Retorno a Ítaca: Cuba e a Geração 70 - entre a amargura e o autoengano

Leonardo Padura e Laurent Cantet

Mais uma vez a parceria entre Laurent Cantet e Padura, que teve início em 2012 quando o cineasta francês dirigiu um episódio em Sete Dias em Havana, longa baseado em contos do escritor cubano, prova dar certo e nos presenteia com o bom cinema.

O primeiro trabalho conjunto foi o curta A Festa, que conta uma história bem humorada sobre o sincretismo religioso de Cuba, em substituição ao argumento de Retorno a Ítaca, pois segundo Cantet seria “um desperdício narrar como curta o que deveria ser um longa”.



Agora, finalmente produzido, Retorno a Ítaca nos chega e confirma o sucesso dessa parceria: um filme que visita a Cuba atual, sobre “Adultos maduros”, “pessoas inquietas que não desistiram de sonhar”, como definiu Cantet, em entrevista recente concedida a OESP (Caderno 2, 10.06.2015).

O filme fala sobre a amizade entre quatro homens e uma mulher, na casa dos sessenta anos, que assistiram à história e compartilharam a vida na Cuba dos últimos 40 anos.

Toda ação se passa na laje de um prédio de baixa renda de Havana, quando o grupo se reencontra e festeja a visita ao país do amigo Amadeo, após 15 anos de autoexílio. O que poderia ser só festa e nostalgia dos anos dourados se revela um acerto de contas entre amigos e de cada um deles com o país: amargos e frustrados, os cinco amigos falam da desesperança com o projeto socialista de sociedade e a Cuba que lhes roubou os sonhos, a realização e a alegria.

O que se assiste, ao longo do filme, é um balanço de vida, forte e profundo, amargo e melancólico, em razão da grave crise econômica e do crescimento do autoritarismo político em que o país mergulhou, após o fim da União Soviética e do repasse de subsídios aos irmãos cubanos.

Embora nos pareça um retrato do fim do sonho de juventude e o balanço de perdas da geração que abraçou o projeto coletivo cubano, nos leva a refletir e, talvez ainda assim, nos deixe a certeza de que “vale sonhar e despertar do que viver e morrer sem nem ter nunca sonhado”, como escreveu um crítico de cinema brasileiro sobre a obra.

Ainda sobre o filme vale saber que, embora o governo cubano tenha dado todo apoio à filmagem de Retorno a Ítaca, o longa não foi exibido no último Festival de Cuba, numa clara demonstração da renitente dificuldade do regime cubano à absorver críticas.

Retorno a Ítaca é um filme imprescindível para entender o momento que vive Cuba e sua sociedade, em que se assiste um processo de abertura do seu regime político, com o fim de certas restrições socioeconômicas e a retomada de relações com os EUA.

Notas adicionais:

Leonardo Padura, nascido em Havana, em 1955, é jornalista investigativo, ensaísta, roteirista e autor de novelas policiais. Tem publicado 8 livros, entre os quais O Homem que Amava os Cachorros.

Laurent Cantet, nascido na França, em 1961, dirigiu também Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Canes em 2008 – história baseada no livro de Fraçois Bégaudeau.

Andréa Nogueira

Andréa Nogueira, natural de SP, é jornalista, graduada pela Escola de Comunicações e Artes da USP (79). Atuou na área de propaganda e pesquisa de comunicação e consumo, até 2002. É assessora de comunicação e eventos nas áreas de educação e saúde. Especializada em jornalismo cultural colabora com sites especializados e redes sociais publicando artigos e resenhas sobre artes, literatura e cinema em especial.

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