Café Literário: O último pôr do sol

 
Era noite e mesmo assim o céu tinha um tom alaranjado, apenas uma estrela brilhava no firmamento.
Um medo me invadia e uma angustia corroia meu peito. Em meio aquele caos, penso que seria uma grande ironia do destino se eu viesse a morrer, literalmente, de arrependimento.
As pessoas corriam de um lado para o outro sem saber para onde ir, carros estavam virados de ponta a cabeça enquanto outros eram consumidos pelas chamas, as vitrines das lojas estavam destruídas e uma velha estatua acabava de tombar ao meu lado.
Mas eu continuava ali, inerte, no meio da rua.
Perguntava-me naquele momento do que havia me valido todas àquelas horas de trabalho intermináveis, a ausência nos almoços de família e a abdicação de tantos sonhos pelo futuro...
Futuro esse, que não chegou, que nunca mais chegaria. Futuro esse que ficou perdido no tempo. Sem nenhum valor, assim como a infinidade de planos e metas que viriam com ele.
Lembro-me que uma vez havia criticado duramente um funcionário que havia se ausentado de um dia de trabalho com o pretexto de que havia marcado de ver o pôr do sol com a família.

“O sol se põe todos os dias". Foi o que disse, enquanto ele saia pela porta da empresa para nunca mais voltar.
Arrependo-me amargamente por todas as coisas que não fiz...
Por não ter ido ver o jogo de futebol do meu filho no colégio, por não ter dito a minha mulher o quando eu a amava, por nunca aparecer no almoço de domingo na casa dos meus pais e por sacrificar tanto meus sonhos.
Queria voltar no tempo e poder mudar tudo, mas a vida não costuma nós dar uma segunda chance.
Então me sentei ali mesmo, na calçada, não havia mais o que se fazer e assim fico ali, vislumbrando o ultimo pôr do sol. Até ele se perder no horizonte e a ultima estrela se apagar.

Fecho meus olhos e me sinto engolido pela escuridão. Nada mais fazia sentido e perceber isso faz com que uma lágrima escorra pelo meu rosto.
Os estrondos que se seguiram depois fizeram com que eu abrisse meus olhos assustado.
Estava deitado no sofá e as pessoas na rua cumprimentavam a chegada do novo ano com uma queima de fogos.
Eu soava frio e tentava me orientar. Na televisão, uma repórter falava sobro réveillon em minha cidade, mas eu me concentrei apenas na pergunta que encerrava a matéria: O que você deseja fazer nesse novo ano? - Perguntava ela encarando a câmera.

Noto que a vida havia-me dado uma segunda chance e eu sabia exatamente o que fazer...
Joilson Brandão

Joilson Brandão começou a criar suas primeiras histórias, ainda criança, em seus jogos de RPG. Mas foi em 2012, com a criação do blog Meu Coração na Caneta, que passou a ter a escrita como sua paixão. Estudante de Administração, possui um livro publicado pela Editora Multifoco, (As crônicas do amor: O escritor, a cega e o homem de lata), e já sonha com uma nova publicação, em breve. Facebook: https://www.facebook.com/meucoracaonacanetaoficial

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