Incubadoras


Existe uma polêmica a respeito de oficinas literárias. Parte dos literatos as considera desnecessárias e olham com desconfiança para autores de brotam nesses cursos. Parte acredita que as oficinas ajudam a lapidar talentos, incentivar autores iniciantes a desenvolver sua escrita. A primeira parte acusa recorrentemente a segunda parte de defender os laboratórios por questões meramente financeiras. A segunda contrataca, mandando beijos no ombro, e assim seguimos numa luta sem fim.

Como não me filio sequer a partido político, acredito que de certo modo ambos têm razão, conclusão que tiro a partir da experiência que extraí em oficinas para autores das quais participei. Foram algumas.

No início, minha ideia era trocar experiência. Nessa época eu estava perdendo a vontade. Tentava escrever romances há quinze anos, sempre interrompido pela falta de tenacidade, pouco contato com o meio literário. Meus romances inacabados pararam no mesmo ponto, quando a obra deixa de ser um projeto e precisa ser verdadeiramente forjada.

Como tinha poucos amigos que se interessavam por literatura, mirei em minhas referências e procurei a oficina do Arnaldo Bloch, que tem por objetivo apresentar ferramentas ao escritor que precisa superar bloqueios.

Melhor que as ferramentas (que funcionam, é verdade), conhecer outros autores foi o diferencial. Há gente daquela primeira experiência com quem mantenho contato até hoje.

Pouco tempo depois, senti falta não de ensinamento, mas do convívio com pessoas que partilhassem o mesmo interesse e me matriculei na oficina de contos da Marina Colassanti. Foi minha experiência literária mais traumática, em que aprendi em um mês a lidar com a crítica mais do que nos 35 anos anteriores.

Sempre que terminava uma oficina, passado algum tempo, me sentia vazio novamente. Sentia saudade do ambiente (nada acadêmico) em que se discutia aquilo que gosto de fazer: a escrita.

Procurei outros cursos, angariei novos colegas, gente interessada em aprender e passar conhecimento. Enfim, aportei na oficina de romance da Carola Saavedra, que considero o meu ponto de virada.

Ninguém aprende a escrever em laboratório, é algo inerente à própria personalidade. Nesse ponto os detratores têm razão, se você não tem aptidão, é recomendável sonhar outro sonho.

Aos sete anos, disse aos meus pais que seria escritor. Nessa época escrevi meu primeiro livro e continuei desejando e buscando ser escritor todo o tempo.

Não me tornei autor porque recebi diplomas de cursos. No entanto, esses cursos foram essenciais para que pudesse conhecer melhor a profissão que escolhi, para ter contato com um lado da literatura que o leitor dificilmente tem. Para apoiar amigos e ser apoiado, tecnicamente, emocionalmente. Aqui encontra amparo o argumento dos defensores das escolinhas, elas aproximam profissionais e aspirantes, o que pode ser muito positivo.


Existe muita restrição ideológica às oficinas, certo preconceito com escritores que ali surgem. Contudo, nunca me preocupei muito com o preconceito ou com a ideologia, o que me interessa mesmo é escrever (e ser lido), seja numa carteira desconfortável de sala de aula, seja no silêncio enfumaçado do meu quarto escuro cheirando a álcool e café, seja numa mesa de bistrô no fundo de uma livraria elegante do Leblon, seja no caderno pautado apoiado sobre as coxas no banco apertado do metrô, seja sentado na cadeira de diretor no escritório da minha casa onde pulam gatos de todos os lados para brincar com o teclado parecendo querer lembrar que nada é tão sério assim, exceto tudo (os gatos, esses estão sempre certos).

Fernando de Abreu Barreto

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog “O Nariz do Fernando”, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É autor da novela “A Forma da Sombra”, publicada em 2014 pela Caligo Editora.

Um comentário:

  1. Pois é Fernando... escrever é assim - esse desejo que nos inquieta, como o desejo da arte (porque já foi dito que só a vida não basta). Continue... go on...

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Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
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