Café Literário: Ela, quem?


Ela disse que não viria, mas eu quis esperar. Mesmo assim: mesmo que a minha cabeça estivesse torrando pelos 39 graus Celsius que queimavam com o tempo; mesmo que as solas dos pés derramassem suor na surrada sandália de couro cheirando a limão; mesmo que um filhote de passarinho miudinho despencasse do alto da árvore do ponto de ônibus; mesmo que a moça dos lanches me contasse sobre a cobra que caiu da mesma árvore bem ali na semana passada; mesmo que o passarinho se contorcesse durante alguns segundos e em seguida parasse completamente de morte, mesmo que eu ficasse completamente comovida por não poder salvar aquele bichinho e tivesse que aceitar o homem da loja de tintas catando o morto com um pedaço de jornal e o jogando num cantinho qualquer. Ninguém fez nada, nem eu. Mesmo assim, comovida, fiquei parada, como o passarinho quando caiu. Mas continuava respirando sem me contorcer. E continuava esperando. Mesmo sabendo que ela não viria, esperei até o sol não queimar mais e a árvore alta exibir uma sombra que escurecia como o céu, como o tempo; até secar o suor das solas dos pés e até o limão ficar amargo e as formigas encontrarem o cadáver filhote. Esperei como quem espera apesar de... A espera arde como o sol às nove e meia da manhã, cheira como limão azedo e amarga como a morte de um bicho inocente. A espera dilacera como o ônibus que não vem para quem torra no ponto. A espera é assassina quando os segundos se contorcem miudinhos e as formigas com pressa carregam o passarinho morto enrolado numa manchete de jornal: "Greve de ônibus trava Avenida Antônio Carlos Magalhães".
Mesmo assim eu quis esperar. 

Flora Rocha

Flora Rocha é gente das artes cênicas, das palavras, dos movimentos e das pessoas. Ganha inspiração da vida e da teimosia de sentir seu coração: escreve por ele e para registrar seus olhares do mundo.

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