Café Literário: Último Beijo


Em pé na sacada de seu apartamento, sentia a brisa bater no rosto cheio de lágrimas. Seu corpo não trazia nenhuma ferida. Seus órgãos internos estavam bem. Não estava doente, mas sentia-se muito mal. Sentia uma dor insuportável, estava há dias sem dormir, já havia perdido a sanidade.

Olhou pra baixo. Morava no 13°. A queda pareceu-lhe extremamente sedutora. Pensou em pular e acabar com aquela agonia. No outro dia os jornais noticiariam: “Jovem empresário comete suicídio após morte da namorada”.

Saiu da sacada, tentou dispersar aqueles pensamentos suicidas.

Tomou vários remédios para depressão e caiu na cama.

A dose não foi controlada.

Como seria bom acordar e perceber que foi tudo um pesadelo. Um horrível pesadelo.

Sempre que fechava os olhos a única coisa que passava em sua cabeça era aquela noite. A pior noite de sua vida. A noite em que a perdeu.

Ainda conseguia lembrar-se do som da chuva abafado pela discussão exaltada do casal.

Perdeu o controle, não foi culpa dele, havia algo na pista, talvez um cachorro ou gato, não sabia dizer. Estava escuro. As rodas deslizaram na pista molhada e o carro capotou.

Ao lembrar, tudo parecia tão real, parecia estar acontecendo de novo e de novo e de novo.

Conseguiu até sentir o gosto do sangue que estava nos lábios dela enquanto davam o ultimo beijo, suas ultimas palavras ecoarão em sua mente: “Eu te amo”.

Ela se foi. Agora nada mais importava.

Continuou lembrando e relembrando... Até que adormeceu. A dose não foi controlada.

Luks Silva

Nascido e criado em Brasília-DF, sempre tive o desenho como principal paixão, mas nos últimos meses, a prosa e a poesia conseguiram um lugar na minha vida. Ilustrador amador e escritor mais amador ainda. Talvez um dia consiga produzir algo e não morra sem ter feito nada de bom.

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