Café Literário: Tati

 

Tati.

Ela era a menina-mulher mais incrível que eu poderia conhecer. No auge dos seus 24 anos vivia no sofá, assistia friends e fumava em média meio maço de cigarros ao dia. Não cozinhava, passava ou lavava. Não trabalhava. Não saia pra dançar, nem tirava selfies constantes pra postar no Facebook. Não fazia nada que uma garota de 24 anos fazia. Ela era só e devagar. Muito devagar. 

Quando nos conhecemos, minha vida girava 360º e corria na velocidade da luz. Tudo acontecia o tempo todo e muitas coisas matavam meu tempo.

Tati tinha os olhos puxados, um cabelo preto liso e um cheiro de fazer apaixonar qualquer cidadão consciente do cheiro bom que pode um ser humano ter. Um peito grande, e uma perna fina, que contrastavam e criavam o equilíbrio necessário para ser bonita.

Tati gostava de músicas antigas, seriados modernos e usava sempre samba-canção do pai, e no começo, uma regata cinza que deixava seus peitos ainda mais bonitos.

Quando a conheci, tive aquela sensação que não-sei-explicar e quis ficar ali, conhecendo ela pra sempre.

Tive a chance de partir, uma, duas, mil vezes. Mas não quis. Não pude. Tatiani criava sempre aquela distância precisa entre a paixão e o tédio, que me efervesciam e me excitavam. 

Ela nunca disse, em momento algum, nada que me fizesse crer que era amor de verdade. Mas eu soube que era, quando a conheci por dentro  e desvendei esses mistérios todos que cercam o eu de alguém.

Eu cozinhava, lavava e passava e Tatiani me olhava, me filmava, me fotografava, fumava um cigarro e ria. E ela tinha a risada mais gostosa do mundo. Tinha a voz mais gostosa do mundo. Tinha o peito pra eu dormir mais gostoso do mundo.

Podíamos ser diferentes, pensar diferente e agirmos de formas diferentes, mas, sem ser clichê, criávamos um mundo nosso, do qual ninguém poderia entrar ou sair, além de nós. O aconchego do nosso quarto, o cheiro dos nossos lençóis, isso e mais um pouco, só nós poderíamos querer viver e saber que era bom.

Chegar em casa e saber que ela me esperava, era bom. Poder abraçá-la antes de dormir e poder abraçá-la pela manhã era sensações tão gostosas. Faziam meu corpo tremer. E somente ela fazia meu corpo tremer daquela maneira. Me dando tesão e amor na mesma proporção. Me fazendo querer e querer sempre mais.

Fazer amor era sempre uma realização emocional e física. Uma completa satisfação do tesão. Um prazer absoluto. Amor também era trepar, também era transar, também era mais do que amor.

E todas as loucuras sentimentais, os devaneios de mulheres chapadas, as bebedeiras no karaokê de domingo, os jogos de azar e os de sorte, todas as refeições dentro e fora de casa, seguidas sempre de uma água ou uma Coca ou um suco de caixinha comprado no condor e um cigarro, eram as nossas maiores motivações. Era o nosso contexto, sem ponto final ou texto ou, ou ou

Tatiani ia embora pra ser alguém grande, e seria em breve alguém grande. O sonho maior dela era ser alguém grande, e realizar coisas grandes. E ela com certeza conseguiria. Tatiani ia embora porque estava cansada de viajar por aí, precisava de um canto seguro pra ficar. Precisava mesmo saber o caminho e se ia demorar muito pra achar o tesouro. Ela ia encontrar a riqueza, os amigos, os pais, o lar.

Mas se ela viesse pra casa hoje, eu a estaria esperando com uma janta e um suco ou uma Coca Cola, pra podermos jantar e depois fumar um cigarro e falar sobre os outros, sobre a lua, sobre como estamos cansadas da vida, mesmo tendo começado a viver ontem. Depois, eu diria pra ela que ela é a mulher mais incrível do mundo e que tudo daria certo, porque ela já era grande, e já tinha feito coisas grandes. Ela já tinha me feito feliz e que me fazer feliz era ser grande e me fazer grande.

Tatiani e seus olhos puxados, seu cabelo escuro com cheiro de melão, suas tatuagens feitas pela loucura de uma erva num dia qualquer na casa de amigos, seus peitos, seus dedos tortos, sua preguiça exagerada, sua ansiedade louca, seus cigarros todos, seus seriados que me irritavam - pelo amor de deus você já viu esse episódio mil vezes deixa eu trocar de canal - seu caráter, sua personalidade forte, sua teimosia, sua paciência com as minhas loucuras, sua saudade de mim, muito menor do que a minha.

Se ela soubesse que eu choro e peço pra por favor ser um sonho e eu acordar do lado dela amanhã, se ela soubesse que eu cortei os chocolates, cheguei meia hora mais cedo no meu compromisso e não faltei a aula da faculdade hoje, se ela soubesse que eu sinto falta de cozinhar lavar e passar vendo ela me fotografar e me filmar e fumar um cigarro e depois rir com a risada mais gostosa do mundo, ela voltaria.

Mas ela precisa estar lá e eu aqui. E nós precisávamos terminar no momento bom. Precisávamos crescer. Era o que a Tatiani dizia antes de partir. Ela não sabia como doeria. Não sabia que nós não encontraríamos ninguém como nos encontramos. Não seríamos completas se estivéssemos longe.

Tatiani seria feliz sem mim. E me esqueceria logo. Tatiani só precisava levantar do sofá. E comigo, ela jamais faria isso. Nem eu faria. Porque nós nascemos no sofá, e se uma de nós não resolvesse levantar, nós morreríamos lá.

Bianca Garmus


Bianca Garmus, estudante de Letras, Professora de línguas. De pequena aprendi a falar, de grande, aprendi a escrever. Levo comigo a certeza da influência literária moderna sob os meus textos, e a esperança de encontrar na escrita, na vida, a felicidade. Escrever e ser. A linha entre essas duas palavras é fina, mas infinita. Apenas 20 anos, e uma história toda para construir.

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