Do Baú: Chá com gosto de avó



Tenho retomado o hábito de tomar chá... e com isso, reativado memórias sobre minha avó paterna. Uma mulher doce e diabética. Que sabia fazer doces e quitutes maravilhosos para vender e poder ter um dinheirinho que fosse seu. Uma mulher analfabeta, que sorvia a beleza das palavras ao ver sua neta lendo os deveres de casa. 

E o silêncio cúmplice de nós duas, tomando chá, cobria o ar carregado de cheiros de cidreira, hortelã, melissa, erva-doce... 

Porém, havia uns momentos de estranha poesia:

- Vó, eu tô com fome!
- Vai na rua do João Gomes, mata um homem e come...
- Vó, machuquei o dedo!
- Até casar, sara.
- Vó, que dia é hoje?
- Hoje é domingo, pede cachimbo, o cachimbo é de ouro... - e ela ia fazendo-me graças com parlendas, ditos e coisas assim:

-Olha, vó, chuva com sol!
- Casamento de espanhol.
- E se for sol com chuva?
- Casamento de viúva.
- E chuva com vento?
- Casamento de jumento. (risos)

Caísse um talher no chão, a visita estava a chegar. Se fosse um garfo, seria um homem. Caísse uma colher, seria mulher. Mas, se a visita fosse de parente não tão bem-vindo assim, a vó resmungava:

- Parente é dente que morde a língua da gente...

E uma vassoura atrás da porta talvez garantisse a brevidade do visitante.

Abrindo o baú desse período dos 7 aos 12 anos - no qual morava com essa avó - escolhi, neste mês, tratar das locuções populares. Já ouviram aquelas que são comparativas?

- Branco que nem uma barata descascada!

- Enrugada qual um maracujá de gaveta! 

- Sujo que nem pau de galinheiro!

- Com pressa como quem vai tirar o pai da forca!

- Feio como o cão chupando manga!

Essas eu ouvi. Entretanto, há algumas engraçadas que encontrei pesquisando:

- Dura pouco que nem manteiga em venta de cachorro!

- Tão ladrão que, se vendesse um cavalo, achava um jeito de ficar com a marcha!

- Valente que nem cobra de resguardo!

E há aqueles que são ditos conceituosos:

- Cara feia é fome.

- Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

- Em terra onde não tem carne, espinha de peixe é lombo.

- Com mulher de bigode, nem o diabo pode. 

- Mulher de cabelo na venta, nem o diabo aguenta.

- Pé de galinha não mata pinto.

- Penico de barro não dá ferrugem.

- Quem nasce torto morre envergado.

- Roupa suja se lava em casa.

- Notícia ruim corre depressa.

- Tempo é remédio.

E que tal as rimas de ensinamentos?

"Trinta dias tem novembro,
abril, junho e setembro;
vinte e oito só tem um
e o mais, têm trinta e um."

"Remenda teu pano, durará mais um ano.
Remenda outra vez, durará mais um mês.
Torna a remendar, pra então se acabar."

"Quem é torto e mal se ajeita, 
tarde ou nunca se endireita."

"O pouco que Deus me deu
cabe numa mão fechada;
o pouco com Deus é muito,
o muito sem Deus é nada."

É muita sabedoria da qual nossas avós e avôs foram guardiões. Em tempos de tanta digitalização e excesso de informação, conseguiremos nós, também, sermos arcas para salvar o que foi registrado por nossas retinas e ouvidos? 

O assunto é vasto e riquíssimo. Voltemos a ele em outra oportunidade. Por ora, se quiser, compartilhe comigo também sua contribuição, suas lembranças. Ah, mas antes de deixar o meu "inté", deixo o conselho de outra avozinha simpática que conheço:

- Boa romaria faz quem na sua casa fica em paz!

(Referências: 
CASCUDO, Luís da Câmara. Locuções tradicionais no Brasil. Ed. Universidade de São Paulo, 1986.
MOTA, Leonardo. Adagiário brasileiro. Ed. Universidade de São Paulo, 1987.)


Marisa Maia tira "Do Baú" memórias e preciosidades, oralidade e tradição popular -
elementos influenciadores na produção literária e no nosso modo de ler... o mundo.


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Destaques

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