Ciências Morais – entre a realidade e a ficção. Uma história sobre ditadura e seus “soldadinhos de chumbo”.


Parece difícil acreditar que a ficção, tendo como discussão de fundo as ditaduras latino-americanas, ainda possa nos surpreender com uma fórmula criativa e inovadora de romance político.

Ciências Morais, obra do argentino Martín Kohan, consegue esse feito e dá provas de que para a boa literatura os recursos são inesgotáveis.

O romance é a história do “tradicionalíssimo” Colégio Nacional de Buenos Aires, na capital portenha, e da jovem inspetora de classe María Teresa, que nos conta o que se passava no país e na sociedade do autor, durante os últimos dias da ditadura militar, que culminaria com a derrota argentina na guerra das Malvinas.  

É com maestria e por meio de uma grande metáfora que Kohan nos possibilita vivenciar o clima de repressão e medo nos anos de chumbo do seu país, sem fazer uma única menção ao regime militar ao longo do livro.

Assim como “... a história da Pátria e a história do colégio são uma só e a mesma...”, no dizer do senhor Prefeito, um personagem do livro, María Teresa é uma metáfora de muitos argentinos. O autor parte desse recorte para contar sua história, mas seu alcance geral é evidente.

No centro da ação, a jovem bedel é uma personagem que goza ora da nossa empatia, e até de certa compaixão, ora das nossas dúvidas e questionamentos, em face de sua alienação e subserviência. 

María Teresa trabalha no colégio, aplicada na obrigação de “manter a ordem e normalidade...”, “Para garantir que nada altere o império soberano da normalidade”. E o faz sem suspeitar de a quem está servindo. “Ela também não sabe com precisão o que está acontecendo, embora aja com a resolução dos que sabem. Ela também não tem as ideias claras.”

A rotina de aparente normalidade e controle, perpetrada por rigorosas vigilância e disciplina, que se dá envolta numa atmosfera de quase asfixia – de ar e luz rarefeitos como sói ser dentro de um “claustro”, aos poucos dará espaço a uma sequência de fatos insólitos em um clima de tensão crescente (repressão e punição).

Ocorre que para preencher o vazio, romper com a monotonia de sua vida e obter reconhecimento de seu chefe e mentor, a inspetora dá início a um processo de investigação, de uma possível transgressão, do qual acabará sendo a maior vítima.

Pela ousadia do seu método de vigilância e risco que ele implica, sente-se que algo de mais grave e definitivo está para acontecer. Será o preço a pagar por estabelecer estreita cumplicidade com quem só sabe se relacionar reprimindo e subjugando.

À medida que os fatos atropelam a personagem, o suspense da história vai num crescendo e vaza de um capítulo para o outro: o recurso literalmente sufoca o leitor que, preso à leitura, não tem o necessário tempo de respiro entre um capítulo e outro. Assim, entramos na rota de desespero da personagem, ficamos como María Teresa, com um grito parado na garganta.

“... Uma mão rude abre-a de forma tão brusca que a porta bate na parede... Trêmula e aterrorizada, ... está ela. ... María Teresa sente vontade de urinar, mas de medo.”

Os fatos que se seguem pesarão contra ela, mas só assim haverá a construção de uma consciência: de si mesma e da situação de seu país, sem mais ilusões.
“Além disso, serve para outra coisa, ..., que é proporcionar para María Teresa um indício, que agora também é um consolo, de que o mundo lá fora ainda existe e continua, que poderá voltar a ele, que isto que está acontecendo com ela não o aniquilou e não é tudo.”

Nem mesmo por se saber do desfecho histórico da guerra das Malvinas e do término da ditadura argentina o leitor se livra da sensação de um soco no estomago e do gosto amargo que o romance deixa, independentemente de se ter acompanhado de perto ou não os anos de chumbo na América Latina.

“Nas tardes em que o céu, o céu invisível que persiste lá fora, se cobre de nuvens..., o ar do colégio se ensombrece demais da conta. São dias de tormenta, embora lá dentro não haja maneira de saber ...”

Os dias eram assim.

Martín Kohan, nasceu em Buenos Aires, em 1967, é professor de teoria literária na Universidade de Buenos Aires e da Universidade da Patagônia , é autor  de ensaios sobre Walter Benjamin, Eva Péron e José de San Martin e, no campo da ficção, publicou dois volumes de contos e seis romances, entre eles Duas Vezes Junho ( Amauta Editorial, 2005), Segundos Afora (Companhia das Letras, 2005) e Ciências Morais (Companhia das Letras, 2007) já traduzidos e lançados no Brasil.

Andréa Nogueira

Andréa Nogueira, natural de SP, é jornalista, graduada pela Escola de Comunicações e Artes da USP (79). Atuou na área de propaganda e pesquisa de comunicação e consumo, até 2002. É assessora de comunicação e eventos nas áreas de educação e saúde. Especializada em jornalismo cultural colabora com sites especializados e redes sociais publicando artigos e resenhas sobre artes, literatura e cinema em especial.

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