Café Literário: Carne da minha carne...


Era uma pedra... Meu filho, meu primeiro filho foi uma pedra. Tentamos e tentamos, não sem muito sacrifício e muitas orações, para que pudéssemos ter um filho. Menino ou menina não importava. Ambas ideias deixavam-nos contentes. Anos e anos, para no fim termos: uma pedra.

De fato havíamos desistido, estávamos, como se diz, “dando um tempo” quando as dores de minha querida Isabel começaram a lhe corroer. Estava acordado, ou quase, assistindo a TV, naquela noite chuvosa. O sinal da TV estava péssimo, eu também já estava apagando, com aquela luz pairando sobre meu corpo estirado no sofá depois de um longo dia de trabalho quando tudo aconteceu. Aquele zumbido de aparelho eletrônico ligado, que ecoa em nossos ouvidos, me fez por surdo por alguns minutos. Sem me dar conta disso, aos poucos ouvi resmungos estranhos. Procurei em meio ao zumbido constante os resmungos abafados, limpei as orelhas para tirar essa sensação de entupido, mas não funcionou. Os resmungos se tornaram berros sufocados e vinham do quarto de meu anjinho... Avancei com cuidado para quarto e a vi embolada entre os lençóis, se contorcendo, tentando desesperadamente se desgarrar de seus sonhos... Era bonitinha.

– Amor, acorde! – Chacoalhei-a.

Ela despertou rugindo contra mim, cravou suas unhas contra meus braços. Estava desorientada, disse que sentia uma dor horrível na barriga, como se tivesse engolido carvão. Sem mais nem menos, correu para a banheiro e vomitou. Esta foi a primeira noite em que tive que levá-la ao hospital. Muitas foram as noites em que presenciei minha queridinha se contorcer de dor, suas ditas blasfêmias, causadas pelo delírio de tão intensa agonia. Praguejou contra o céu e o inferno em seus pesadelos. Várias vezes acordei aterrorizado, observando-a na cama, se contorcendo de um lado para o outro em cólicas, numa poça de suor, rogando e rogando, perdida: “Socorro! Oh, socorro, meu amor, leve-me para o hospital agora! Por favor, eu não aguento mais! Amor, estou com medo... Será que eu vou morrer? Amor?”.

Desesperado, em pânico, levantava-me de cueca e chinelo e a levava com pressa para os cuidados dos bons médicos. E foi nessa mesma agonia e desgraça por muitas noites, continuando sempre a mesma coisa. Nada foi diagnosticado, temíamos pela possibilidade de algum câncer, mas nada constava... Minha mulher tomava alguns remédios, passava uns dias feliz, mas aquela estranha dor sempre acabava voltando nos piores momentos. Certas noites acarretaram em pesadelos bem interessantes, como por exemplo, da vez em que eu estava tomando um copinho de leite na cozinha e a ouvi delirar. Primeiramente achei que ela estava falando comigo, pois falava com tão calma voz que não parecia ser possível estar delirando. Calei-me feito bobo ao perceber que estava falando dormindo. Ri, obviamente por minha ingenuidade, porém o suor começou a descer minha testa ao passo em que ouvi os estranhos delírios noturnos de minha amada. Percebi que ela estava falando com alguém, alguém que eu não conhecia...

Meu cérebro desacelerou, fiquei branco, suei frio ao ouvir aquelas palavras... Aquelas palavras eram... Eram exatamente aquelas. Aquela era minha mãe falando, sim, as mesmas palavras que ela disse antes de morrer... Mas como poderia, minha mulher? Minha mulher que nunca se quer viu minha mãe em vida, recitar de cor, exatamente da mesma forma, o que mamãe havia desejado?

Seria verdade que depois anos de felicidade e esquecimento... Não... Aquela maldita recitava as mesmas pragas de ódio e maldição que mamãe invocara contra meu ser. Quando... mamãe, com seus olhos já amarelos, por vezes revirados de extrema agonia, pedia perdão aos céus por seus pecados e me amaldiçoava, rosnando feito um cão feroz. “Você não é meu filho! O diabo vem me buscar e a culpa é sua! Como pôde ó sangue do meu sangue e carne da minha carne? Amaldiçoado seja a sua carne de agora em diante, que nunca mais se faça carne sua maldade!”.

O diabo vem me buscar e a culpa é sua.

Mamãe morrera... Morrera por que nossa casa era infestada de ratos. Na semana anterior, lembro-me bem que a megera me açoitara com uma vara de árvore qualquer e.... Eu deixei o cachorro ser atropelado...

Bateu, bateu e bateu até minha carne derramar sangue, nosso sangue. Obrigou-me a ajoelhar e pedir perdão por alguma coisa. Apenas isso, pedir e pedir perdão incessantemente até que minha voz não aguentasse mais. Fiquei a tarde toda pedindo perdão naquele chão da garagem sentindo meus joelhos arderem.

 Mamãe dormia com os ratos... Aventuravam-se por seus lençóis. Eu brincava com eles, adorava aquelas pequenas criaturinhas e, toda manhã, eu as escondia numa caixa de madeira e toda noite as soltava, alimentava e brincava com elas. Era divertido ver os bichinhos correrem pelo corpo de mamãe e ela continuar dormindo despreocupada.

Mamãe adoecera de repente, não se movimentava mais da cama a ponto de fazer as necessidades ali mesmo, manchas feias cresceram por seu corpo, tinha tremedeiras constantes e alucinações. O pus de suas feridas se espalhava pela cama, onde ela pedia socorro nas madrugadas. Uma cena engraçada, mamãe realmente ficou irritada e, quanto mais ficava irritada, mais eu ria de sua cara. Seus pedidos de ajuda e pragas eram muito escandalosos... Eu era apenas uma criança! Eu não sabia o que estava acontecendo, achava engraçado vê-la irritada sem motivo nenhum! Eu gostava de tirá-la do sério. Nunca pensei que ela realmente estivesse zangada... Uma criança não sabe que a morte está presente em sua vida, nunca sabe.  Um momento a graça acabou e minha mãe veio a falecer naquela cama. Eu brinquei com os ratos.

Dizem que a benção de mãe é a mais poderosa. Bem, a maldição de mãe seria de igual potência?

Ao perceber que minha querida mulher alucinava da mesma forma, corri para acordá-la e assim livrá-la de sua angústia infernal, a qual sucumbiu minha mãe. Ao fazer isso, vomitou na cama, tentei acalmá-la. Minha querida dizia que estava morrendo, estava morrendo e estava morrendo, sobretudo dor e medo lhe açoitavam. Levei-a novamente para o hospital e, ao chegar, descobriu-se que, imaginem minha surpresa, minha esposa estava em trabalho de parto! Mas como? Que bizarrice, logo agora... Havíamos parado de tentar há um ano, só agora e sem crescimento da barriga e problemas na menstruação... Então como?

Levaram minha doce para a sala onde fariam o parto. Fiquei ao lado de minha querida, não suportava ver sua face de medo. Fiquei segurando sua mão enquanto ela soltava baforadas e gritos de dor. Ao lado dela, eu podia sentir um mal estar também se apoderar de mim e de toda aquela sala. As luzes de alguma forma me dava enjoou e me segurei ao máximo para não desmaiar quando um liquido estranho escorreu de suas pernas lambuzando o chão. Os médicos disseram que havia estourado, mas de novo, estourado o quê?! Como? Bem, os médicos continuaram incentivando minha esposa a respirar fundo e empurrar. Ela fazia isso muito bem. Meu coração batia a mil com toda aquela adrenalina, mas meu cérebro racional repudiava todo o acontecimento. Meus lábios sangraram de tanto mordê-los em espera da resposta: eu teria um filho ou não? Seria mais um desses casos que se vê na TV de mães que não sabem da gravidez até o dia crucial?

Logo mais, no frenesi, no último impulso que minha mulher deu, uma coisa começou a sair. Uma coisinha tímida ia chegando a luz, saindo bem devagar. As enfermeiras usam máscaras, mas nem isso pôde esconder a expressão em seus olhos tão comprimidos de estranheza. Aos poucos, um pequeno bloco foi deslizando de minha mulher, um bloco húmido, ensebado. Deslizou e caiu na palma da mão do médico responsável. Tinha uma cor amarelada, desgastada, pequenas deformidades e cabia exatamente na mão.

– É um cisto? Uma pedra no ovário? – Perguntou alguma enfermeira tão preocupada quanto o restante de nós.

Mas como assim uma pedra no ovário? Isso é possível? Cistos em tal local geralmente acontecem em algumas mulheres específicas, mas nada tão sério quanto aos sintomas citados por mim, não é? O que seria aquele pequeno bloco de formas desiguais que acabara de ser “parido” por minha esposa? Seria alguma doença? E o pior, será que minha mulher...

– Isto não é um cisto comum, ou uma pedra qualquer – Falou o médico. – Isso é a petrificação de um feto.  

Uma petrificação. Um processo biológico longo e extremamente raro, meu filho já havia morrido e de alguma forma não foi expulso do corpo de minha mulher. Talvez tenha sido a minha primeira tentativa de ter um filho, rejeitado pelo corpo de minha esposa por alguma razão, foi se solidificando no útero, permanecendo esquecido lá até então. Este era meu filho: uma pedra.

Esnobava, o tal médico, o frasco com a pedra em cima de sua mesa. Tinha a cara de felicidade escrota, como se meu filho fosse coisa para se rir. Ele nos explicou que esse processo é extremamente raro e que haviam poucos casos no mundo e em toda a história, no entanto, ao perguntar por que minha esposa havia passado pelo procedimento do parto inteiro, ao invés de uma cirurgia, ele deu um passo atrás.

– Bem, em todos esses meus anos de medicina, aprendi que Deus sempre oferece uma possibilidade nova, que em teoria não existe, mas que, apenas para nos contrariar, acontece. – Disse ele apenas.

Voltamos para casa, eu furioso, junto a nosso filho. Resolvi trazer a pedra junto comigo, pois filho meu não seria matéria de capa de nenhuma revista científica! Pedi para que nosso médico não mencionasse o caso para ninguém.

– Está bem, mas esconde esse negócio... – Falou inocentemente minha esposa.

– Esse negócio já foi nosso filho. Você vai renegá-lo agora?

Isabel fechou a cara, tentando esconder seu nojo, tentando mostrar respeito e compaixão para com seu filho que não pode nascer, mas temo que lá no fundo ela não conseguia sentir pena de uma pedra. Deixei o pote na minha gaveta junto com minhas peças de roupas, escondida. As cólicas e alucinações de minha querida esposa desapareceram e juntos pudemos ter uma noite tranquila como antes.

A vovozinha deixa o lobo entrar.

Muitas noites se passaram, tive algumas dores de cabeça. Fiquei muito tempo sofrendo de insônia. Sentia que algo pulsava em minha cabeça, pulsava e pulsava em todas as minhas veias do cérebro, por fim, impossível de dormir. Sem muito o que fazer nessas horas, fui dar uma olhada naquela pedra, no caso, meu filho. Tirei-a do esconderijo e olhei bem. Não era uma pedra comum olhando mais a fundo, aquela pedra não parecia ser tão pedra assim. Tinha deformidades por toda sua extensão e, reparando agora, ela até que se parecia com um bebê encolhido com as mãozinhas perto do rosto. As curvas na parte superior lembravam muito o contorno dos olhos e a pouca luz que do quarto fazia linhas em seus contornos, intensificando o desenho da criança. Acordei minha esposa mostrando a pedra, ela me disse que não tinha desenho nenhum, que era simplesmente uma pedra e me mandou dormir. Passei um tempo admirando aquela pedra com formato de bebê, guardei, depois dormi.

 Nossa vida havia voltado ao normal, tudo estava correndo bem até que, sem mais nem menos, recebemos a incrível notícia pela qual havíamos esperado: minha mulher estava grávida. E desta vez era verdade, fizemos todos os exames, e lá estava nosso querido bebezinho. Nosso filho, sangue de nosso sangue, carne de nossa carne. Isabel estava entusiasmada comprando todas as roupinhas e sapatinhos. Finalmente estávamos felizes, teríamos nosso próprio filho! Ah, quão doces foram aqueles momentos em que passeávamos juntos, nos divertindo ao discutir se seria homem, ou se seria mulher, que nome o bebê teria, e com quem ele iria se parecer. Estava indo tudo bem, até aquela fatídica noite... Acordei com a pulsação estrondando minha cabeça. Minha esposa dormia tranquilamente como um anjinho. A pulsação constante me dava enjoos, o zumbindo de TV ligada ecoava ao fundo. Guinchos estranhos, finos e apresados clamavam as frases da minha mãe.

Que nunca mais se faça carne a sua maldade...

Levantei-me assustado, andei pelo corredor escuro por onde os guinchos ensurdecedores se multiplicavam em um turbilhão de vozes, entre eles um choro de bebê. A gaveta, onde escondera meu filho, estava tremendo. Ricocheteava sozinha, com vida, o chorou vinha de lá dentro. Abri então a gaveta e uma vasta gama de ratos ferozes destroçavam minhas roupas, e roíam a pedra. Roíam, roíam e roíam.

Carne da minha carne.

Talvez pesassem, pela aparência, que meu filho fosse um queijo, mas ratos também gostam de carne... Já tinham devorado o plástico do frasco inteiro, agora estavam riscando a pedra com suas patinhas maníacas. Espanquei-os com fúria, fazendo com que voassem pelo quarto, mas eram muitos. 

– Soltem o meu filho seus desgra... – Os ratos me morderam.

A cada saraivada que eu dava, mais ratos surgiam do nada, como uma onda do mar que te engole. Eles roíam meu filho, guinchando e guinchando, zombando de mim com seus olhos escuros. Peguei meu filho na mão e o arranquei do emaranhado. Por um momento os mil olhos me fitaram, depois começaram a subir no meu corpo. Praguejei, chutei, e esmaguei. Esmaguei um bem debaixo dos meus pés. Aqueles malditos olhos que zombavam de mim se estufaram e explodiram para fora. O ratinho virou uma pasta. Com isso, os ratos finalmente souberam quem mandava no pedaço e foram aos poucos desaparecendo na escuridão. Segurei meu filho e, ele chorava para mim! Escondendo sua carinha na minha palma, o pobrezinho, havia sido arranhado, havia uma expressão triste em suas formas lascadas. Voltei-me para a cozinha – minha mulher ainda dormia como um anjo – e tentei encontrar algo onde pudesse colocar meu filho. Ele não parava de chorar, não parava! Minha cabeça doía e eu só queria ir dormir. A pedra continuava a chorar descontrolada na mesa, não importando o quando eu dissesse para ter calma. Minha única salvação, foi um pote de maionese quase acabado, joguei tudo pelo ralo da pia, limpei, e fiz nova morada para meu filho. Todo o chororô cessou, encarei-o naquele pote de maionese... Ele sorria para mim.

Obviamente, contei tudo para Isabel que, por sua vez, refutou com afinco mesmo as melhores explicações, dizendo que eu estava tendo pesadelos e nada mais. Levou em consideração as minhas roupas. “Chame o controle de praga! Eca! Se eu ver um rato... eu fico louca!” Disse ela.

Não tardou muito para que as cólicas de minha mulher voltassem, dessa vez muito mais intensas e assustadoras. A pobrezinha sofria de ataques de vômitos constantes, ficou muito pálida e fraca nesses últimos dias chegando até a perder boa parte dos cabelos. Adoeceu tanto que passou a repousar na cama, não saindo dela em nenhum momento, senão para ir ao banheiro vomitar. Minha mente entrou em um verdadeiro turbilhão de preocupações. Será que estaria acontecendo o mesmo que acontecera com meu primeiro filho? Morreria e se tornaria uma pedra novamente? Ah, vida, por que me flagelastes assim? Por que a benção de ser pai meu cai como maldição? É isto que lhe faz feliz?

Mais e mais, minha esposa ia adoecendo, com tosses de sangue, dores abdominais. E mais e mais sua barriga crescia, o bebê, apesar de tudo, crescia. Cuidei de minha queridinha todo esse tempo e dele também... Nas madrugas, a pedra chorava, demorei muito para descobrir o que ela queria: Leite. Nas noites a pedra me olhava com olheiras e face desnutrida, colocava um pouco de leite em seu pote e na manhã do dia seguinte o pote estava seco. Porém uma vez não fui necessário. O pote já estava em cima da mesa e meu filho me encarava alegre em seus detalhes petrificados. Eu não havia o colocado ali. A pedra me fitava para onde quer que eu andasse. Ainda mais, ele parecia ter crescido! O pote havia ficado pequeno demais para ela e, para minha surpresa, ela já tinha leite em seu pote. Quem lhe dera? Apanhei-a e ela estava mais pesada. Ela me fitava seus olhos de sombras negras em ranhuras de patas de rato, ela me fitava fundo nos olhos, me vigiava, me vigiava...

Minha querida esposa, depois da tempestade e mil remédios, voltara a se sentir melhor, sua temperatura se amenizou, e sua cor voltara pouco a pouco ao normal. Ah, como ela era linda dormindo, fogosa, linda. Acariciei o pouco de seus cabelos que lhe sobrara, deite-me ao seu lado, imaginando o futuro com nosso novo filhinho que estava por vir. Como nossa vida seria mais alegre, tendo um pequeno raio de sol dentro da casa, meu filho, carne da minha carne e sangue do meu sangue. Ao passo em que deixava minha mente vagar em gozo, um som agudo penetrante foi me tirando o estado de calmaria. Havia alguém batendo na porta, bem de leve e compassado, batendo e batendo. O som não vinha da porta da frente, vinha de outro lugar da casa. De chofre, uma pequena silhueta, do que seria a sombra de um minúsculo ratinho no roda pé da parede, parou diante de mim, fitou-me e se prostrou a me guiar o caminho. Um pequeno riso ecoava juntos as pulsações do meu cérebro, as sombras de ratos se movimentavam nas paredes, mas eram só isso mesmo: sombras. Para onde quer que você olhasse, não encontraria vestígio se quer de animal físico. As sombras que me guiavam caiam umas sobre as outras, loucas, apressadas, até a toca... Até o que seria o quarto do meu novo filho.

A porta se abriu, e o ventou frio da janela aberta me atingiu congelando minha espinha. Com ele os ratos se foram. Na minha frente, no berçário novinho do meu novo filho, jazia a pedra, bem maior do que o potezinho de maionese em que eu a aprisionara. A pedra estava lá, encolhida como um bebê vivo, com os desenhos das mãozinhas encostando as bochechas e... a pedra respirava. Podia ouvir o som da sua respiração ali no berço, aproximei-me, peguei-a no colo. Pus minha cabeça no que seria se peito e senti... Senti sua pulsação, ouvi seu coração batendo, sua superfície inflar e desinflar a medida que respirava. Ela riu.

Ao fundo da casa, ouvi minha mulher gritar. Era um berro assombroso. Olhei para a pedra e ela riu para mim, manhosa, esnobe, atrevida.

– O que é você? – Perguntei para a pedra em meu colo.

– Não sou carne da sua carne... Mas vou ser – Falou ela em meus ouvidos.

– Seja lá o que diabos você é, deixe minha mulher em paz!

– A culpa é sua... – Dizia em respirações longas. – Você me fez pagar por um pecado que não era meu... papai...

– Mas com...

– Não se preocupe papai... Eu ainda posso ser carne da sua carne, sangue do seu sangue. Basta apenas que ele me empreste o corpo...

Num lapso de pânico, num movimento quase involuntário, soltei meu filho pedra, fazendo com que ele caísse no berçário rindo, dengoso, despretensioso, como uma boa criança faz. Minha mulher urrou mais uma vez no fundo da casa. Acordei do meu transe com este grito de socorro, ensopado de suor, garganta seca. As veias do meu cérebro pulsavam. Gritei para pedra deixar minha mulher e meu filho em paz, mas a pedra nada disse. Permaneceu lá parada, sólida, imóvel, sem vida. Não havia mais formato de bebê, era só uma pedra lascada oriunda do útero de minha mulher. Os berros de algum animal espalharam na escuridão. Podia ser... minha mulher?

Corri pelo corredor, junto a ninhada de ratos sombras que caiam um sobre os outros nas paredes. Fiquei tonto, as paredes se moviam, senti algo enroscar nas minhas pernas e caí. Os ratos subiam e desciam o teto e logo acabei andando em círculos em minha própria casa. Era impossível reconhecer para onde estava indo, tudo se movia, tudo mudava de forma.

Carne da minha carne...

 Com meus nervos à flor da pele e, acreditando em meus instintos, explodi contra a parede de ratos e a porta se abriu. Vi minha mulher suspirando ofegante em cima da nossa cama, sua barriga estava maior do momento em que a deixara, estufava e murchava, minha mulher berrava ainda em sonhos.

Carne da minha carne... Ecoou de sua barriga.

– Isabel! Isabel! – Gritei subindo na cama. – Isabel, você está bem?!

Ela continuava dormindo, porém remoendo sonambula de dor como se estivesse presa entre o mundo dos sonhos e o mundo real, perdida em pesadelos. Balancei-a com força, chacoalhei seus ombros, mas ela continuava dormindo.

– Amor, acorde! Amor, acorde!

Em algum lugar, dentro da barriga de minha mulher, a pedra ria.

– O pecado foi seu... papai...

– Amor, por favor, acorde! – Chorei.

Dei tapas em sua face, mas ela não acordava. Gritei a todos pulmões, implorei para os quatro cantos para que ela voltasse para mim, mas ela ainda se contorcia em sonhos. Comecei a socá-la em desespero para acordá-la, rogando que abrisse os olhos, mas... Minha mulher não acordava. Seu nariz sangrava, seus olhos estavam totalmente brancos. As sombras dos ratos circularam toda a extensão do quarto, criando vida a partir da fraca luz de nosso abajur. Eles caminhavam em pé sobre duas patas em sombras enormes, gigantes. Andavam em círculos sem fim. Eles guinchavam uma música estranha, com os dizeres repetidos em procissão macabra: a maldade não se fará carne.

Um riso dengoso saía de minha mulher, lá estava a pedra, em algum lugar...

– Deixe minha mulher em paz! – Gritei.

– Eu não sou culpado, papai. 

– Você não é meu filho! Saia já da minha mulher, e liberte meu verdadeiro filho! Deixe-nos em paz, eu imploro!

– Você se parecesse muito com a vovó...

A fúria me corroeu os ossos ao ouvir aquela fraude mencionar minha mãe. Soquei a pedra com violência e obriguei que se retirasse de minha mulher.

– Saia já, criatura maldita! Saia, eu lhe ordeno! Liberte minha amada esposa e esqueça o meu filho! Volte para o lugar de onde você veio, eu lhe ordeno!

De súbito, um liquido começou a escorrer das pernas da minha esposa, me apavorando por completo.

– Ah, não! Você não vai!

– Eu vou nascer, e mamãe vai morrer... O preço do pecado, papai...

Briguei contra pedra, ordenando para que saísse do corpo de minha mulher e que deixasse meu filho em paz, mas ela apenas ria da minha cara. Ela apenas ria como uma criança. Quanto mais ela ria, mais me tirava do sério. Voltei apressado para o quarto onde eu havia deixado a pedra. Pressionei a pedra contra a barriga de minha esposa e ordenei mais uma vez:

– Oh, criatura imunda, volte para o lugar de onde veio! Deixe minha mulher em paz por bem ou por mal!

 A pedra riu mais uma vez da minha cara, eu a soquei, mas ela ria ainda mais alto da minha cara! Ordenei que parasse de rir, que parasse de rir, que parasse de rir!

– Me pegue, papai, me pegue!

Alguma coisa começou a escorrer de minha esposa. Os ratos pularam para as suas pernas, eu os soquei com violência para afugentá-los, mantê-los afastados do meu filho que estava prestes a nascer, mas eram uma rajada incontrolável. A pedra continuava rindo. Pedi socorro para que alguém viesse ajudar, ajudar de alguma forma a meu filho e que aquela maldita pedra não se apoderasse dele. Gritos no meio da madrugada...

O lobo devora vovozinha.

O promotor colocou as provas em cima da mesa. Suspiros e cochichos puderam ser ouvidos na corte. O juiz tirou os óculos para averiguar com peculiar interesse um punhado de pedras lascadas e uma faca ensanguentada envoltas em um plástico fechado.

– De onde o senhor retirou essas pedras? – Perguntaram.

– SÃO MEUS FILHOS! ONDE ESTÁ MINHA MULHER? O QUE VOCÊS FIZERAM COM ELA?

– Acalme-se senhor, ou será preso por desacato! – Ordenou o juiz.

Houve um breve silêncio.

– Responda a pergunta, senhor. Onde o senhor conseguiu tantas pedras... para sua mulher?

O lenhador salva chapeuzinho vermelho e sua vovozinha...

Aécio Thiago Alves de Souza
aeciothiagorock@gmail.com

Estudante da UFGD, compositor de músicas e escritor.

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