora o seu lado tenebroso. Momento em que era melhor evitá-lo.

Como era insone, parte da noite era forçosamente guardião noturno das cercanias do Mercado dos Cajueiro, um zumbi. Dava carreira em meliantes e larápios, expulsava ébrios que não fossem moradores próximos. Dava conta da noite com suas ocorrências próprias, incidentes e mazelas.

Como andava sempre armado e era aguerrido; enfrentava qualquer parada. Ademais, possuía um sexto sentido que o atraía os momentos de confronto e sangue. Conduzia o seu facão amolado na bainha e atravessado por baixo da camisa, com o cabo no vão da omoplata direita e a ponta amparada à esquerda da braguilha. Estrategicamente encoberto.

Acordava na noite ouvindo gritos.  Era alguma sua vítima que apanhava com cabo de aço ou pano de facão. Na certa, o Valério interceptara algum ladrão noturno, algum tarado de acostamento ou mesmo defendendo moradores locais. Era o anjo torto do pedaço, um Adonai sem asas, sertanejo, curto, grosso e arretado.

Quando menos se esperava, ele aparecia e aí o pau cantava na casa de Noca. Na sua eficiência serviçal, cuidava mesmo das vias públicas próximas, em detrimento dos órgãos responsáveis.

Como todo valente, tinha os seus códigos próprios. Adoecera gravemente e fora internado no Hospital São Marcos ali, ao ser informado da visita da namorada atual, mostrou-se temeroso em ser surpreendido em trajes hospitalares. Transparentes e curtos que deixavam o seu traseiro parcialmente de fora.

Saiu cambaleando e tentou passar escalando os pequenos beirais da sacada do quarto coletivo no segundo andar para o quarto ao lado.  Assim oculto imaginava esconder-se das vistas da Vênus sertaneja, evitando o flagrante ridículo, já que a mesma se encontrava já a caminho.

Embora musculoso, a queda foi fatal, dado aos seus sessenta e dois anos. Felizmente o bravo não viu a cena final; o seu corpo seminu no jardim do hospital, sendo observado pela amada e demais presente. Um guerreiro morto por um inimigo sutil e invisível.

O preconceito!

Raphael Reys
Retirado do livro "O cavaleiro do Bumba-meu-boi", de Raphael Reys. O livro, emformato pdf, será enviado a quem interessar, bastando o contato com o autor por e-mail.
Raphael Reys - Jornalista memorialista, escritor. Escrevo nos jornais O Norte de Minas, Caderno Opinião do O Norte, Jornal de Notícias, www.montesclaros.com, www.overmundo.com.br. Membro do Instituto Histórico e Geográfico.

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