Os Americanos que vieram do céu


Embora o Brasil se declarasse neutro — mesmo governado por simpatizantes do regime fascista — acabou obrigado a entrar na Segunda Grande Guerra ao lado dos Aliados, após o torpedeamento de diversos navios mercantes brasileiros e forte pressão popular. Por essa época, correu a notícia escabrosa de que o governo iria recrutar todos os jovens solteiros na faixa de 18 a 25 anos para lutar em uma força expedicionária — seriam ao todo cerca de 100 mil — e todos que puderam casaram-se (mesmo que falsamente) ou fugiram. E foi isso que eu e meu irmão fizemos.
Éramos uma família de três irmãos. Meu pai era comerciante e minha mãe a típica senhora de classe média submissa. Frequentava chás de senhoras, saraus, e preocupava-se com a escalada da violência no país, sem, no entanto, manifestar suas opiniões com maior vigor, por medo de meu pai. Meu irmão mais velho morrera aos 16 anos, vítima de tuberculose, apesar de ter sido enviado às terras frias da serra fluminense para se tratar. Não durou mais que dois anos em Friburgo. Restamos apenas eu e Carlos Antônio. E meu pai já estava traumatizado com esse negócio de perder filho.
Assim que a informação chegou aos ouvidos dele, trancou-nos em casa, chamou minha mãe, e sentados à mesa, com a velha senhora debulhando-se em lágrimas, nos intimou:
— Arrumem suas coisas, vocês vão para Friburgo... — Disse, antes de sentar-se à mesa, apontando o dedo em riste para nós. Levantei-me de súbito, desafiando tudo que um modelo de família patriarcal impunha.
— Se alguém for, que seja o Toninho, eu não vou. Quero ficar e lutar!
— Moleque atrevido! Sou eu quem manda nessa casa! Vocês dois vão e pronto! — Esbravejou ele, arrepiando seus bigodes manchados de nicotina. Treze anos depois morreu de enfisema; dava pena vê-lo com os olhos estufados e uma imensa necessidade de respirar que seu corpo não atendia.
— Eu também não vou! Jamais deixarei a Adelaide! Ademais, basta que eu case, e não haverá como eu ser recrutado! — Disse ele, contrariando, por outro lado, sua própria natureza. Geralmente os irmãos mais velhos acatavam qualquer ordem do pai — ele era o do meio, assumindo essa condição após a morte de Umbelino. Mas pelo amor a uma mulher, enfrentara nosso pai. Quanta bobagem a gente faz pelo amor a uma mulher!
— Já basta! Calem-se! Não os estou consultando, estou determinando! Vocês vão para Friburgo, para a casa de meu tio Alencar, e só retornarão quando a guerra acabar. Estão me entendendo?
Antônio chorava em silêncio, e eu, com as faces em brasa, bufava encolerizado como um touro. Não houve como enfrentarmos nosso pai. Eu queria lutar, ele queria amar. Minha mãe apenas chorava, não disse uma só palavra naquela reunião. Ouvi sua voz apenas antes de deitar-me, quando pedi sua benção, e no dia seguinte, quando nos despedimos em direção a serra.

***

A viagem foi extremamente cansativa e demorada. Meu irmão ressentia-se de que nosso pai não havia deixado sequer que ele se despedisse de Adelaide, uma moça franzina de longos cabelos negros. De Niterói até Friburgo o trem fez diversas paradas, quando a composição era dividida. A subida era íngreme e a força que a máquina fazia para subir era ensurdecedora, melhor manter as janelas fechadas. Até porque era possível queimar-se com os restos de carvão em brasa que a chaminé expulsava.
Na estação, tio Alencar nos aguardava com dois serviçais, que nos ajudaram no desembarque de nossas malas. Era um senhor de uns sessenta e poucos anos, bastante simpático e corpulento. Tinha o canto direito da boca torto, devido a um derrame que sofrera a uns cinco anos, que lhe tirara, inclusive, parte dos movimentos deste lado do corpo. A restrição não o impedia, entretanto, de lidar na roça com seus filhos, Vicente e João Henrique, dois brutamontes de trinta e cinco ou quarenta anos. Tinha ainda mais duas filhas: Maria do Socorro e Maria do Rosário, esta última, solteira, contando com vinte e cinco anos quando da nossa chegada.
A propriedade de meu tio era um sítio de uns vinte e poucos hectares, tinha um pequeno córrego e um lago artificial onde se criavam trutas. Plantava-se inhame, tomate e abóbora, espécies domesticadas após o café cultivado ter sido atacado por uma praga fulminante. Além disso, havia uma ceva com um casal de porcos e dois leitões de três meses, um galinheiro com uma quantidade razoável de galinhas, quatro vacas, dois bezerros e um boi, que produziam para consumo próprio e venda. Havia ainda alguns cavalos para transporte de pessoal e carga.
Embora estivéssemos profundamente contrariados, adaptamo-nos bem. Correspondíamo-nos com nossos pais com frequência por meio de cartas e o Toninho com a Adelaide, até que estas cartas foram ficando cada vez mais raras, ao contrário dos passeios que ele fazia com a Rosário. Pois é, o safado, que enfrentara nosso pai por causa do amor a uma mulher, aparentemente já a havia esquecido por outra.
Quanta bobagem a gente faz pelo amor a uma mulher!
Nossa prima era uma pequena adorável mesmo. Tinha um par de olhos verdes que ganhavam um tom belíssimo ao sol de verão, as faces rosadas e cabelos caramelo, na altura dos ombros. Não era difícil se apaixonar por ela...
Nosso tio parecia um sujeito moderno e não estava nem aí para os dois. Socorro já estava praticamente casada, e seus outros dois filhos já o estavam há bem mais tempo, tendo filhos crescidos, inclusive. Tio Alencar era um homem visionário, muito à frente de seu tempo. As notícias da guerra na Europa chegavam pelo rádio.
A eletricidade ainda não tinha alcançado seu potencial naquela época, de modo que era fornecida para aquela região por um gerador, que era desligado às vinte e duas horas. Assim, todos nos reuníamos em uma grande calçada ao redor da casa grande e à luz de lamparinas de querosene, após as dez horas, ficávamos contando histórias, até altas horas. Nosso tio não. Ficava trancado em seu quarto de experimentos, operando algo semelhante a um rádio, tentando se comunicar com algo, ou alguém. Acredito que nem ele sabia ao certo. O aparelho funcionava com um gerador que ele comprara somente para isso. Certa vez fiquei curioso, e com sua permissão, acompanhei aquele momento fantástico.
— Posso entrar, tio? — Perguntei ao bater na porta do pequeno quarto.
— Entra filho, entra... — Disse ele, completamente compenetrado.
— Desculpe, eu sei que não é da minha conta, mas o senhor poderia me explicar o que faz aqui? — Perguntei um tanto acanhado, não sabia qual seria sua reação.
— Primeiro prometa que não vai fazer troça. — Disse ele, ainda mexendo no dial do aparelho e em outros botões.
— Prometo. — Respondi mecanicamente. O quarto era iluminado também por uma lamparina,  que tornava o ambiente igualmente sombrio e interessante.
— Quando você chegou aqui pôde reparar que, para onde quer que olhasse, havia apenas mato e mais mato, até a linha do horizonte.
— Sim...
— Me diga: tem dúvida de que além do horizonte existam outros como nós? — Perguntou, virando-se para mim. Sua voz era um tanto embargada, por conta do derrame.
— Ora, mas é claro que não! Sei muito bem que há outros homens aqui e em outras cidades. Por que está me...
— Agora escute: Você já olhou para o céu e viu a quantidade de estrelas que existem lá? Sabe também que o sol é uma estrela e nove planetas circulam em volta dele, não é mesmo? Imagine que para cada estrela que há no céu existam nove planetas girando em volta. Acredita que possa haver humanos, acredita, quero dizer, que há vida inteligente em algum desses planetas?
— Ora... Deus criou céus e Terra, formou os homens à sua imagem e semelhança… definitivamente, não se pode dizer isso… — Respondi com dificuldade.
— E por que não? Por que está escrito em um livro compilado pela própria Igreja? Por que não podemos vê-los? Você também não vê homens quando olha para o horizonte, e sabe que eles estão lá.
— Mas isso é diferente, eu já vi os homens de lá.
— Contudo, Colombo olhava para o mar e não sabia se havia homens em outras terras além do mar, mas sabia que eles existiam na Europa. Ora, se eles existiam lá, por que não haveria outras terras além do Atlântico com outros tantos homens? E ele acreditou e encontrou as outras terras e os outros homens. Vê diferença entre a América e os outros planetas?
— É... não... — Respondi, com mais dificuldade ainda. O fato de tio Alencar ser um homem idoso e do campo não fazia dele um homem menos inteligente que os urbanos. E tinha tanta eloquência quanto um político.
— É isso que eu faço, filho. Com este pequeno aparelho, e aquele artefato de bambu e uma haste de ferro na ponta que está içado no quintal, tento me comunicar com os outros homens daquela América lá de cima. — Disse ele, apontando o dedo para o céu. — Já que não tenho como meter-me em uma caravela e voar até o próximo planeta, é o único meio de fazer contato com eles, que provavelmente estão fazendo o mesmo.
— Entendo. — Respondi boquiaberto. Sua explicação era tão fantástica quanto aquilo estar sendo realizado em uma cidadezinha do interior do Brasil.
— Quer me acompanhar? — Disse ele, voltando-se para o aparelho novamente.
— Não tio, fica para outra ocasião. — Eu disse, reabrindo a porta.
— Como quiser, Tomás. Se desejar voltar, a porta estará destrancada, não se preocupe. Você é bem vindo! — Disse ele, e voltou a falar pausadamente no microfone do aparelho. — Planeta Terra, terceiro na ordem do sol, sistema solar da Via Láctea, câmbio?
Bati a porta e saí sem poder acreditar no que havia escutado.
***
Passava das duas da manhã e todos já tinham se recolhido. Apenas eu estava lá fora, iluminado por uma lua minguante, bem fina, debruçado sobre o guarda corpo da varanda. Aquela história tinha me impressionado muito, muito mesmo. Será possível haver outros lá? No entanto, eu não acreditava. Na verdade, eu não acreditava mesmo em muita coisa. Há aqueles que acreditam em Deus, outros em extraterrestres, no amor ou na loteria. E há aqueles que não acreditam em nada disso.
Olhava o céu, absorto em minhas divagações, quando senti alguém se aproximar. Era Maria do Rosário.
— O que faz aqui, a essa hora? — Perguntei, num sobressalto. Estava vestida com uma roupa simples de dormir, agasalhada por uma blusa de lã; seus cabelos caramelos, revoltos e atraentes. Eu seria capaz de jurar que podia sentir o cheiro de sua pele...
— Fiquei sem sono. Também o perdeu? — Disse ela docemente, no momento em que também debruçava no beiral da varanda, encostando seu ombro quente ao meu.
— É... estava pensando aqui...
— É esse o seu problema. Você pensa muito.
— Como é? — Perguntei atônito, virando-me para ela. Por que diabos ela estava dizendo isso?
— Você pensa muito. — Repetiu ela, virando-se para mim também, aproximando seu corpo ao meu. Nossas respirações condensavam no ar frio e úmido da serra, iluminados por aquela lua magnífica, que mais parecia um sorriso no negrume da noite.
— Não a entendo.
— Ah, entende sim. Nunca percebeu meus olhares? O toque de minha mão? Por que não agiu? Eu sempre quis você! —  Sussurrou ela ao aproximar o rosto ao meu, na ponta dos pés, e me beijou. Foi um beijo quente, molhado e que até hoje mexe comigo. Mordiscou o meu lábio inferior levemente ao final.
— Mas e o Carlos Antônio? — Perguntei, confuso.
— Eu sempre te amei, seu bocó! Comecei a passear com ele somente para te fazer ciúmes, mas como você não parecia se importar, você sabe, já tenho vinte e cinco anos, estou velha, não quero “ficar para titia”.
— Eu não sei, acho que não devemos... Ele vai me matar!
— Mas nos amamos!
— Sim, eu te amo! — Disse, sem acreditar que havia dito isso.
— Então fica comigo! Se você me assumir, eu largo ele “na hora”! Amanhã contamos tudo a papai, ele vai entender...
Imaginava a reação do Toninho, do tio, de seus irmãos, de meu pai... Merda! O que iria acontecer? Ela estava certa, eu penso demais. Quem se apaixona perde essa possibilidade, faz tudo sem pensar. E eu queria me apaixonar por Rosário.
Agarrei-a pela cintura, puxando seu quadril para mim, e a beijei. Pude ouvir um pequeno gemido de prazer, o mesmo que eu sentia. Decidimos que falaríamos com o tio Alencar na manhã seguinte, ela me beijou novamente e foi para seu quarto, antes que alguém a descobrisse ali comigo.
Continuei observando a noite. Maria do Rosário acreditava no amor. E no que eu acreditava? Deus? Amor? Loteria? Tudo bem, houve a Paulínia, aquela mocinha dos cabelos acinzentados, filha do sócio de meu pai. Contudo, ela estava em mim e eu não estava nela. Agora a Rosário. Ela estava em mim, será que eu estava realmente nela? Ainda não tinha certeza...
Talvez a vontade de lutar na guerra fosse a busca em algo para acreditar, algo que me fizesse sentir completo. Neste exato momento havia homens morrendo na Europa por uma causa comum. Talvez não fosse justa, mas era comum. E seus filhos e mulheres amargurariam sua ausência por toda a vida.
Todavia, algo me distraiu. A uns dois quilômetros de distância, e alguns tantos do chão, uma grande bola de fogo descia em alta velocidade do céu num som rascante, parecendo arrastar consigo todas as estrelas pelo caminho. Caiu sobre um morro nas terras de meu tio, abafadamente, mas consegui ouvir o som de algumas árvores caindo junto com o objeto.
— Cristo Jesus! — Exclamei em voz contida, e quando dei por mim, já estava a caminho do lugar.
A propriedade de meu tio era composta de áreas de pasto, pomares e uma área de mata nativa que circundava todo o sítio, além de “ilhas” de vegetação em diversos pontos. Foi numa dessas ilhas que a bola incandescente caiu.
Eu já estava no terreno, tentando abrir caminho entre os cipós e arbustos fechados com as próprias mãos, visto que não havia trazido comigo nenhum tipo de ferramenta. Avançava com dificuldade, estava suado e ofegante e acredito ter levado em torno de uma hora para chegar até o ponto em que havia caído o tal objeto, guiado pelo som das árvores que queimavam em brasa. Uma clareira havia sido aberta e o solo, num raio de cinco metros em torno “daquilo”, estava enegrecido, como se tomado por uma fuligem estranha. Aproximei-me lentamente e vi algo aterrador: uma espécie de pedra amolecida, semelhante a um casulo semiaberto, e de seu interior minava um líquido viscoso e vermelho vivo, parecido com sangue, formando uma poça sob a célula na súbita cratera.
Tive então a impressão de estar acompanhado, o que me provocou um frio intenso e um temor repentino. Pude perceber um rosnado que aumentava de intensidade lentamente, parecendo se aproximar de mim. Antes que tivesse a oportunidade de escapar dali, minhas pernas foram envolvidas por tentáculos pegajosos e quentes, que me puxaram com vigor, derrubando-me ao chão, ao qual tentei agarrar-me com todas as forças, emitindo um grito sufocado que se misturava ao som da vegetação queimando, que estalava, e os grunhidos da criatura.
Enquanto era puxado, fui virado de costas e pude vê-lo. Era uma espécie de humanoide, agachado feito uma aranha na iminência do bote. De corpo avermelhado, sua cabeça era ovalada, em sua face não havia olho algum. Da altura de suas costelas saíam os tentáculos, dois de cada lado, seus membros pareciam ter a mesma medida dos tentáculos, os posteriores pareciam tão grandes quanto. A boca era incrivelmente grande e assustadora, que aberta num esgar de sorriso, ostentava dois caninos enormes.
Gritei a plenos pulmões, entretanto, meus gritos pareciam inflamar mais ainda a fera, que me puxava para si com mais força ainda. Quando perdi minhas esperanças de sobreviver, eis que um feixe de luz branca cruzou o espaço entre mim e o monstro, que soltou minhas pernas e afastou-se em movimentos rápidos. O que vi a seguir deixou-me igualmente escandalizado: a uns dez passos largos de nós encontrava-se algo em formato humano, coberto por uma carapaça metálica de cor esverdeada, intercalada por um material mais maleável nas juntas. Um elmo do mesmo material cobria sua cabeça, tendo à frente uma faixa que corria de um extremo a outro.
Os dois se olharam em permanente ameaça por alguns segundos. A criatura, arqueou ainda mais o corpo, tendo os tentáculos erguidos em posição de ataque e a boca aberta, rosnando enquanto a saliva escorria pelo queixo; o outro apenas o acompanhava, apontando seu pulso esquerdo para o súbito inimigo. Repentinamente ele proferiu algo incompreensível e o monstro rosnou mais agressivamente, recuando lentamente. O homem metálico, que media algo em torno de três metros, disparou mais um feixe de luz, acertando em cheio a cabeça da criatura, que explodiu em uma gosma avermelhada, densa e pegajosa. Ainda estava distraído pelo espetáculo, caído ofegante ao chão, quando o metálico volveu o olhar para mim e se aproximou, para meu completo desespero.
— Yu-sjik lev mirrk-h? — Emitiu ele, parecendo estar dizendo alguma coisa, com um timbre agudo e desafinado. Ficou alguns segundos me observando, como se aguardasse uma resposta, mas minha única reação foi recuar cada vez mais.
— Por favor, não me machuque! — Disse, amedrontado, levando a cabo meu recuo. Ele pôs a mão à têmpora direita, pareceu-me que pressionava um botão.
— Está como você? — Perguntou-me dessa vez, tombando a cabeça de lado, feito um cachorro, ainda com um timbre discretamente eletrônico.
— Estou... estou confuso! — Respondi, ao segurar minha cabeça com ambas as mãos e fechar os olhos fortemente. — O que está acontecendo? O que era aquilo? Quem é você?
O metálico pressionou novamente a têmpora e seu elmo levantou uma tampa que lhe descobrira o rosto por completo. E ele tinha a aparência humana...
— Tranquilo fique, estou aqui para proteger. Deve você se abrigar o mais breve possível, aqui fora se tornará perigoso demais para sua raça.
— Por favor, se há uma explicação, dê-me agora!
— Tempo a perder não há com frivolidades. Deve você ir para seu abrigo. — Disse ele correndo o olhar em volta.
— Frivolidade? Uma criatura cai do céu dentro de uma pedra, me ataca e você chama isso de frivolidade?
— Ser breve tentarei. Meu nome é Kzxü. Um soldado imunológico sou. Trilhões de nós existem em todo o universo. Os vírus rastreamos e os seguimos, até exterminá-los.
— Então aquilo...
— Um vírus é. Em seu encalço estou, há quase dois séculos de sua raça, humano. Um Hasgämir ele é, um vírus letal que vem atacando os planetas de todos os sistemas. Nós, os imunológicos, uma batalha quase infindável travamos com estes seres, desde que foram descobertos. O planeta atacado consomem, até não restar mais nada para ser devorado. Pelas galáxias viajam, protegidos por uma crisálida, que se rompe com o impacto ao solo, como você mesmo pode ver.
— Mas eles se alimentam de quê? — Perguntei atônito. Eu devia ter bebido muito conhaque.
— De tudo. Primeiro os animais, depois todo o resto que é vivo. Quando não houver mais nada, devoram-se uns aos outros. A maior dificuldade que encontramos é que ele sofre mutações muito rapidamente, atrapalhando nossa detecção. O DNA das espécies atacadas acaba se misturado com o dele, e assim, ele incorpora características de diversas raças, de diversos planetas. Estudos recentes confirmaram que eles incorporam, inclusive, as lembranças de suas vítimas, o que os tornam ainda mais perigosos.
— Não pode ser possível!
— Isto tome. Se algo acontecer, este botão pressione. — Disse o metálico ao me entregar um bastão que parecia ser feito do mesmo material que sua armadura, com um botão em uma das extremidades que emitia um sinal vermelho.
— E o que é isto? — perguntei.
— Um esterilizador. Um recurso último. Só aperte o botão em caso de extrema necessidade.
— Como vou saber o momento?
— Só aperte o botão em caso de extrema necessidade. — Repetiu. —  Não haverá outra chance. Agora vá... — Concluiu ele, e foi neste exato momento que outra criatura saltou sobre ele, caindo ambos ao chão. O rosto de Kzxü sofreu uma interferência, como se fosse a imagem de uma televisão, algo que só vim a conhecer algumas décadas depois. Aquele rosto humanoide se transfigurou em uma face achatada verticalmente, com grandes olhos verdes brilhantes, que ocupavam quase que totalmente seu rosto. Não possuía boca, mas diminutos tentáculos que desciam até a altura do queixo, se este existisse.
Virei minhas costas àquela luta e encontrei meu tio, que caminhava com dificuldade. Seu rosto era um misto de estupefação e felicidade. Agora ele tinha certeza que os “americanos” existiam.
— Vamos sair daqui, tio! — Aconselhei ao passar correndo por ele, mas ele pareceu não me ouvir, e uma terceira criatura subitamente atingiu-o, arrancando sua cabeça com um só golpe.
Cristo Senhor! Meu tio estava morto e era isso que iria acontecer a todos nós! Corri o máximo que pude, mas era humanamente impossível correr mais, mesmo temendo que o monstro me alcançasse. Desabei, ofegante e sem forças. Outra vez esperei pela morte, quando algo me surpreendeu: caído ao chão úmido, estava um corpo semimumificado. Arrastei-me até ele, recolhi um galho com minhas mãos trêmulas e usei-o para virar aquele corpo. Era Carlos Antônio. Em suas carnes — ou o que restara delas — não havia o menor sinal de sangue; ele estava encolhido em posição fetal, como se sentisse frio, completamente rígido.
Assustei-me. As lágrimas vieram à tona rapidamente. Levantei-me com dificuldades e voltei a correr, com as forças que me sobraram. Havia em meu encalço um som de folhas e galhos estalando, que rapidamente se aproximava. Provavelmente, agora, havia mais daquelas criaturas em toda àquela área. Antes de prosseguir, porém, lembrei-me do artefato que me foi presenteado por Kzxü, e decidi apertar o botão do esterilizador: não havia a menor dúvida que este era o momento certo. Quantas outras vítimas eu esperaria para tomar essa decisão?
Acionei o esterilizador e, este, vibrando, emitia um bipe cada vez mais rápido. Atirei-o na direção de onde vim e corri o mais depressa que pude. Ao virar-me para trás, pude ver um Hasgämir que se aproximava aos saltos. Em seguida, uma explosão surda abriu um clarão e me atirou a uma distância que não pude calcular.

***

Acordei após três dias. Eu tinha flashes daquela noite o tempo inteiro, era como se estivesse preso em um pesadelo terrível, que parecia não acabar jamais. Eu via meu tio sendo decapitado, meu irmão morto e as terríveis criaturas, além do metálico. Um rosto conhecido se tornava cada vez mais claro para mim. Maria do Rosário...
— Então, como você está? — Disse ela, afagando meu rosto suavemente. Exibia um sorriso espetacular, como nenhum outro que conheci.
— Uma explosão... incêndio... o tio... Carlos Antônio... — Respondi, entre lágrimas.
— Shiu! Não diga nada... Você deve estar muito fraco. — Disse ela, pondo o dedo em riste sobre minha boca. — Vou providenciar uma sopa para que você se restabeleça o quanto antes.
— Mas... - Tentei intervir, sendo novamente interrompido por Rosário. Foi aí que me tornei mais confuso ainda: entrava pelo quarto naquele momento, ninguém mais, ninguém menos que Carlos Antônio.
— Acalme-se, por favor! - Disse ela. Toninho apenas me observava, encostado ao portal. Seu olhar era sério e enigmático, um olhar que eu já tinha presenciado e que me dava arrepios...
— Houve um incêndio na mata. Você, Toninho e papai foram para lá. Papai se perdeu no meio das chamas junto com você, mas o Toninho te resgatou. Ainda não conseguimos encontrar o corpo do papai... - Disse ela, após um breve intervalo. Seus olhos estavam marejados e falava com dificuldade.
— Tudo vai dar certo, Tomás, você vai ver... - Disse meu irmão pela primeira vez, de uma forma sombria e reticente.
Mas o que acontecera naquela noite? Eu mesmo tinha visto o corpo de Carlos Antônio, era impossível eu ter me enganado. Lembrei-me do que o Kzxü havia dito, sobre como os Hasgämir poderiam absorver o DNA de suas presas, incorporando inclusive suas memórias. Essa ideia então tornou-se uma fixação: Carlos Antônio era um Hasgämir com uma aparência humana. Eu tinha certeza disso. Ele mesmo talvez não soubesse, mas era ele. Isso explicava seu olhar. Procurei manter a calma e me restabelecer o mais breve possível para esclarecer esse incidente.

***

A notícia de que os japoneses haviam atacado de forma fulminante uma base americana no Pacífico veio pelo rádio, mais precisamente, pelo Repórter Esso. Isso tornaria as coisas cada vez piores na guerra e mudaria o rumo da história para sempre. Eu me recuperava bem, mas estava cada vez mais carrancudo e envolvido pela minha obsessão em confirmar o evento alienígena que acontecera naquele sítio.
Fazíamos as refeições numa grande mesa de madeira amarelada e um tanto surrada. Essas ocasiões, que antes eram momento de descontração, agora aconteciam no mais completo silêncio, fruto da ausência do tio Alencar, e de uma desconfiança crescente de meu envolvimento com Rosário. Eu e ela não conseguimos assumir nosso caso e nos encontrávamos cada vez menos. Carlos Antônio exercia uma marcação cerradíssima, de modo que eu e ela mantíamos-nos unidos apenas pelo olhar.
Escrevi uma carta para meu pai tentando relatar da melhor maneira possível os fatos ocorridos. Evidentemente, eu não disse nada sobre o contato de terceiro e quinto graus e sobre a morte de Toninho. A história contada foi exatamente a versão que todos conheciam: um grande incêndio na propriedade do tio Alencar, com sua consequente morte, e a salvação pelas mãos de meu “irmão”. Informei a ele também que Carlos Antônio estava bastante estranho depois do fato ocorrido, parecendo perturbado pelos eventos, e isso era uma grande verdade. Adverti-o, porém, de que não viesse à Friburgo, visto que as forças federais poderiam descobrir nosso paradeiro e enviar-nos à guerra. E é claro, ele não veio. Respondeu com outra missiva, lamentando a morte do tio e intimando-me a ficar de olho em Toninho. De fato, eu ficaria.
Passei a operar todas as noites a máquina que meu tio criara. Eu havia me mudado completamente para aquele quarto, não dormia mais no mesmo cômodo em que meu irmão. Eu e ele quase não nos falávamos, e quando isso acontecia, ele respondia monossilabicamente. E isso aumentava ainda mais as minhas suspeitas. “Kzxü, Yu-sjik lev mirrk-h?”, eu repetia, esperando alguma resposta. Ela nunca veio.
Numa dessas ocasiões, cerca de um mês depois do ocorrido, eu estava novamente enfurnado naquele quarto quando bateram à porta.
— Posso entrar, Tomás? — Disse Rosário, deixando a madeira entreaberta.
— Oh! Mas é claro! — Respondi, desconcertado. Parecia assustada e desconfiada; com certeza, deveria ter vindo sorrateiramente.
— O que há com o Toninho? Ele está cada vez mais estranho!
— Do que você está falando? — Perguntei, somente para ver o que ela diria, voltando meu olhar novamente para a máquina.
— Corrijo-me: vocês dois estão estranhos! Desde o dia do incêndio, parecem que estão em outro mundo, não se falam direito, parecem, que estão a ponto de entrar em guerra! — Disse, voltando a conter o tom de voz ao perceber que poderiam escutá-la.
— Ocorreu a você que ele pode ter nos visto? Ocorreu a você que tenho ciúmes? — Disse, virando-me para ela outra vez. Eu tinha?
Houve silêncio por um momento. Encostada à porta, com as mãos para trás, a doce menina teve seus olhos cada vez mais cheios de lágrimas, até que elas desabaram, dando à sua boca um gosto amargo de mar. Levantei-me e fui até ela — detesto ver mulheres chorando — e abracei-a.
— Eu não aguento mais, não aguento! — Sussurrou ela.
— Eu também não, minha querida. Preciso de você cada vez mais!
— Você não entende... — Disse ela, e saiu. Tentei impedi-la, mas eu não podia chamá-la, ou então acabaria alertando os outros. Então decidi enfrentar Toninho no dia seguinte. A vida, contudo, sempre nos prega peças. Quando ia entrar no quarto, uma mão fria toca meu ombro. Pensei ser Rosário, mas a mão era pesada demais.
— Ei, não vá ainda...
— Toninho... — Disse, assustado. Não esperava que ele se dirigisse a mim. Ele teria visto eu e Rosário?
— Não tenho gostado de como você e Rosário se olham. — Repreendeu-me de forma sombria. Seus movimentos eram estranhos, espasmódicos, como se seu corpo estivesse sendo atacado por diminutas descargas elétricas.
— Você não tem do que gostar ou não gostar. E deixe-me em paz! — Respondi, desvencilhando-me dele, buscando a porta novamente. Outra vez, entretanto, fui impedido.
— Faça-me o favor — disse. Desta vez, sua voz tinha um ruído agudo, que gelou meu sangue dos pés à cabeça, paralisando-me completamente. — Afaste-se dela, para o seu próprio bem, pelo que ainda há de mim, em mim... — Disse, e então, já desperto do torpor que me dominou por alguns segundos, entrei no quarto e tranquei-me. Ao fim e ao cabo, ele sabia que já não era mais ele, mas sim, a criatura.

***

O dia seguinte — um sábado do quarto da lua cheia — nos trouxe informações que fez estremecer os corações mais fortes: os animais da propriedade estavam aparecendo mortos, os corpos incrivelmente dilacerados por alguma coisa. Surgiram diversas hipóteses: a de uma onça — ou mais de uma, e, devido à presença da lua cheia, a de um lobisomem. Mas somente eu sabia quem estava fazendo aquilo. E essa noite tudo iria acabar.
Após todos terem se deitado, peguei uma espingarda cartucheira antiga, herança de meu tio Alencar, que eu havia descoberto, pouco tempo depois de sua morte, sobre o armário que ficava no quartinho de experimentos. Inspecionei-a, limpei-a e municiei. A criatura não passava de hoje.
Caminhei furtivamente até uma árvore próxima ao curral, a cerca de oitocentos metros da casa grande. Subi nela, do lado em que o luar não me denunciaria, e esperei. Em um cochilo, quase caí da grande mangueira e a adrenalina me fez acordar novamente. Ele não veio essa noite, e nem na seguinte, e, dessa forma, continuei minha sina por dias. Numa dessas ocasiões, fui surpreendido por Rosário na varanda da casa, próximo ao quartinho..
— O que anda tramando, Tomás? — Sussurrou ela.
— Não é de sua conta... — Respondi, ignorando-a. Eu não podia envolvê-la nisso e ela não deveria ter me visto, não deveria mesmo.
— Cuidado com o que vai fazer. Pense bem. — Disse ela, parada no mesmo lugar, com os braços cruzados. Seus cabelos caramelos caíam sobre o ombro esquerdo.
— O que pensa afinal que estou fazendo?
— Tome cuidado. Minhas regras estão atrasadas. — Disse ela, e se foi.
Cristo! O que eu faria agora? Eu bem podia ser pai dessa criança, assim como meu irmão, entretanto, ela jamais confirmou isso, e eu também não me interessei mais por este assunto. Não poderia desistir de meu intento, porém. Continuei minha jornada até a chegada da lua azul, que é como chamam quando ocorre um segundo quarto de lua cheia no mesmo mês.
Eu já estava experiente pelas minhas últimas tentativas e não cochilei dessa vez. Já contava duas horas que minha vigília havia começado, quando o avistei no meio de um campo aberto. Vinha caminhando sobre seus dois pés, mas a alguns metros de onde estavam os animais, agachou-se lentamente, ficando sobre os quatro membros, exatamente como os Hasgämir. Daquela distância eu não erraria, e nem mesmo hesitaria, pois sabia que não era meu irmão, mas sim, aquele monstro maligno que tomara suas feições. Seria por tio Alencar, por Rosário e por todas as vítimas que ele faria. Mas o que eu diria a meu pai? Fechei os olhos; eu pensava demais, exatamente como a própria Rosário havia dito. E eu não deveria pensar mais, esse momento já havia passado.
Empunhei a arma, decidido, e cheguei meu corpo mais para frente do galho, a fim de melhorar minha visão. O galho escolhido por mim, entretanto, estava fraco e não resistiu ao meu peso. Quebrou após um grande estalo, levando-me junto para o chão. Meu dedo já estava no gatilho, e a queda fez-me apertá-lo; o tirou ecoou na mata, alertando todos os animais, inclusive a criatura.
Sentei-me um tanto desorientado, tentando municiar novamente a arma, com minhas mãos trêmulas, procurando pelo meu alvo, que a essa altura já havia desaparecido. O Hasgämir surgiu então, subitamente, num salto à minha frente. Estava agachado sobre os quatro membros, os olhos eram apenas uma conjuntiva, não havia íris. Sua face estava completamente desfigurada, a boca arreganhada, a saliva escorrendo abundantemente. Seus grunhidos eram pavorosos, e eu tentava desesperadamente safar a arma a fim de acabar logo com aquilo, mas ele estava cada vez mais próximo, e percebi que seria o meu fim. Fechei os olhos esperando pelo pior, quando mais dois tiros ecoaram na mata, e a criatura grunhiu como um porco sendo abatido.
Abri meus olhos e vi o monstro contorcendo-se ao chão, corri meu olhar procurando seu algoz, e encontrei Rosário de pé, a alguns metros à minha direita. Seu braço ainda empunhava a garrucha na direção do Hasgämir. Estava feito, a criatura havia sido descoberta e morta. Não era um lobisomem, enfim, disseram os outros quando chegaram.

***

Meus pais nunca souberam o motivo real da morte de Toninho. Para eles, seu filho morrera num acidente com uma arma, enquanto caçava conosco naquela noite. Acho que sua morte só fez acelerar o câncer que tomava o corpo de meu pai, a tristeza sempre faz isso. Eu jamais voltei para Niterói. Casei-me com Rosário dois meses depois, ela realmente estava grávida e o casamento silenciava as línguas mais ferozes. E minha vida hoje tem sentido, eu acredito no amor, na loteria, em Deus e nos americanos. Não aqueles descobertos por Colombo do outro lado do Atlântico, nem os que vomitaram bombas atômicas em um país do outro lado do mundo, mas aqueles, os americanos que vieram do céu.

George dos Santos Pacheco
pacheconetuno@oi.com.br

*Conto publicado na quinta edição da Revista Trasgo (dezembro de 2014).

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