Café Literário: Papelão molhado


Chuva fina, uma manhã fria, o sol ainda estava no berço prestes a acordar. Sexta feira dia dos namorados. Casais apaixonados em busca de presentes para comemorar a data, lotando o centro e as lojas de vendas. Um dia comum para Alberto, pois, datas como essas não afetam em nada no regime de seu trabalho, talvez nas vendas, mas não quer dizer que influencie alguma coisa em seu salário, pois não ganha por comissão.

Acordou às 8:00 horas, colocou água no fogo, jogou uma agua no corpo para despertar melhor, fez seu café enquanto arrumava sua marmita. Saiu correndo como de costume, não que chegue atrasado todo santo dia, mas, pelo gosto de fazer tudo de pressa, isso o faz sentir ágil. Alivia a ansiedade. Entra em seu serviço as 9:00. De sua casa até o serviço leva por volta de 15 minutos, de trem são duas estações apenas. Trabalha de segunda a sábado em um sebo respeitado em São Paulo, Sebo Dom Casmurro, conhecido pela quantidade de livros novos e raros, seminovos, os melhores leitores e inclusive escritores, marcam presença. Sua localização é privilegiada, localizada atrás de uma das igrejas mais conhecidas em São Paulo, no ponto zero da cidade, próxima a basílica da praça da sé. Beto sempre frequentou sebos, conhecido como dedo sujo, por culpa da sua paixão pelos livros de contos e romances históricos, vivia em contato com as prateleiras empoeiradas, era seu sonho trabalhar nesse universo. Abandonou seu estágio no tribunal de justiça, onde acumulava horas para a conclusão do curso de História, não poderia perder essa oportunidade. Segunda a sexta trabalha das 9:00 às 19:00, aos sábados até as 14:00 horas e aos domingos visitas sua mulher, a que dedica tantos livros.

Seguiu seu ritual. Saindo das dependências da estação Sé, subia as escadas quando ouviu um grito de socorro, vindo de não muito longe. Apertou o passo, curioso e ao mesmo tempo desconfiado, foi em direção aos gritos que chamavam a atenção de quem passava por ali. Era seu caminho. Em frente à igreja da praça da sé, um grupo de homens de preto rodeavam um homem, de idade avançada, de braços abertos como cristo redentor, bradava em voz alta – “socorro”. Enquanto gritava por socorro, um dos homens arrancava-lhe o papelão molhado pela garoa que caia lentamente.  Havia muitas pessoas em volta, o motivo deve ser pelo valor histórico que o local possui, atraindo assim muitos viajantes e estrangeiros. Mas ninguém se manifestava, assistiam calados a ação daqueles homens.

Indefeso, aquele senhor que agora não pedia mais por socorro, chorava questionando-se em voz baixa – “por que”. Várias vezes. Seus olhos pareciam com o som da sua voz, um pouco mais alto. O desespero daquele senhor maltrapilho fez com que Beto se aproximasse. Tomado pela compaixão indagou a atitude daqueles homens.

 - Por que tomam a força o papelão desse humilde senhor?

Com o papelão em mãos, o homem que acabava de tirar o único bem daquele homem, respondeu com tom de deboche.

- Ora! Está com dó desse lixo humano? Leve-o para casa, garoto! Faça esse favor para sociedade. O centro é lugar para pessoas importantes, não para eles.

A resposta do homem, fria e vulgar a alma irritou o garoto. Retrucou imediatamente, antes que aquele homem e outros retornassem ao veículos que estava parado ao lado.

- Invejosos! Isto não passa de inveja. Apontando o dedo, chamando atenção de quem assistia a cena. Os homens silenciaram o riso. Quando um deles ameaçou responder a acusação do garoto, foi impedido.

- Por que me olham com essa cara? A quem vocês enganam? Suas esposas, talvez, a mim não enganam. Deus deve estar sorrindo com vocês. Podem rir, tiram-lhe o papelão. Leve logo embora. Jogue fora, como um lixo. Eis que a liberdade desse senhor não conseguiram nunca! Deixe-o sem seu único bem material, além das roupas rasgadas. Esse papel dobrado, encharcado, que lhe aquece e conforta em noites que vocês dormem tranquilos traindo suas esposas, dizendo estar fazendo horas extras ou presos nos transito. Esse cobertor de mentira, um colchão falso que nada descansa o corpo. Julgue-o com seus valores religiosos, valores morais e fundamentos desumanos.

Nesse momento, o homem que escutava a indignação do garoto, sem dar muita importância alguma, interrompeu.

- Cala boca, moleque mimado! Trabalha para o IBAMA? Defensor dos animais indefesos.

Os outros guardas começaram a rir da situação, pareciam se divertir. O humilde homem que ali era humilhado foi saindo de canto, envergonhado. Antes que o senhor saísse,  Beto não pode conter sua ira e explodiu novamente.

- Escute senhor! Estou te defendendo como um homem racional, sem julgamentos morais. Esses homens possuem coletes a prova de balas, recebem ordens como robôs, seguem mandamentos, por fim, reproduzem tudo que lhe mandam, assim não respondem por si, não possuem essa capacidade, são vítimas. Esses coletes que o fazem parecer indestrutíveis, nada servem, se não para parar balas e passar medo. São a prova de sentimentos também, são incapazes de agir como humanos. O amor deles são manifestado por sexo, para obterem mais posições.

Houve um silêncio em toda praça. O guarda não pode aguentar as acusações do garoto, então correu em sua direção projetando um soco. O garoto levantou a cabeça, como se aguardasse a ação. O homem estava prestes a golpeá-lo, quando foi agarrado pelas costas por outro guarda, que o impediu e disse.

- Vamos Tobias, não vale a pena! Não vá se sujar com esse verme. Foram arrastando o homem para o carro, se debatendo de raiva, entraram e partiram.

Beto, correndo em direção ao carro daqueles homens, gritou quase sem voz.

- Covardes! Mas, o carro arrancou em disparada e sumiu nas ruas do centro. No meio da rua, com todos olhando para ele, lembrou que havia deixado sua mochila. Voltou para buscar, logo percebeu que ali não estava. Nem sua mochila, nem o homem que minutos antes tentou defender. Pensou, “será que defendi aquele homem em vão”. “Podia ele ter roubado minha mochila quando corri para cobrar a covardia que fizeram com ele.” Beto estava muito triste, mas não podia dar razão aqueles monstros.

Chegando em seu trabalho, entrou cabisbaixo, era uma mistura de sentimentos, não tinha como esconder. Seu chefe reparando sua feição, perguntou.

- Tudo bem Beto, aconteceu alguma coisa? Beto, quieto e pensativo, apenas olhou e foi em direção ao estoque. Mas, enquanto ele adentrava o estoque, um homem entrou na loja.

- Vocês não tem nenhum papelão sobrando, nenhuma caixa que não estejam usando?

Beto saiu correndo do estoque, cheio de ódio, queria descontar sua traição. Foi surpreendido, o homem que fazia o pedido era aquele humilde senhor. Com sua mochila em mãos, veio em sua direção.

- Olha garoto, estou velho, não consigo correr com essas pernas repletas de cansaço, esse folego que você tem, não tenho faz tempo, sem condições de acompanhar suas pernas ligeiras. Sorrindo e ofegante, foi entregando a mochila ao garoto.

Os dois se abraçaram como irmãos, aliviados e agradecidos.

Zen de Cesar

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