Café Literário: Útil inutilidade


Sou um adolescente brasileiro de classe média e só o que tenho a dizer é que me sinto fútil, sinto que tudo é fútil e dispensável no meu mundo. Tudo o que me rodeia, tudo o que faz a vida de um adolescente como eu ou com mais dinheiro. Não tenho uma luta, cultura de verdade, não tenho sentimento de valor, e ao redor do mundo, seja nas recentes classes médias de países emergentes, como o meu, ou nas velhas e gordas burguesias mundo afora, existem milhões como eu. Eu nasci no fim do século XX, mas fui criado e tive minha formação social inicial no século XXI e tudo o que conheço está nele, mas apesar desses 14 anos neste século, sinto como se nada tivesse acontecido, como se houvesse um vazio.

Eu estudei o ensino fundamental, o ensino médio, fiz o vestibular, entrei na universidade e acabo de terminar o meu primeiro ano no curso superior, tudo como deve ser, mas agora paro e olho ao meu redor, olho a minha sociedade, a cultura atual dela, seus valores e ... não sei explicar exatamente, mas sinto um vazio, como se a sociedade que estamos estruturando nesse século fosse inútil, como se estivéssemos apenas “patinando” na história humana. Eu sinto como se não estivéssemos produzindo nada de importante, nada que gere um legado ao Homo sapiens.

Nossa música, nossa dança, a cultura em geral dessa nova geração à qual pertenço é tão inútil, despropositada... tão fútil! Peço perdão pela repetição, mas essa é a palavra na qual melhor encontro definição para a minha geração: futilidade. Tudo o que fazemos é fútil, sem necessidade, sem propósito. Sinto como se estivéssemos aqui só como um estorvo, alguém que só consome e não contribui em nada. Na verdade essa é a definição, só consumimos, não produzimos.

Minha geração não se importa com o futuro, com a história ou com o todo. Cada adolescente em cada canto do mundo só se importa consigo mesmo, com o que consumir, com o que ostentar. Minha geração é incrivelmente mesquinha. É assustador como algo assim pode ser possível, mas só agora vejo a realidade.

Nós temos um mundo a pôr nos trilhos, temos sociedades totalmente desiguais, sete bilhões de seres humanos para alimentar e nós nos preocupamos e damos nossas forças para ficar dias na fila de uma loja de aparelhos celulares só para ser um dos primeiros a comprar a nova geração de um. Gastamos nossos esforços e inteligência em qualquer coisa inútil como músicas sem sentido de qualquer cantor adolescente que não inspira nada, que não passa de mais um jovem problemático.

Só agora posso ver como tudo se inverteu. Nossa sociedade conquistou sua liberdade ideológica, mas ela não sabe usá-la, pois a liberdade virou descompromisso e libertinagem. Valores se inverteram, a responsabilidade sobre qualquer coisa foi perdida, o respeito em relação a qualquer um simplesmente acabou, a preocupação com o próximo não existe mais.

O que me deixa esperançoso é que, como a história mostra, a sociedade humana vai de um extremo ao outro antes de se aprumar. Nós fomos do feudalismo ao Iluminismo, à Revolução Industrial, ao liberalismo, ao desenvolvimento tecnológico que nos libertou das amarras da distância, à livre opinião. Mas agora estamos entrando na libertinagem, na perca de compromisso por falta da cobrança que tínhamos antes, o que provavelmente vai piorar até o ponto em que vamos chegar à anarquia e então começaremos a nos reorganizar e voltar a ser responsáveis pelo que fazemos e dizemos.

Só tenho 17 anos, mas não sei se vou ver o momento em que a raça humana vai voltar a ter senso do que é uma sociedade, de que todos fazem parte desse mundo e que qualquer ação afeta à todos, mas tenho a real esperança de que isso um dia venha a acontecer. No mais, a única coisa que posso fazer é tentar ir contra a corrente, o que é sempre difícil, mas não quero a aprovação das pessoas da minha idade, de grupos, só quero fazer o que a minha consciência humana diz que é certo; consciência essa que não é inerente à conjuntura social e cultural em que nasci, mas que terá de ser construída.

Esse desabafo é um grão de açúcar num Mar Morto de inutilidade e futilidade, não fará diferença nenhuma, mas de qualquer modo, mesmo não sendo sentido por ninguém é fundamental criticar e ir contra, pois quem sabe, assim, possamos intervir nessa disfunção da liberdade que nos domina.

Bruno Henrique de Souza
brunosouza_pessoal@live.com

Bruno Henrique de Souza, 17 anos, paranaense de Cianorte, graduando em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Maringá, amante da sociologia e todo tipo de arte escrita, adolescente deslocado frente ao superficial século XXI.

Um comentário:

  1. Ah, mas lembrei-me de algo curioso... fui adolescente nos anos 80 e naquele tempo cantávamos "A gente somos inútil" do grupo Ultraje a Rigor... a coisa já estava ficando feia desde aquela época!

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