Café Literário: Baratas

 
Às vezes me esqueço de agradecer a ineficiência do transporte público da minha cidade. Durante a espera por um ônibus tive como presenciar por durante uns vinte minutos a existência de uma pequena barata. Enquanto o mundo continuava no seu desespero habitual eu consegui focar apenas naquele ser. Ser, este que estava particularmente agitado, ia do ponto à rua e vice-versa como se essa fosse sua missão na vida.

Por muito tempo ela fazia quase o mesmo trajeto se safando por pouco dos carros que pela rua passavam em alta velocidade. Depois de ter acompanhado esse ser por vários minutos passei a ter um certo apreço por sua vida. A todo carro que ela conseguia sobreviver era uma vitória, foram cinco, seis, sete. Enquanto eu parado no ponto gritava internamente de alegria o quão habilidosa aquela barata era.

Se o acaso nós trazer a uma terceira guerra mundial com suas armas nucleares, eu pensei, aquela barata ainda continuaria a viver. Heis um ser que está preparado pra a sobrevivência.

E quanto mais o tempo passava mais eu me apessoava à barata. Animal este que em outras situações já teria perdido sua vida por obra do meu chinelo.
Quando por um segundo cheguei a acreditar que nada devia temer por por sua vida, um carro conseguiu em milésimos de segundos acabar com minha companheira de ponto. Não se bastasse morrer esmagada pelas rodas dianteiras do carro logo vieram as rodas traseiras para decretar que daquela situação não havia escapatória.

Após a passagem do carro consegui ver aquela barata no asfalto esmagada, senti de início o peso da morte. Não importava se era um animal, importava menos ainda se era uma barata.

Não se passou muito tempo e meu ônibus acabou chegando. O dia teria que continuar e continuar normalmente, mas no fundo senti como se tivesse perdido algo. E agora sei que sou eternamente grato pela barata póstuma, que por vinte minutos conseguiu me tirar da minha zona de conforto, do meu casulo de vida, por ter me dado alguns minutos de fuga da realidade, dessa vida tão corrida que se nega o tempo de apreciar as menores coisas que o mundo nos apresenta. E como são lindas essas pequenas coisas da vida.

Felipe Daflon
felipedaflon26@gmail.com

Jovem, recém-estudante de direito. Tenho 18 anos e por toda minha vida vivi em uma cidade pequena de 20 mil habitantes. Tive contato com a literatura de forma um pouco atrasada, mas uma vez que se apaixona, fica difícil se desgrudar de seu objeto de amor e é isso o que a literatura e a escrita são para mim. Vivo agora em uma cidade grande, Rio de Janeiro, onde sou eternamente surpreendido pelas facetas da vida cotidiana que se mostram pra mim, nos pequenos detalhes. Gosto de ler praticamente tudo, mas há um espaço reservado no meu coração para escritores como Charles Bukowski, Victor Hugo e Carpinejar.

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