Do Baú: Yes, nós temos Saci!


 Sabem, no ano passado eu conheci uma sacióloga: Margareth Marinho.

Foi durante a cerimônia de entrega do Prêmio Ricardo Oiticica, nas dependências da PUC Rio. O prêmio visando, dentre outros objetivos, valorizar a promoção de leitura e a formação de mediadores, reuniu vários batalhadores apaixonados pela formação de leitores. Estávamos lá, eu e Margareth, sendo contempladas com o segundo e o primeiro lugar pela categoria "oralidade". Eu, curiosíssima para conhecer o projeto premiado - "Caçada ao Saci" - busquei saber mais sobre esse trem, uai!
Eu, ao lado de Francisco Gregório (mestre contador de histórias) 
da sacióloga Margareth Marinho, 
na cerimônia de entrega do Prêmio Ricardo Oiticica. 

Fiquei sabendo que essa moda surgiu em 2012, para a Semana Monteiro Lobato, quando a Margareth ficou matutando um jeito de inovar a apresentação da obra desse autor: 


"Refleti sobre minha contação de história sobre o Saci e, de repente, pensei por que não fazer uma caçada para pegá-lo?" - ela teve uma alumiação! 


"A primeira edição foi bem diferente, pois foi diurna e coloquei um boneco Saci no alto de uma árvore enorme – precisei chamar os Bombeiros para colocarem – e foram 120 crianças inscritas, divididas em 5 grupos de caçadores, com as faces coloridas e tudo mais. Mas a caçada diurna não dá pra pegar o Saci de verdade, como na noturna. Ele é da noite. Não se deixa pegar durante o dia. Depois dessa primeira, vi que dava pra fazer noturna. E já estamos na 4ª Temporada de Caça ao Saci."

A ideia foi aprimorada e gerou parcerias: entre a Biblioteca Municipal Murilo Mendes e o Museu Mariano Procópio. Além da sacióloga, o projeto envolve uma boa equipe de profissionais: monitores que ajudam na caminhada com as crianças, a diretora da Biblioteca (Gerda Juliana Machado), uma assistente da sacióloga (Thaís Pifano), o Saci (Adelino Benedito), a caipora, o barqueiro, o diretor (Douglas Fazolato) e uma supervisora do Museu, (Aline Vianna).

É feita uma programação anual, definindo datas e quantidades. Para este ano estão previstas sete caçadas (parece conta de mentiroso, mas a primeira  já aconteceu no dia 18 de maio).

A cada caçada participam 44 crianças (6 a 11 anos) acompanhadas de um adulto e devidamente preparadas com um regulamento , o que inclui a sugestão de leituras.  No total, cada evento mobiliza cerca de cem pessoas! 

Perguntei à Margareth sobre o impacto que o Prêmio causou:

"Maior visibilidade e credibilidade ao projeto. Agora quando marcam alguma caçada logo dizem 'é um projeto premiado!'. Com certeza ajudou muito, principalmente na divulgação – a mídia se interessa mais também." 

Tudo bem, agora eu já conhecia o projeto, mas precisava saber: como é que foi que esta dedicada professora mineira se diplomou em saciologia

"Tem uns 20 anos que conto as histórias sobre o Saci. Surgiu num dia do Livro Infantil em homenagem a Monteiro Lobato, no Instituto de Educação onde eu dava aulas nas séries iniciais. Nós, professoras da escola, reuníamos as turmas no Salão Nobre e eu contava como pegava um Saci – falava primeiro do M. Lobato e do que ele ensinou sobre o Saci. Eu tinha uma garrafa pet e uma peneira de pedreiro, mas fazia uma festa para pegá-lo. Fechávamos as cortinas e na penumbra, eu dizia que tinha um redemoinho e jogava a peneira sobre ele. Com a ajuda de uma professora amiga, a Maria Lúcia R. Andrada, segurávamos a peneira – ela deitava em cima – e eu gritava pra segurar com força senão ele ia fugir. E era um escândalo. No final, as crianças queriam ver, mas ele havia escapado... A partir dessas performances fui só acrescentando e pesquisando cada vez mais. E me descobri 'sacióloga'!"

Bacana também a partilha da ideia: a turma lá de Juiz de Fora já falou que essa prática é para ser copiada, sim, multiplicada: o projeto já andou visitando até outros estados brasileiros! Quem quiser se aprofundar em saciologia deve investir na pesquisa e na leitura e, um bom lugar para visitar é o site do projeto.  Lá se pode encontrar registros escritos, fotos das caçadas... e até consultar a agenda dos eventos!

É uma brincadeira levada a sério! Talvez existam aqueles que achem tudo uma bobagem e não vejam a relação com a formação de leitores, mas ainda bem que muitos valorizam ações como esta e se sintam inspirados por ela! E me perdoem aqueles que evitam falar em nossos mitos nas escolas: para mim, "politicamente correto" (eu costumo evitar este termo) é valorizar nossas raízes, nosso folclore, nossa sabedoria entranhada nas histórias e tradições! Está lá, na apresentação do projeto, a consonância com este pensamento: 

"Trabalhar com as histórias infantis atendem à necessidade infantil de fantasia. E pela mitologia brasileira é possível dar vazão a essa fantasia, pois ela é repleta de seres curiosos, exóticos, misteriosos, medrosos, assustadores, enfim, personagens e histórias que provocam o imaginário do adulto que, um dia criança, conheceu-os e jamais os esqueceram."

Creio que cada vez mais precisamos de saciólogos que atuem também na área urbana, pois o danado do molequinho, curioso e inquieto, anda muito interessado nas novidades tecnológicas. Se seu computador anda com o funcionamento muito estranho, pode desconfiar! Ainda bem que Margareth, em seu livro "Dossiê Saci", ensina muitas coisas úteis, como por exemplo, a forma correta de pegar um:

Durante a caçada, o Saci provoca os caçadores! 
"Para pegá-lo, prepare uma peneira de cruzeta - de taquara formando uma cruz - e uma grande garrafa escura, com uma rolha de cortiça. Jogue a peneira sobre o redemoinho pois ele está ali e coloque embaixo o gargalo da garrafa. O Saci vai ficar desesperado e entrará na garrafa para se esconder. Retire-a e tampe-a com a rolha, mas o que vai mantê-lo preso ali é uma cruz que deve ser desenhada na rolha. É preciso, ainda, lembrar de tirar a carapuça dele antes de fechá-lo" 
(MARINHO, Margareth Assis. Juiz de Fora - Funalfa Edições. 2008)

Então, está esperando o quê? Boa caçada - e boas leituras também!

Marisa Maia tira "Do Baú" memórias e preciosidades, oralidade e tradição popular -
elementos influenciadores na produção literária e no nosso modo de ler... o mundo.






7 comentários:

  1. Como sempre, Marisa dizendo a que veio. Ótimo texto!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Obrigada Marlon! É um trabalho de formiguinha, mas acredito que precisamos mesmo divulgar e valorizar nossa cultura, nossas tradições.

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  2. Excelente matéria, Marisa! Parabéns! Viva a Cultura Nacional!

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  3. Oi Marisa! Tudo bem?
    Achei seu texto incrível e fiquei muito interessada nessa caçada!

    Amo essas brincadeiras que divertem e acabam ajudando a criar leitores. Esse projeto mais que mereceu ser premiado.

    Beijos e parabéns pelo texto!

    http://www.dreamsandbooks.com

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    1. Obrigada, Lorrane! Sei que você é uma pessoa muito engajada e então já fico sonhando: que tal um dia a gente ir conhecer o projeto de perto, lá em BH?

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