Café Literário: Um Sopro de Vida


A sabedoria popular não raramente é capaz de nos trazer revelações incríveis. Mesmo sendo consideradas academicamente como conhecimento empírico. Algo que não pode ser provado. Mas sinceramente... O que pode realmente ser provado? A teoria da relatividade? O movimento de translação? A pisada do homem na lua? Aparentemente sim, pelo que se ouve durante toda vida. Devem estar certos, mas enfim, sabedoria popular também é conhecimento. Só que de um tipo diferente digamos assim.
__________________________

Lembro-me de quando ainda era jovem e tinha dezoito anos. Costumava me achar no topo do universo, no auge da minha capacidade física... Como era tolo. Acreditava em amigos de verdade, amor pleno, e poderia jurar que todas as pessoas à minha volta estavam insatisfeitas com suas atuais realidades. Que se incentivadas poderiam transformar seu ambiente, lutar contra as injustiças e assim corroborarmos todos para uma nação mais unida e um país justo. Com o tempo ao chegar aos meus vinte anos vi que nada disso era verdade. Elas realmente não gostavam das situações em que se encontram... Mas gostariam que todas as mudanças fossem somente para si. E continuam assim até hoje. Aos vinte conheci o egoísmo humano.
 
Os primeiros vinte anos de um homem dizem muito sobre si. Forçando a minha mente ainda consigo me lembrar de algumas coisas. Lembro-me que nesta idade o sexo costumava significar tudo. A origem, o transpassar e o fim. E por incrível que possa parecer de certa forma também significava pra todo mundo. Todos meus colegas sempre estavam atrás de alguma namorada, e estas por sua vez sempre buscavam formas de se diferenciarem de suas rivais tentando transparecem serem as mulheres perfeitas, sempre buscando colocar a aliança na mão direita de algum homem. Por vezes cheguei a pensar que não iria importava quem seria o "cara" em questão. Mas sim apenas o matrimônio em si.
 
Imagino o que o leitor esteja pensando agora... "Caramba! Esse velhote é ou foi um tremendo pervertido!". Isto não é verdade. Meu objetivo é apenas tornar claro como as "transações" que praticamos ao longo da vida têm profunda influência com o desenrolar da mesma. Por exemplo, aos vinte e três anos conheci minha esposa. Fui feliz nos cinco primeiro anos. Já era formado em computação, e ela em letras. Passava os meus dias trancado em uma sala com outros dez homens criando softwares gráficos e ela em outra sala ensinando ao "futuro do amanhã" o que soava ambíguo, mas nunca a reclamei isso. Quando chegávamos em casa sempre juntos, estávamos igualmente tão cansados que não tínhamos muito tempo para dar a devida atenção que cada um de nós merecia.
 
Com o tempo a parei de elogiar, demonstrar minha gratidão e meu amor. E como consequência a recíproca tornou-se verdadeira. A convivência tornou-se insuportável, éramos dois estranhos e nos odiávamos. Isto é algo interessante em se ressaltar na personalidade humana. Quando alguém não nos proporciona nosso bem estar sempre acreditamos que aquele indivíduo está em divida para conosco. Porque afinal, acreditamos ser a pessoa mais importante do universo. Sim, conheci o egoísmo humano nos dezoito, e ele continuava até aqui. Sempre andando à minha volta. O meu fiel escudeiro.
 
Quando cheguei nos meus trinta anos, separei-me dela. Não irei dizer seu nome por não possuir relevância. Mas sabe jovem, não odeio o casamento. Ensinou-me muito sobre mim mesmo. Descobri que nascemos sozinhos, crescemos sozinhos, e por fim morremos igualmente solitários. Descobri também que para que um casamento desse certo deveria não pensar em mim mesmo, deixar de ter vida e vontades próprias. Não consegui fazer isso. Gosto mais de mim mesmo. Fazer o que? Olá egoísmo, como você está? Continua o mesmo?
 
Nesta época acreditei que a separação me libertaria de tudo. Mas não, ela abriu meus olhos para uma sinistra realidade. Estava ficando velho. Havia feito poucas realmente significativas ao longo de minha curta existência na Terra. Começava a me perguntar o que fazer para modificar isso. Mas não existia tempo para que eu realmente fizesse alguma coisa. O trabalho tomava todo o meu tempo. Às vezes, não raro, gostaria de voltar a ter quinze anos, época em que era sustentado pelos pais e fazia o que bem entendia. Minha pobre mãe... Vejo agora o motivo de sua preocupação. Estava o vivendo nesta época. Sempre angustiado, sempre querendo mais tempo, e o tempo fugia desenfreado de mim. Como se tivesse eu uma doença contagiosa ou algo assim.
 
Aos trinta e seis recebi uma promoção. Ela veio tarde. Nunca havia deixado de trabalhar gerindo uma equipe de dez homens. Agora eu geria vinte. Que diferença não é mesmo? Irônico. Percebo a futilidade disto agora. Já um pouco tarde demais. Teria feito algumas diferentes se me fosse dada a oportunidade. Nunca houve muito tempo, estava sempre tão distraído com tudo que ele voava por mim e eu não percebia. Ou será apenas meu novo ponto de vista que me põe agora a ver as coisas desta forma? Talvez tenha vivido cada minuto da melhor forma possível. Bom... Minha mente não permite lembrar-me de tudo com exatidão. Seria pedir demais.
 
Enfim, falaremos agora de meus quarentas anos. O sexo nesta idade já era praticamente inexistente. Somente raramente alguma estagiária olhava para mim com olhos de interesse buscando subir seu posicionamento na empresa. Pergunto-me se elas realmente gostam de serem usadas como objetos sexuais. Pareciam não se incomodar com isso. "A vida é só uma, precisa-se progredir na chance que se têm" vi escrito em letras miúdas em uma propaganda de carro. Esta frase ilustrava bem a situação em que se encontravam. Não podia as repreender, então fazia a única coisa lógica a se fazer... Colaborava para o seus desenvolvimentos profissionais. Se é que me entende... Acredito que parei de me importar tanto com regras sociais dos quarenta aos cinquenta. Estava tão cheio de tudo, que o que os outros pensavam pouco me importava. A música era a única coisa que continuou me acompanhado ao longo de todos os meus anos de vida. Minha fiel companheira que me acalentou nos mais tristes momentos.

O egoísmo já não habitava mais em mim nos meus cinquenta anos. Minha ex-esposa havia decidido retornar para mim. De certo ela acreditava ser melhor continuar vivendo comigo do que envelhecer sozinha e esquecida por todos. Enquanto éramos casados não fui um homem ruim para ela. Não a traia, e isso deve ser louvado. Era muito bonito em meus vinte e três anos, Deus como era bonito. Gostaria de voltar no tempo apenas para dizer isso a mim mesmo. Apesar de dizerem-me o contrário naquela época. Percebo agora que era pura inveja. Também não costumava a ofender. Talvez por isso tenha escolhido viver o resto de seus dias comigo. E sinceramente... Não imagino outra pessoa com que eu queira passá-los. Meus movimentos são lentos agora, assim como os dela também. Sorrimos um do outro constantemente, quase como melhores amigos. Sorrimos também dos outros, mas não depreciando. Apenas notando como todos os jovens acreditam ser tão únicos. Tão autênticos e irreverentes... Mas a verdade é que são todos absolutamente iguais, com suas musicas pop ou rock. Camisetinhas de bandas ou tentando parecerem com alguém da moda. Tudo é tão pequeno, tudo é tão ridículo. Tudo é e sempre foi tão pouco. Minúsculo. Ínfimo.

Jovem, não o conheço, devo admitir. Mas você provavelmente irá viver uma vida exatamente como a que vivi. Talvez com mais altos e baixos, talvez não se case e talvez até mesmo tenha filhos quem sabe. Pelo que escrevi a vida parece ser uma coisa horrível e monótona... Mas não é! Longe disso. Vivendo-se corretamente ela pode ser extremamente gratificante. Hoje em dia sou um homem feliz. Sim, eu também vivi aquela fase dos cinquenta em que se deseja fazer tudo novamente, e até mesmo tenta-se. Mas mesmo assim sou feliz. Contemplo todas as coisas à minha volta. Agradeço a Deus por tudo o que consigo enxergar. As pequenas coisas parecem enormes, e o tempo ao passar, desta vez parece uma leve brisa que pouco a pouco retira o meu alento e tenta levar-me consigo. Um dia aceitarei sua carona e irei com ela. Minha esposa também ira. E então, essa leve brisa andará por todo o universo indo por vários lugares diferentes fazendo seu trabalho, e por fim, ela voltará por você. Ela volta por todos.

Mikael Guedes

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.