Histórias da Loucura: além dos muros do hospital



Albino Braz, Sem título (homem vestido com retrato na parede)


“Os homens são tão necessariamente loucos, que não ser louco seria uma outra forma de loucura.” - BLAISE PASCAL


O MASP escreve o primeiro capítulo da história da “Arte dos Alienados” na “Arte do Brasil” com a exposição História da loucura: desenhos do Juquery: são 102 desenhos e pinturas realizados pelos internos daquela instituição manicomial, presumidamente entre os anos de 1956 e 1964, e doados por dr. Osório César (1895-1979) ao museu em 1974. César, juntamente com a dra. Nise da Silveira (1905-1999), foi um dos pioneiros das práticas artísticas em hospitais psiquiátricos brasileiros.

Como pontua Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, trata-se de uma mostra sobre “histórias que apontam tanto para a história dos acontecimentos, das ideias, da arte, como para a ficção e a narrativa pessoal”. ¹

Embora esse material tenha enorme importância enquanto registro histórico e científico, sobre a loucura e sobre a arte da loucura manicomial no Brasil, é do ponto de vista de sua ficção e da narrativa pessoal que os trabalhos expostos nos impactam, como experiência estética, e nos aproximam de seus artistas.

Leio que Albino Braz, autor do maior número de obras que compõem a exposição (42 trabalhos simples em estado de conservação precário, em material comum, lápis e papel e formatos pequenos), teve seus trabalhos incluídos em exposição, já em 1949, organizada pelo pintor francês Jean Dubuffet (1901-1985), em Paris.² Aliás, foi Dubuffet o responsável pelo impulso à produção de indivíduos com transtornos mentais – nomeada Art Brut, que já no início do século XX despertara o interesse de Paul Klee (1879-1940) e André Breton (1896-1966), e foi motivo de forte perseguição pelos nazistas rotulada como “arte degenerada”.

(Albino Braz, sem título e data)

Os outros 60 trabalhos presentes na exposição do MASP estão divididos entre 21 artistas, sendo que sete obras desse total são de autoria desconhecida. A grande maioria não possui  título e nem data de criação, mas supõe-se que todas tenham produção anterior à 1964, quando o seu doador, dr. Osório César, deixou a direção da Escola Livre de Artes Plásticas, ativa entre 1956 e 1970, do Hospital Psiquiátrico do Juquery.

Retomando o propósito deste artigo, coloco o foco na “capacidade comum de criatividade” ³, ou seja, na qualidade estética desse conjunto de obras, ao invés de sua valorização exclusivamente diagnóstico-científica. Interessa-me refletir brevemente sobre essa arte como objeto de análise da emoção, no âmbito do fazer artístico, ou seja, como expressão d “a própria profundeza” do artista.


(Albino Braz, sem título e data)


“Dada essa riqueza ... não há realmente nada patológico, é meramente uma expressão do sentimento de um mundo interior diferente da nossa.” 
OSÓRIO CÉSAR 4


Em todos os trabalhos da mostra há um mergulho no inconsciente de cada paciente-artista: há pulsão de vida, ao tratar do desejo sexual, da religiosidade, seja na forma de sonhos oníricos como em Chagal, eróticos como em Rodin, encantados como em Paul Klee, religiosos como em Portinari, singelos como na arte naïf.

Todas as imagens e personagens são retratados com certo caráter lírico e melancólico, nada nos choca, nada é vulgar. Tudo é muito humano, belo e poético. Os trabalhos propõem diálogo e despertam compaixão.

Nos trabalhos de Albino Braz há ansiedade, medo e a sensação de encurralamento, mas também muito de amoroso, puro e lúdico. Confunde-se o cenário circense com o religioso, o divino com o carnal, o perverso com o ingênuo. É clara a pulsão sexual e de adoração entre homens e animais: há uma quase simbiose. Mas mesmo nos trabalhos de cunho erótico, o ato sexual não nos parece violento, embora o impulso nos pareça mais animal do que romântico.

Para além da manifestação artística que sempre nos enriquece, essa exposição nos propõe um desafio: o de muito aprender com esses desenhos para “novas leituras” sobre as historias do gênero, “frequentemente marginalizadas nas histórias da arte, para além das histórias modernas e eurocêntricas, conhecidas e canônicas, na academia e no museu”. 5

Ficamos no aguardo de outras exposições sobre “histórias da loucura” e, assim, avançar nesse desafio.


1. 3. 5.  Adriano Pedrosa, in Histórias da Loucura: desenhos do Juquery, texto de abertura do catálogo da exposição.
2.  Jean Dubuffet, L’Art Brut préféré aus arts culturels, Paris: Galerie René Droulin, 1949.
4.  Osório César, in palestra na Société Médico-Psychologique, em Paris, 1952.


Serviço:
HISTÓRIAS DA LOUCURA: DESENHOS DO JUQUERY
MASP de 12.06 – 11.10.2015
http://bit.ly/1IRClYj



Andréa Nogueira, natural de SP, é jornalista, graduada pela Escola de Comunicações e Artes da USP (79). Atuou na área de propaganda e pesquisa de comunicação e consumo, até 2002. É assessora de comunicação e eventos nas áreas de educação e saúde. Especializada em jornalismo cultural colabora com sites especializados e redes sociais publicando artigos e resenhas sobre artes, literatura e cinema em especial.

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