Depressão, Medo e Insegurança no “País do Futuro" - a tragédia dos Zweig

Stefan Zweig, 1939

“Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite. Eu, “demasiadamente impaciente, vou-me antes.” - Stefan Zweig

Só a partir de 2012, o escritor austríaco Stefan Zweig passou a ser mais conhecido do público brasileiro. Em agosto daquele ano, completaram-se 70 anos do lançamento do seu livro "Brasil, país do futuro" e, em fevereiro, os 70 anos da morte do casal Zweig, Stefan e Lotte.

Aquele foi um ano de muitas homenagens:

- a inauguração da casa onde Zweig se suicidou em Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro (ali funciona, desde então, um memorial que homenageia os intelectuais exilados no país durante a Segunda Guerra Mundial);
- mostras de documentos, livros e filmes, até então, inéditos no Brasil;
- lançamentos e relançamentos de suas obras.



Quem foi, afinal, Stefan Zweig? O que me leva a escrever esse artigo sobre ele?



Uma tremenda coincidência. Começo a escrever, este artigo no primeiro domingo depois da quarta-feira de cinzas de 2015. Horas depois, ao reler os dados de minha pesquisa sobre o assunto, percebo que foi exatamente nesta data, mas no ano de 1942, que a tragédia do casal Zweig ocorreu em Petrópolis, na serra fluminense. Há 73 anos.

Mas antes de tratar do infortúnio que se abateu sobre esse casal de austríacos em solo brasileiro, me interessa por foco no personagem Stefan Zweig, um escritor bem sucedido, um homem de origem judaica e “suas tensões íntimas”, como definiu Alberto Dinnes um de seus biógrafos (Morte no Paraíso - a tragédia de Stefan Zweig):

“...o exílio auto imposto, que fugindo da perseguição nazista, refugiou-se na Inglaterra e no Brasil, onde se suicidou após seis meses em meio a muita depressão, medo e insegurança”.

Voltando ao que me motivou a escrever este artigo, tudo na história do escritor me atrai: seu sucesso e reconhecimento desde o começo da carreira até hoje renovado, seu círculo de amizade repleto de intelectuais e artistas, sua paixão pelo Brasil e pela literatura que além das próprias obras, rendeu traduções de clássicos e biografias de grandes escritores da literatura mundial, como Maria Antonieta, Erasmo, Balzac e Napoleão.

Zweig manteve amizade e troca artística com Gustav Mahler, Sigmund Freud e Arthur Schnitzler, Rimbaud, Roman Rolland, Rainer Maria Rilke, James Joyce e Wittgenstein.

Já era um escritor de importância reconhecida quando deixou Viena em 1934, afetado pela disseminação da política antissemita de Hitler. Viveu em Londres até 1940, até o início da 2ª. Guerra mundial, quando se exila na América, inicialmente em Nova York, EUA, e em 1941 fixa residência em solo brasileiro.

O Brasil já o recebera duas vezes antes, para conferências e a passeio.


Vida e morte no “país do futuro” – a opção pelo Brasil



"Você não pode imaginar o que significa ver este país que ainda não foi estragado por turistas e tão interessante - hoje estive nas cabanas dos pobres que vivem aqui com praticamente nada (as bananas e mandiocas estão crescendo em volta) e as crianças se desenvolvem como se estivessem no Paraíso -, a casa inteira, desde o chão, lhes custou seis dólares e, por isso, são proprietários para sempre. É uma boa lição ver como se pode viver simplesmente e, comparativamente, feliz - uma lição para todos nós que perdemos tudo e não somos felizes o bastante agora, ao pensar como viver então." - Stefan Zweig


Segundo seus biógrafos, a escolha do Brasil se deu em razão de algumas proximidades que Zweig via entre as duas sociedades – a brasileira e a Viena da época: multirracial, ambas opressoras.

"Considerando que o nosso velho mundo é, mais do que nunca, governado pela tentativa insana de criar pessoas racialmente puras, como cavalos e cães de corrida, ao longo dos séculos a nação brasileira tem sido construída sobre o princípio de uma miscigenação livre e não filtrada, a equalização completa do preto e branco, marrom e amarelo." - Stefan Zweig

Mas mesmo vivendo no país que cunhou de “país do futuro”, Stefan Zweig não conseguiu recriar sua vida e renovar a esperança na humanidade. O escritor vivia deprimido com a expansão da barbárie nazista pela Europa e por certa perseguição que sofria pelo governo Vargas, durante a Segunda Guerra Mundial.

Até que, não suportando mais “suas tensões íntimas” acontece a trágica morte do casal, no pós-carnaval de 1942.



A notícia corre o mundo e ganha destaque nas páginas policiais dos periódicos: “Casal Zweig comete suicídio com uma dose letal de veneno”, diz a manchete ao lado da foto que os mostra abraçados, no leito de morte. Na legenda: “Stefan Zweig, 60 anos, e sua esposa Charlotte Elizabeth Altmann (mais conhecida como "Lotte"), 34 anos”.

Morte por pacto suicida ou atentado? Até no ato da morte a história do escritor se cercou de mistérios e suspeitas.

Hoje já se dispõe de muitas evidências de que o casal recebeu ordem de se matar, embora num primeiro momento, os resultados de uma perícia oficial questionável e um bilhete de próprio punho de Zweig indicassem se tratar de um pacto de suicídio.

“Minha vida está destruída há anos, e eu me sinto feliz por poder sair de um mundo que se tornou cruel e louco” – deixou escrito Zweig em carta a um amigo.

Se o gesto de suicídio foi reprovado por parte de importantes escritores e intelectuais da época, como Thomas Mann, Hannah Arendt e George Bernanos, outros lhe renderam homenagem e exigiram respeito - Orson Wells, Rubem Braga e tardiamente Jorge Amado (ao rever sua posição de censura à época).


Zweig, um prodígio do mercado editorial – “Sua posteridade é eterna.”




“O escritor austríaco é um verdadeiro fenômeno: só em 2013, 160 edições diferentes de títulos seus estavam nas livrarias da França. Zweig é um dos raros autores que teve um imenso sucesso após seu suicídio com sua mulher Lotte, em fevereiro de 1942. Sua posteridade é eterna.”, escreve Mohammed Aïssaoui, na Revista Le Figaro.

Agora mesmo, enquanto escrevo este artigo, parece estar acontecendo um novo “revival” da obra do escritor.

Zweig é até hoje o escritor mais traduzido e um dos mais adaptados para o cinema (mais de 60 adaptações de filmes), por todo mundo.

Desde 2013 assistimos a vários eventos e outros tantos ocorrerão:

   - Lançamento do filme brasileiro ”Coleção Invisível”, de Bernand Attal, baseado em conto homônimo do escritor;

A reedição de várias de suas obras (pela editora Zahar);

Uma nova biografia acaba de ser lançada nos EUA, “The Impossible Exile”, do americano George Prochnik;

Muitos eventos na Casa Stefan Zweig já programados até 2016;

    Mas foi o lançamento do filme “O Grande Hotel Budapeste”, dedicado a Zweig, ainda em cartaz e premiado com quatro Óscares, que obteve maior repercussão. Na estreia do longa no Festival de Berlim, o diretor americano Wes Anderson reconheceu:

“Isso é basicamente um plágio. Eu roubei muito de Zweig.” 

Com direito a crédito e homenagem ao longo do filme, o roteiro é baseado em duas das obras de Zweig: “O mundo que eu vi", biografia concluída em Petrópolis, e “Cuidado da piedade", que mostra sua terra natal, a Áustria.


Para saber mais sobre Stefan Zweig:








Vídeos - documentários sobre Stefan Zweig:

Stepan Zweig – Paraíso Utópico , documentário


Lost Zweig – Últimos dias de Stefan Zweig no Brasil - trailer oficial, filme inédito de Silvio Tendler




Andréa Nogueira

Andréa Nogueira, natural de SP, é jornalista, graduada pela Escola de Comunicações e Artes da USP (79). Atuou em Agências de Publicidade e Empresas de Pesquisa de Comunicação e Comportamento, até 2002. Foi assessora de comunicação e eventos na área de educação. Especializada em jornalismo cultural escreve, atualmente, sobre Artes e Cinema, em especial, publicando em redes sociais e como colaboradora em sites especializados.

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