Café Literário: O beija-flor


Vou pôr de lado qualquer aparato e falar com você assim: diretamente. Me chamo Wagner Reimann. Nasci na Alemanha, mas vim para o Brasil ainda muito pequeno. Levo esse nome em homenagem ao famoso compositor de Leipzig. Peço apenas que me escute, e me ajude, se for possível. Faz alguns dias (eu acho) produzi um conto. Tratava de um assassinato que eu havia cometido mas não era o culpado. Quis mostrá-lo à minha esposa e o imprimi. Guardei-o na gaveta do criado-mudo: à noite, após o vinho, iria oferecê-lo. Bebemos e petiscamos — assistimos a e demos risada — até que, cansados, fomos dormir. Somente na manhã seguinte foi que me lembrei de lhe mostrar o conto.

Era em torno de 11h30. Me sentei na cama e abri a gaveta: o conto, em singelas três folhas, estava ali, como uma criança que aguarda ansiosa ser pega no colo. Tomei-o nas mãos e a chamei. Um tremor involuntário, como um vento gélido que sobe pelo corpo, se apossou de mim — ela havia sumido! Não estava no quarto, na biblioteca, no ateliê. Quando abro a porta da sala, a fim de procurá-la lá fora, uma luz amarela quase me cega e no mesmo instante desperto em minha cama.

Era em torno de 11h30. Me sentei na cama e pensei em abrir a gaveta, mas a recente sensação se uniu à memória e um arrepio me subiu pela espinha — me virei e vi: minha esposa dormia ao meu lado. Deixei-a e fui passar o café. Minutos depois, ela entrava na cozinha dizendo Bom dia naquela voz suave que têm os amantes após uma noite de amor. Está quase pronto, eu disse. Vai querer seu pão na chapa? Vou. Terminei o conto. Quero que você leia. Tudo bem, ela disse. Deixei a mesa pronta e fui abrir a porta da sala, pra ventilar. Uma luz amarela quase me cega e no mesmo instante desperto em minha cama.

Era em torno de 11h30. Devo ter tido pesadelos, pois minha esposa segurava meu braço dizendo para eu me acalmar. Quando consegui (ela já tinha me trazido café e pão torrado), me lembrei do conto e quis lhe mostrar. Abri a gaveta e o peguei. Mas algo estranho havia acontecido. Na primeira folha — e nas outras, como depois verifiquei — não havia nada escrito! tudo estava em branco, como se nenhuma tinta tivesse umedecido aquelas folhas! Diante do meu desespero, ela tentou novamente me acalmar. Foi à cozinha buscar-me um copo d’água. Eu a segui. Quando saio do quarto, uma luz amarela, vinda da porta aberta da sala, quase me cega e no mesmo instante desperto em minha cama.

Era em torno de 11h30. O verdadeiro terror veio como nuvem carregada anunciando temporal. Acordei aflito — olhei para o lado e NÃO vi a minha esposa — abri a gaveta e NÃO encontrei meu conto. Andei pela casa sem saber o que fazer. Liguei para as famílias minha e dela — ninguém atendeu; liguei para amigos — idem; para a polícia — ibidem. Desliguei. Busquei por ela por toda a casa — e nada. Procurei meu conto em todos os lugares possíveis e impossíveis — e outro nada. Fui até a sala e abri a porta, esperando que uma luz amarela me fizesse despertar ao lado de minha esposa outra vez. Não deu certo. Então uma ideia estalou na minha cabeça. Da mesma maneira que ela havia sumido, as linhas de meu conto também; se eu as reescrevesse talvez ela reaparecesse. Pus-me a trabalhar. Tentei lembrar cada parágrafo, cada oração, cada palavra. Com muito esforço consegui. Mas Morpheu (ou Hipnos) impediu-me o intento. A cada linha começada a anterior desaparecia, absorvida pelo papel, e dessa forma eu estava impossibilitado de terminar minha ficção. Porém, isso foi pouco antes de eu desistir completamente do meu propósito. No começo, eu havia reescrito uma página inteira, e quando terminara a outra a primeira tinha se apagado inteiramente. Já para o fim, eu mal escrevia uma palavra, uma letra sequer, e esta desaparecia. Compreendi, após muito pensar, que eu não poderia reescrever a mesma narrativa (talvez ela estivesse escrita noutro universo, por outro eu, talvez eu mesmo já a houvesse escrito e agora não a poderia refazer) e arrisquei compor outra. Esta. Receei, de cara, que não fosse conseguir, mas, como você vê...

Não durmo mais. Não consigo. Tenho sono. Sinto cansaço. Minhas pálpebras pesam. Mas mesmo que eu me deite na cama e feche os olhos — não durmo. Escrevo com a esperança de que esta narrativa saia desta prisão temporal e espacial (não sei como chamar a isto) em que me encontro e me leve de volta à minha esposa. Ao menos chegue a ela e ela saiba da minha sorte (se isto não for um coma). Me dirijo agora a você, meu amor: a amo profundamente, com a alma de um poeta clássico e o coração de um escritor romântico. Sinto saudades... Do meu Amor... Do beija-flor... Desculpe: não lembro o verso.

Alguém (ó agonia!) ache estas palavras — quem sabe o conto.

Rodrigo Della Santina

Rodrigo Della Santina é poeta e escritor, autor de dois livros de poesia (“Intertrigem”, de 2005, esgotado, e “O limiar do surto”, de 2008, respectivamente pelas editoras CBJE e Scortecci) e de um e-book de mini narrativas intitulado “A cor da chuva”. Faz colaborações em blogues pela internet e teve dois de seus trabalhos (“Num Café” e “A carta”) publicados, respectivamente, nas revistas Benfazeja e Flaubert.

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