Do Baú: Joguei o limão pro alto... caiu em outros versos

“Joguei o limão pro alto
Aparei com a vassoura
Não tem moça mais bonita
Do que a minha professora”

Foi o verso que ganhei de um aluno, declamando, com impostação, numa roda. Fiquei toda boba - menos pelo elogio, mais pela  conquista: havia encontrado alguém, ainda criança, cheio de saberes na arte da oralidade popular!
Foi ele – o Geovane – quem me ensinou a fórmula do “joguei o limão...” e uma série de versos derivados. E ele me ensinou muito mais!

Ensinou-me que alguém que chega carregando estigmas socioculturais e uma baixa estima traduzida ora em violência, ora numa postura curva de vergonha, não está fadado inexoravelmente ao fracasso!!!

É um ser que chega às vezes invisível, mas que deseja ser visto, ouvido e amado, como todos nós. Um começo difícil: arisco, calado, um pré-adolescente que chega a uma escola rotulado como “não-leitor”, para ficar numa turma de crianças menores. Muito difícil...

Mas um dia, depois de mais uma briga na hora do recreio, o peguei pelo braço e fui conversar numa saleta, só nós dois. E falei para ele da menina cheia de medos e fraquezas que morava na minha infância. E falei que a gente cresce e fica maior do que aqueles medos e fraquezas. Às vezes a gente até esquece, ou até acha graça de algumas lembranças. Ou às vezes não, porém ficamos mais resistentes, sobreviventes e que somos capazes de ir sempre um pouco mais. Daí ele me contou de alguns de seus medos e fraquezas... ele chorou, eu chorei, e fomos capazes de um abraço! E as coisas mudaram desde então: ele mostrou-me que sabia, sabia muitas coisas, inclusive, já sabia ler!

Sim, tivemos um final feliz naquele ano: procurei amparo na legislação e Geovane pode ser adiantado em um ano letivo. Depois ele trocou de escola, mas felizmente, uma escola no mesmo município, onde também foi bem acolhido. Até onde pude, perguntei por ele. E as notícias eram de que havia se tornado um bom aluno... Desejo, desejo muito mesmo, que ele esteja bem, que hoje, homem feito,  tenha sucesso na escola da vida.

Hei, quase me esqueço de contar um episódio! Ele também fez as pazes com outra professora (a tia Elô) uma forma muita linda e singela. Disse a ela que tinha um presente, que ela fechasse os olhos e abrisse a mão: entregou-lhe então uma bolinha - dizendo que era uma pérola – porque ela era muito boa para ele. A professora ficou emocionada. Entretanto, a bolinha era uma naftalina... A naftalina se dissolveu, mas não em nossas memórias. Para mim e para tia Elô nunca vimos uma pérola mais linda e reluzente do que aquela!

Depois dessa história - acontecida há tanto tempo - vamos fazer com que a roda continue girando; eis mais alguns versos colecionados, muitos deles que aprendi com esse querido aluno (hei, "passem adiante, senão vira elefante"):

JOGUEI O LIMÃO PRO ALTO
CAIU NA PONTA DA ESPADA
NÃO TEM MOÇA MAIS BONITA
DO QUE A MINHA NAMORADA

JOGUEI O LIMÃO NA ÁGUA
E O LIMÃO FOI PRO FUNDO
AINDA PEGO ESSE MORENO
NEM QUE FOR NO FIM DO MUNDO

JOGUEI O LIMÃO PRA CIMA
ATRAVESSOU SETE BAÍAS
DEU NO CRAVO, DEU NA ROSA
DEU NA MOÇA QUE EU QUERIA

JOGUEI O LIMÃO PRA CIMA
CAIU ATRÁS DO GALINHEIRO
O RAPAZ DE HOJE EM DIA
QUER CASAR NÃO TEM DINHEIRO

FUI PRO MAR COLHER LARANJA
FRUTA QUE NO MAR NÃO TEM
VIM DE LÁ TODO MOLHADO
DAS ONDAS QUE VÃO E VEM

NÃO TENHO MEDO DE HOMEM
NEM DO RONCO QUE ELE TEM
O BESOURO TAMBÉM RONCA
VAI SE VER NÃO É NINGUÉM

VOCÊ DIZ QUE SABE MUITO
BORBOLETA SABE MAIS
ANDA DE PERNA PRA CIMA
COISA QUE VOCÊ NÃO FAZ

EU TE VI E TU ME VISTE
TU ME AMASTE E EU TE AMEI
QUAL DE NÓS AMOU PRIMEIRO
NEM TU SABES, NEM EU SEI

QUEM ME DERA TER AGORA
UM CAVALINHO DE VENTO
PARA DAR UM GALOPINHO
ONDE ESTÁ MEU PENSAMENTO

VOCÊ ME CHAMOU DE FEIO
SOU FEIO MAS SOU DENGOSO
TAMBÉM O TEMPERO É FEIO
MAS FAZ O PRATO GOSTOSO

ESSA NOITE TIVE UM SONHO
QUE NÃO ME SAI DA LEMBRANÇA
SONHEI QUE VI A SAUDADE
ABRAÇADA COM A ESPERANÇA

MEU ANEL DE PEDRA VERDE
A QUEM DEVO OFERECER
OFEREÇO À COMPANHEIRA
QUE JÁ SABE AGRADECER

SE A TARDE CAIR TRISTE
COM ARES QUE VAI CHOVER
NÃO TE ESQUEÇA DE MEUS OLHOS
QUE CHORAM POR NÃO TE VER

ROSEIRA DÁ –ME UMA ROSA
CRAVEIRO DÁ-ME UM BOTÃO
MENINA DÁ-ME UM ABRAÇO
QUE TE DOU MEU CORAÇÃO

TENHO FOME E TENHO SEDE
MAS NÃO É DE PÃO NEM VINHO
TENHO FOME DE UM ABRAÇO
TENHO SEDE DE UM BEIJINHO

MENINA CASA COMIGO
QUE SOU BOM TRABALHADOR
COM CHUVA NÃO VOU NA ROÇA
COM SOL EU TAMBÉM NÃO VOU

JACARÉ ENTROU NA ÁGUA
PASSARINHO SE ASSUSTOU
VOA,VOA, PASSARINHO
QUE O TEU SUSTO JÁ PASSOU

O SOL NASCEU PARA TODOS
DIZIA UM BICHO DE PÉ
MAS PREFIRO AQUI A SOMBRA
E UM CHEIRINHO DE CHULÉ

ANDORINHA NO COQUEIRO
SABIÁ DE BEIRA-MAR
ANDORINHA VAI E VOLTA
MEU AMOR NÃO QUER VOLTAR

LARANJEIRA PEQUENINA
CARREGADINHA DE FLOR
EU TAMBÉM SOU PEQUENINA
CARREGADINHA DE AMOR

BATI O DEDÃO NA PEDRA
A PEDRA NÃO SENTIU NADA
MEU DEDÃO FICOU DOENDO
SÓ PAROU DE MADRUGADA

AS ROSAS É QUE SÃO BELAS
OS ESPINHOS É QUE PICAM
MAS SÃO AS ROSAS QUE CAEM
E SÃO ESPINHOS QUE FICAM

EU FALEI DA FLOR MORENA
FICOU A RIR QUEM ME OUVIU
QUEM NUNCA VIU FLOR MORENA
FOI PORQUE NUNCA TE VIU




Marisa Maia tira "Do Baú" memórias e preciosidades, oralidade e tradição popular - elementos influenciadores na produção literária e no nosso modo de ler... o mundo!

2 comentários:

  1. Que belo texto, Marisa!
    Mas você não assinou! :-)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu o elogio e a atenção! Agora eu já corrigi! Um abç!

      Excluir

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.