Café Literário: O buraco e a luz

   
Eu tentei fechar aquele buraco de todas as maneiras imagináveis! Sabe aquelas coisas bobas que te perseguem? Então, caro amigo, comigo era aquele buraco. As janelas do meu quarto estavam sempre fechadas. Eu só abria para contemplar a chuva: Como eram lindos aqueles raios e trovões! Na rua, as pessoas se desesperavam em busca de um teto, enquanto eu desfrutava da minha confortável cama de casal. A tragédia alheia era como um circo ao vivo. Meus palhaços favoritos se faziam do choro para viver.
Aquele buraco, na realidade, era uma perfuração na parede. Dali vinha uma luzinha irritante que me perseguia. Tentei fechar a tal luz com todos os materiais que eu tinha a disposição: papel crepom, retalhos de camisa, garrafas de uísque paraguaio, além da droga do prego velho: Bendito prego que fez o buraco aumentar ainda mais! Á luz ficava cada vez maior; á luz irritava cada vez mais.
Minha retina se acostumou com a treva do negro. Tudo fica mais fácil no meio do nada. Eu não vejo ninguém sorrindo; ninguém dançando; eu não vejo ninguém vivendo. Eu me escondo da felicidade alheia por saber que ela nunca será a minha felicidade.
Mas tinha que ter esse maldito buraco na parede do armário. Eu confesso que acabei olhando por aquela fresta. Curiosidade besta que, certamente, daria em mais um ataque depressivo regado a uísque paraguaio.
Na rua, duas mulheres se abraçavam, enquanto dois pivetes jogavam  gol a gol com traves feitas com pedaços de pedra.Como aqueles meninos eram felizes. Eu lembrei um pouco da minha infância. Eu sorri algumas vezes durante ela; eu sorri pouquíssimas vezes enquanto ela durou.
Resolvi pegar meu espelho. Era uma tela de televisão quebrada que eu usava para me enxergar quando a depressão se instaurava. Eu nunca gostei de me enxergar alegre. Naquele vidro sujo aparecia um homem imundo, com restos de carne nos dentes e barba completamente disforme. Eu aparava meus pelos do rosto com um facão do açougue aonde eu trabalho. Afinal de contas, alguém como eu só poderia viver para matar.
Quando comparei aquela face estampada na tela, com a face das crianças que jogavam futebol, me senti o pior sujeito do mundo. Na verdade, foi apenas mais uma maneira de atestar, mais uma vez, que eu era esse sujeito.
Atirei meu espelho falso no chão. A falsidade daquele espelho quebrado era o reflexo perfeito da minha falsidade que se deteriorava com o passar do tempo.
Aquela fresta na parede ainda me irritava. Resolvi colocar vários pedaços de papel para acabar com aquela luz. Eu sabia que aquela era uma paródia da minha vida.
Quando terminei de colocar todos os pedaços de papel possíveis, ouvi um grito vindo da rua: ‘’ Gol, do Palmeiras!’’, dizia, provavelmente, um dos moleques que jogavam bola, enquanto, de fundo, ressoava à voz das duas meninas gargalhando. Elas deviam estar rindo por vivenciar gratuitamente aquele ataque de alegria infantil.
Graças a deus, eu já havia fechado o buraco…
Até a próxima:
Müller
Oliver Russel 
 
Oliver Russel é um jornalista de botequim que acredita piamente na frase ‘’ Um livro pode mudar o mundo’’. Seus sonhos são loucos e  vão desde pichar a muralha da China, até fundar uma ONG para descobrir jovens escritores nos rincões mais sujos da sociedade. Ele ainda vai ter uma centopéia de estimação e visitar uma plantação de carambolas para falar, na frente do seu proprietário, a celebre frase dos pés de carambolinhas. No meio disso tudo ele vem trabalhando em seu primeiro romance que ainda será lido pelo filho de Charles Bukowski.

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